Desde março, foram adiadas mais de quatro milhões de consultas em Centros de Saúde, um milhão de consultas das várias especialidades médicas e mais de 100 mil cirurgias. Como resultado, os 50 mil diagnósticos anuais de doenças oncológicas, como o cancro digestivo, não se concretizaram na sua plenitude”, alerta Vitor Neves, presidente da Europacolon Portugal – Associação de Apoio ao Doente com Cancro Digestivo. “Os rastreios de base populacional também estão paralisados, entre os quais o do cancro do intestino, que é o de melhor custo-benefício. Já os poucos que se realizam e testam positivo ficam meses à espera da consequente colonoscopia total. Em alguns hospitais, o prazo de realização deste exame ultrapassa os 12 meses. E esta situação é muito grave!”, conclui.

O presidente da Europacolon revela preocupação “com a falta de resposta e atraso do diagnóstico e tratamento do cancro digestivo e, pior que isso, com a ausência de resposta estratégica e transparente do Ministério da Saúde para resolver este problema, pois se nada for planeado teremos um futuro com taxas de mortalidade ainda mais elevadas no que diz respeito a estas patologias”.

Para Vítor Neves, “a atitude de desvalorização e desorganização dos cuidados nos doentes portadores de doenças crónicas está a avolumar danos na população portuguesa, nomeadamente a causar diminuição da sobrevivência e perda de qualidade na estabilização das várias doenças oncológicas”.

Há 17 mil novos casos de cancro digestivo por ano

O cancro digestivo, que abrange um conjunto de vários tumores malignos, tais como do intestino, pâncreas, estômago e fígado, quando não diagnosticado e tratado atempadamente, reduz significativamente a qualidade e esperança média de vida do doente.

Vítor Neves explica que, “para evitar problemas maiores, é importante o rastreio atempado ao cancro digestivo, dos 50 aos 74 anos ou até antes desta idade, no caso de existirem antecedentes familiares diretos ou na presença de sintomas relacionados”.

Por ano surgem cerca de 17 mil novos cancros digestivos em Portugal, sendo que 10 mil destes doentes não sobrevivem.

Se a este número adicionarmos a falta de diagnóstico atual, teremos um valor ainda mais elevado. É com base nestas estatísticas que Vitor Neves afirma que “não podemos ficar parados por causa da pandemia. Existem outras doenças que matam e em número mais elevado. O Ministério da Saúde devia ter uma estratégia para retomar e continuar com a prevenção de doenças oncológicas, pois só no caso do cancro digestivo é a saúde de muitos cidadãos portugueses que está em causa”.

Existem dois fatores que têm de mudar urgentemente, explica. “Se, por um lado, o Ministério da Saúde tem de garantir as consultas, os rastreios e os tratamentos, por outro, os portugueses não podem ter medo de ir ao hospital, têm de confiar no sistema e perder o medo de sair à rua”.

De forma a inverter esta situação, “a Europacolon está disponível para apoiar a comunicação com a população e com Ministério da Saúde, para delinear uma estratégia de retoma dos diagnósticos e tratamentos do cancro digestivo”.

Vítor Neves termina com a sugestão de três ações estratégicas, que devem ser implementadas de imediato: criar e divulgar um Programa Excecional de recuperação das listas de espera para cirurgias, consultas e exames complementares de diagnóstico, com divulgação pública e periódica das respetivas métricas; implementar rastreios de base populacional ao cancro do intestino, com a publicação mensal dos testes e médias de adesão; aumentar o investimento em recursos humanos e equipamentos no SNS, em verbas equivalentes às dos vários países europeus.