Antigamente, o percurso era certo. E previsível: os casais tinham filhos e estes, quando cresciam, deixavam o ‘ninho’. Hoje, não só o fazem cada vez mais tarde, como há ainda um grupo, a quem chamam ‘geração boomerang’, que regressa a casa dos pais depois de já ter batido asas. É assim um pouco por toda a Europa. Uma mudança que, garante um estudo da London School of Economics and Political Science (LSE), contribui para um declínio significante na qualidade de vida e bem-estar dos pais.

Os investigadores analisaram dados de maiores de 50 anos e dos seus companheiros em 17 países europeus, Portugal incluído, referentes aos anos de 2007 a 2015. O resultado: o bem-estar dos pais reduz-se bastantes com o regresso dos filhos, e isto independentemente da razão que os faz voltar ao ninho vazio.

Publicado na mais recente edição da revista científica Social Science & Medicine, o trabalho, realizado por Marco Tosi e Emily Grundy, do Departamento de Política Social da LSE, confirma que “ao longo do último meio século, a co-residência intergeracional diminuiu drasticamente nos países ocidentais”. Um padrão que mudou recentemente, tendo vindo a aumentar em alguns países, sobretudo devido às “elevadas taxas de desemprego, perspetivas de trabalho precárias e dificuldades financeiras entre os jovens adultos”.

Os investigadores olharam apenas para os participantes com idades até aos 75 anos, para eliminar a possibilidade de o regresso ter sido motivado por necessidades manifestadas pelos pais. E utilizaram uma escala de qualidade de vida, que mediu “sentimentos de controlo, autonomia, prazer e autorrealização na vida quotidiana”, com base em 12 indicadores.

Filhos continuam a ser sinónimo de cadilhos

Os resultados não deixam dúvidas: quando um filho regressa ao ninho, a pontuação diminuiu em média 0,8 pontos, um efeito substancial na qualidade de vida, semelhante ao desenvolvimento de uma deficiência relacionada com a idade, como dificuldade em andar ou vestir-se.

E embora os diferentes motivos para o regresso, como o desemprego, o fim de uma relação sejam, por si só, angustiantes para os pais, ainda assim o retorno dos filhos continua a provocar o declínio no bem-estar parental.

“Os pais gozam de sua independência quando os filhos saem da casa, e voltar a encher um ninho vazio pode ser considerada uma violação deste estádio da vida”, revela Marco Tosi. “O relacionamento conjugal melhora e os pais encontram um novo equilíbrio. Desfrutam desta fase da vida, encontrando novos hobbies e atividades”, conclui, um efeito que é partilhado, de forma geral, em todos os países analisados.