À medida que a resiliência do sistema alimentar ganha nova atenção nos debates políticos da União Europeia (UE), um novo inquérito do Observatório do Consumidor Alimentar do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT) destaca um desafio essencial para o setor agro-alimentar: os consumidores podem preocupar-se com a forma como os seus alimentos são produzidos, mas termos técnicos como agricultura “resiliente” e “regenerativa” dificilmente influenciarão as suas escolhas alimentares, a menos que sejam traduzidos em benefícios claros e pessoais.
O relatório, intitulado “Fazer com que a Agricultura Importe: Rumo a um posicionamento centrado no consumidor da agricultura resiliente e regenerativa”, explora como os alimentos produzidos através de práticas agrícolas resilientes e regenerativas podem ser melhor comunicados aos consumidores.
As conclusões sugerem que, embora os consumidores reconheçam a necessidade de melhorias na agricultura, são mais propensos a responder a mensagens que ligam as práticas agrícolas a benefícios que podem compreender e valorizar no momento da compra, tais como melhor sabor, percepção de saúde, menos insumos químicos, ligações visíveis com os agricultores e certificação fiável.
Para muitos consumidores do estudo, a “agricultura resiliente”, ou seja, a capacidade dos sistemas agrícolas de antecipar e adaptar-se a choques climáticos, económicos ou sociais, mantendo o abastecimento alimentar, é vista como importante, mas não como algo que deva orientar as escolhas alimentares pessoais no supermercado. Os consumidores tendem a esperar que os governos, os agricultores e o sistema alimentar em geral mantenham os alimentos disponíveis, em vez de considerarem a resiliência como uma responsabilidade própria no momento da compra.
O inquérito aponta ainda para uma clara preferência sobre a forma como a mudança deve ser apresentada: os consumidores querem que a agricultura se baseie em valores tradicionais, utilizando tecnologia moderna para que funcione em grande escala. Um regresso aos “métodos antigos” por si só foi considerado ingénuo ou comercialmente inviável, mas a combinação de princípios tradicionais como a filosofia e as ferramentas modernas como método foi vista como credível e atraente.
Após testar três mensagens diferentes, a investigação descobriu que as mensagens sobre alimentos com melhor sabor, que parecem mais saudáveis e que vêm com provas fiáveis eram mais envolventes. O relatório constatou que a narrativa mais forte testada, “Alimentos que realmente nutrem”, ligou a agricultura resiliente a solos mais saudáveis, sabor mais intenso, menos insumos sintéticos e alegações comprovadas, e teve maior repercussão no contexto dos produtos processados e industrializados, onde os consumidores não consideram a saúde como algo garantido.
“Os consumidores estão a dizer-nos que querem que a agricultura mude, mas ‘resiliente’ e ‘regeneradora’ não são as palavras que usam nas compras”, afirma Klaus G. Grunert, professor de Marketing na Universidade de Aarhus e líder do Observatório do Consumidor Alimentar do EIT. “Quando traduzimos estas práticas em coisas que as pessoas podem provar, confiar e comprovar, como melhor sabor, menos químicos, um agricultor que possam imaginar ou um selo independente que reconheçam, o interesse existe. A oportunidade para o setor é liderar com o benefício, não com a técnica.”
As lacunas: da confiança à acessibilidade
A pesquisa também destaca uma lacuna de confiança. Os consumidores do estudo confiaram mais nos agricultores do que nos retalhistas ou fabricantes e mostraram-se frequentemente céticos em relação às alegações feitas pelas marcas.
Esta descoberta corrobora o Relatório de Confiança de 2026 do Observatório dos Consumidores de Alimentos do EIT, que identifica os agricultores como os atores mais fiáveis no sistema alimentar. Em conjunto, os relatórios sugerem que as alegações sobre a qualidade, as práticas agrícolas e os valores são mais credíveis quando estão ligadas a agricultores visíveis, origens claras dos produtos e comprovação independente, em vez de serem comunicadas apenas através de marcas.
A confiança, no entanto, não é a única barreira. O estudo também constatou que o preço continua a ser um desafio persistente, uma vez que os consumidores tendem a assumir que uma agricultura melhor significa custos mais elevados, e as alegações de preços mais baixos foram consideradas credíveis apenas quando os intermediários são eliminados, como nas lojas de venda direta ao consumidor ou de distribuição local.
Muitos consideraram também a acessibilidade financeira um problema que o governo deve abordar, acreditando que o atual sistema alimentar recompensa a produção barata e em grande escala em detrimento de uma melhor agricultura, e que os governos, e não apenas os agricultores e os consumidores, deveriam apoiar a transição e ajudar a reduzir o custo dos alimentos de qualidade.
O relatório sugere que os agricultores, retalhistas, fabricantes de alimentos e decisores políticos devem concentrar-se menos na explicação dos métodos técnicos de cultivo e mais no que estas práticas significam para os alimentos que as pessoas escolhem. Isto inclui uma comunicação mais clara sobre o sabor, a saúde, a naturalidade, a origem do produto e a verificação independente.
“A agricultura resiliente é uma das maiores oportunidades da Europa para reforçar a segurança alimentar, ao mesmo tempo que restaura a natureza, melhora os meios de subsistência dos agricultores e constrói cadeias de valor agroalimentares mais competitivas”, acrescenta Elvira Domingo Varona, Diretora de Liderança Temática em Agricultura Resiliente da EIT Food.
“Na EIT Food, reunimos agricultores, indústria, inovadores, investigadores, investidores e decisores políticos para acelerar esta transição. Através de iniciativas colaborativas de gestão da paisagem, inovação e novas abordagens de financiamento, ajudamos a transformar a agricultura regenerativa de projetos-piloto isolados em soluções escaláveis e economicamente viáveis. Ao ligar todo o sistema alimentar, estamos a criar as condições para que a agricultura resiliente gere impactos ambientais, económicos e sociais duradouros.”
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