A reabilitação cardíaca é, para muitos, o passo que se segue após um enfarte agudo do miocárdio. Ou deveria ser. Mas o facto de ser realizar em ambiente hospitalar, exigindo do doente disponibilidade e transporte, acaba por afastar a maioria de programas que podem fazer a diferença na sua saúde. E se fosse feita em casa? A questão foi colocada por um grupo de especialistas, que concordam que os resultados podem ser excelentes.

Em Portugal, a percentagem de doentes que participaram, nos últimos anos, em programas de reabilitação cardíaca de fase III foi de cerca de 4%. Para estes números contribui a disponibilidade dos doentes, mas também a falta de resposta adequada do Sistema Nacional de Saúde, a falta de investimento em recursos humanos e materiais e a escassez de centros e a sua localização concentrada nas grandes cidades.

Mudar este cenário é o que se pretende e fazê-lo em casa pode ser a solução. 

“Contrariamente ao conceito generalizado de que a reabilitação cardíaca tem de ser feita sob vigilância direta há, nos casos de baixo risco cardiovascular, a possibilidade de efetuar reabilitação supervisionada à distância”, afirma Mesquita Bastos, professor na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro (ESSUA) e cardiologista no Centro Hospitalar do Baixo Vouga, em Aveiro.

Especialista que, juntamente com outros colegas, realizou uma investigação sobre o tema, que confirma as vantagens da reabilitação cardíaca em casa.

Reabilitação cardíaca: ganham os doentes e ganham os serviços de saúde

O estudo que envolveu a ESSUA, realizado no âmbito do Doutoramento em Ciências e Tecnologia da Saúde de Andreia Noites, onde participaram também o Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e a Escola Superior de Saúde do Porto, envolveu um grupo de pessoas em recuperação de um enfarte do miocárdio, que fez um programa de exercícios, três vezes por semana, em casa, durante oito semanas.

Depois das informações e aconselhamentos presenciais, foram monitorizadas à distância a atividade física e os sinais vitais dos doentes, com recurso a dispositivos eletrónicos.

Resultado: sem os entraves dos quilómetros até aos hospitais centrais ou centros clínicos e a restrição dos horários das sessões, os doentes não só aderiram ao programa de exercício físico e educação para hábitos de vida saudáveis proposto, como obtiveram excelentes resultados na melhoria da saúde cardiovascular.

Esta prática, segundo Mesquita Bastos, torna possível “abranger uma maior população, incluindo a que se encontra impedida de o fazer pela distância até aos locais dos programas (hospitais, clínicas) e, desta forma, criar uma rede de reabilitação com todo o suporte tecnológico que hoje existe”.

Ganham os doentes e ganha o Sistema Nacional de Saúde, que terá menos gastos.