Plataforma quer ajudar cuidadores de doentes

Lançada em Leiria plataforma digital para apoiar cuidadores de pessoas dependentes

Por | Bem-estar

Facilitar a vida dos cuidadores é o objetivo do Help2care, um projeto multidisciplinar desenvolvido na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria, composto por um manual de apoio ao cuidador (físico, áudio e vídeo), uma plataforma online (com website público, backoffice para os profissionais de saúde, e aplicação para os cuidadores informais) e um guião com o modelo de capacitação.

Trata-se de um projeto multidisciplinar, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, Compete 2020 e União Europeia, que procura dar resposta a uma necessidade premente, tendo em conta o aumento do número de cuidadores informais, que se estima chegar aos 800 mil em todo o País.

“É muito importante dar apoio aos cuidadores através da capacitação para cuidar do seu familiar, mas também para promover o autocuidado, a fim de promover a sua saúde, prevenindo a exaustão”, explica Maria dos Anjos Dixe, coordenadora do CiTechCare e docente da Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria, que lidera o projeto.

De acordo com a especialista, “a plataforma dá acesso personalizado (gerido por profissionais de saúde) aos materiais, nomeadamente textos, imagens e vídeos demonstrativos de procedimentos/técnicas e informações necessárias para apoiar o cuidador informal, no cuidado da pessoa dependente e no autocuidado”.

Depois, através da aplicação, “o cuidador informal poderá ainda ter apoio dos profissionais de saúde ligados à plataforma”.

“O nosso objetivo é facilitar o dia-a-dia do cuidador informal, fazê-lo sentir-se apoiado e confiante nas suas competências, para que não só cuide do seu familiar dependente da forma correta, maximizando o seu bem-estar, como cuide dele próprio. No fundo, que não se esqueça de si.”

Conteúdos validados por profissionais de saúde

O Help2Care resulta de um projeto em rede, interdisciplinar, colaborativo, multiregional e de investigação baseada na prática, que envolve estudantes, docentes, e profissionais de saúde, e que é liderado pelo CiTechCare do Politécnico de Leiria, e copromovido pela Escola Superior de Saúde Dr. Lopes Dias do Instituto Politécnico de Castelo Branco, pela Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Santarém e pelo Centro Hospitalar de Leiria.

Os conteúdos da plataforma foram todos produzidos por investigadores, profissionais de saúde e estudantes, e estão em permanente atualização. Para além disso, a plataforma online e a app incluem feedback dos profissionais de saúde às questões dos utilizadores.

O Help2care inclui conteúdos, entre texto, vídeos exemplificativos e áudio, acessíveis e de fácil compreensão.

investigação sobre tipos de sangue

Cientistas mais perto de transformar tipos de sangue A e B em universal

Por | Investigação & Inovação

São frequentes os apelos para a doação de sangue, uma dádiva que pode salvar vidas. Agora, um grupo de investigadores deu um novo passo no sentido de minimizar as necessidades de sangue, ao encontrar enzimas, presentes no intestino humano, capazes de transformar o sangue do tipo A e B em O, o dador universal.

Os resultados desta investigação foram apresentados recentemente, num encontro da American Chemical Society, a maior sociedade científica do mundo, que teve lugar em Boston, nos EUA. 

“Estamos particularmente interessados nas enzimas que nos permitem remover os antigénios [substância que causa a formação de um anticorpo específico] A ou B dos glóbulos vermelhos”, explica Stephen Withers, investigador da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.

“Se conseguirmos remover estes antigénios, que são apenas açúcares simples, então podemos converter o sangue A ou B em O.”

Caminho “muito promissor”, acreditam investigadores

Não é a primeira vez que se procura, através de enzimas, transformar os tipos de sangue A e B em O, o que mais procura tem nos hospitais. A diferença aqui é que estas são 30 vezes mais eficientes do que as que foram alvo de estudos anteriores. Um trabalho que só foi possível com recurso a técnicas de análise massiva de ADN, conhecidas como metagenómica. 

Atualmente, Withers  e o seu grupo estão a trabalhar no sentido de validar estas enzimas e testá-las em maior escala para possíveis ensaios clínicos. A isto junta ainda a vontade de realizar uma evolução direcionada, ou seja, criar uma técnica de engenharia de proteínas capaz de simular a evolução natural, com o objetivo de criar a mais eficiente enzima de remoção de açúcar.

“Estou otimista de que temos um candidato muito interessante para ajustar o sangue doado a um tipo comum”, diz Withers. “Claro, terá que passar por muitas etapas clínicas para termos a certeza que não há consequências adversas, mas parece muito promissor.”

poluição do ar diminui capacidades cognitivas

Poluição do ar reduz a inteligência

Por | Ambiente

Que a poluição do ar provoca problemas respiratórios e rouba anos de vida já era certo e sabido. Agora, um novo estudo chinês acrescenta aqui outros efeitos, garantindo que a contaminação está também a ‘roubar’ capacidades cognitivas.

Muito se tem falado sobre o tema, mas ainda que poucos estudos se tenham debruçado sobre o impacto ao nível intelectual da poluição.

Este novo trabalho, realizado na China, um dos países mais poluídos e que mais polui do mundo, e publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, procurou ir mais além do que os anteriores e olhou para a forma como a exposição a longo prazo à poluição atmosférica afeta o desempenho na área da matemática e de linguagem em mais de 25 mil pessoas.

E confirma que as pessoas expostas a elevados níveis de poluição podem ver reduzia a sua capacidade intelectual, situação que acontece mais nos homens e sobretudo entre os mais idosos.

Custo total da poluição pode estar a ser subestimado

Tudo foi feito através de uma comparação entre os testes de linguagem e matemática e os níveis de dióxido de nitrogénio e enxofre, dois elementos que integram o ‘cocktail’ da poluição do ar. Os dados confirmam que, de facto, quanto mais elevados os valores da contaminação, piores os resultados.

E dão também conta de que “o efeito indireto sobre o bem-estar social pode ser muito maior do que se pensava anteriormente”. O que significa, garantem os autores do estudo, que podemos estar a “subestimar o custo total da poluição do ar”.

Dados que preocupam os investigadores, tanto mais que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, a poluição do ar foi responsável por qualquer coisa como 4,2 milhões de mortes prematuras em todo o mundo só em 2016, mais de um milhão das quais na China.

Aos números acrescentou o alerta de que a exposição a curto e longo prazo à contaminação atmosférica aumentou o risco de AVC, doenças cardíacas, cancro do pulmão, doenças crónicas e doenças respiratórias agudas.

Pele inteligente pode ser usada por robots

Uma pele ‘inteligente’ capaz de dar aos robots a sensação de tacto

Por | Investigação & Inovação

Uma mão robótica coberta de “pele inteligente”, que replica o sentido humano do tacto, está a ser desenvolvida por cientistas britânicos. O objetivo? Melhorar as próteses e construir robots com um sentido de toque.

Uma pele sintética, ultra-flexível e que “pensa por si mesma” é o objetivo do trabalho do professor Ravinder Dahiya, da Universidade de Glasgow. Uma pele que reage como a humana, que tem os seus próprios neurónios, capazes de responder de forma imediata ao toque, em vez de levar a mensagem ao cérebro.

Feita como transístores neuronais, esta “pele pensante” é composta por silício e grafeno, com um átomo de espessura, mas mais forte do que o aço.

E apresenta-se como uma versão mais poderosa, menos incómoda e capaz de funcionar melhor do que os protótipos anteriores, também desenvolvida pelo mesmo cientista e a sua equipa, na Bendable Electronics e Sensing Technologies, daquela universidade escocesa.

Projeto conquista financiamento milionário

Chamada neuPRINTSKIN (Neuromorphic Printed Tactile Skin), a investigação acaba de receber mais um financiamento, desta feita de 1.5 milhões de libras (cerca de 1.7 milhões de euros), atribuído pelo Engineering and Physical Sciences Research Council, uma instituição do Reino Unido.

“A pele humana é um sistema incrivelmente complexo, capaz de detetar pressão, temperatura e textura através de uma série de sensores neuronais, que transportam sinais da pele para o cérebro”, explica o professor.

“Inspirado na pele real, este projeto vai aproveitar os avanços tecnológicos em engenharia eletrónica para imitar algumas características da pele humana, como a suavidade, flexibilidade e, agora, também a sensação de toque.”

Tecnologia espacial ‘desce’ à Terra para ajudar na investigação sobre cancro

Por | Cancro

O que é que o trabalho da NASA tem a ver com a investigação sobre cancro da mama? A resposta vai ser dada no 3º ASPIC International Congress, a decorrer nos dias 10 e 11 de maio, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e promete surpreender.

‘New technologies/New achievements’ é o tema de um dos simpósios que vai mostrar como “o conhecimento não tem fronteiras. Aqui, o objetivo é trazer esse conhecimento, literalmente, para a Terra, aplicado aos doentes com cancro”, refere Luís Costa, presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro (ASPIC) e diretor do Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria.

Leon Alkalai é o homem em destaque, um investigador que trabalha na NASA e que participará neste Congresso através de vídeo-conferência. “É um dos homens que fez parte da equipa responsável pela sonda que pousou em Marte” e que se encontra, atualmente, a aplicar os seus conhecimentos à medicina.

E uma das áreas que escolheu foi o cancro. “A instituição mundial com maior capacidade ao nível de instrumentos tecnológicos para visão é a NASA e o que estão a fazer é aplicar esse conhecimento ao corpo humano e aos tecidos humanos”, explica Luís Costa.

“Temos vírus e bactérias que habitam em nós e, enquanto hospedeiros, convivemos com esses vírus e bactérias, que modelam muitas das nossas respostas imunitárias”, acrescenta. “Alguns tratamentos contra o cancro na área da imunoterapia podem depender de todo o tipo de bactérias que os doentes têm no seu intestino. Por isso, temos de as conhecer. O que é que a NASA tem a ver com isto?”

“Nós podemos fazer análises cada vez mais profundas e a NASA é provavelmente uma das organizações a nível mundial mais bem preparada para analisar microbiomas. Porque não há nenhum objeto que vá para o espaço ou que venha do espaço que não seja analisado ao detalhe em busca de possíveis microorganismos.”

É essa capacidade de análise de microbiomas, que Luís Costa considera “fantástica”, que está a ser aplicada à análise de tecidos. “Ninguém diria que isso fosse possível há uns anos. Já há trabalhos publicados e descobriu-se que a população de microrganismo nos ductos mamários das mulheres com cancro da mama é diferente das que não têm cancro da mama. No futuro, valerá a pena saber se esta composição do microbioma é importante ou não para conhecer as mulheres em risco de cancro da mama, isto para além dos fatores de risco que já são conhecidos.”

Projetos surpreendentes

Leon Alkalai marca presença através de video-conferência, mas muitos outros nomes vão estar presentes, com projetos igualmente surpreendentes e importantes na investigação sobre o cancro, como o espanhol J. Iñaki Martin-Subero ou Peter Nelson, do Fred Hutchinson Cancer Research Center, que apresenta novidades na área do cancro da próstata.

Aos portugueses Carlos Caldas, diretor do Cambridge Breast Cancer Research Unit, Susana Godinho, do Barts Cancer Institute, de Londres e Carla Martins, da University of Cambridge, juntam-se vários outros investigadores nacionais, que confirmam a ‘saúde’ da investigação que se faz por cá e além-fronteiras.

O 3º ASPIC International Congress tem como grande objetivo “motivar as pessoas para o conhecimento. É isso que pretendemos dar às pessoas com o congresso, motivação. O que esperamos das pessoas? Realização de projetos”.

Inteligência Artificial ajuda a diagnosticar casos de cancro da mama

Por | Cancro

Reduzir o número de falsos casos positivos de cancro da mama é o que se pretende com um novo método, que oferece um grau de confiança próximo dos 90%, o mais elevado neste tipo de sistemas, e que promete vir a ser de grande utilidade na prática clínica.

A novidade, desenvolvida por um grupo de investigadores da Universidade Politécnica de Valência e do Instituto de Física Corpuscular e Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), permite reforçar os atuais métodos que, de acordo com os especialistas, se limitam a detetar áreas potencialmente suspeitas nas imagens disponíveis.

Já este dispositivo vai mais além, ao reduzir o número de áreas suspeitas ou falsos alarmes, ao mesmo tempo que fornece informações sobre a presença de cancro, o que é possível com recurso a técnicas de inteligência artificial, como redes neurais e ao uso de algoritmos preditivos.

As mamografias são exames de diagnóstico que já deram provas na deteção precoce do cancro da mama, um dos tumores com maior incidência nos países desenvolvidos. O novo sistema pode reduzir falsos positivos em todas as faixas etárias e, ao minimizar os falsos alarmes, evitar que se realizem testes mais prejudiciais para as mulheres. Ao mesmo tempo, permite ainda uma redução nos custos clínicos.

“Para além disso, se para outros indícios clínicos o profissional suspeitar de um diagnóstico positivo não evidente, pode amplificar as regiões que apresentam maior suspeita de tumor e que ainda não são detetáveis pelo olho humano, para facilitar futuras localizações da biopsia”, refere Francisco Albiol, investigador do CSIC.

“Por cada ano de diagnóstico precoce de cancro de mama, a expectativa de vida dos doentes a cinco anos é aumentada em 20%. Por isso, o algoritmo que desenvolvemos pode ser uma ferramenta muito útil no diagnóstico precoce deste tipo de cancro, oferecendo aos especialistas um sistema adicional”, acrescenta.

O estudo continua, com os investigadores a trabalhar na melhor forma de traduzir este método para a prática clínica.

Projeto para melhorar tratamento do cancro do pâncreas vence Prémio FAZ Ciência 2018

Por | Cancro

‘Tornar a imunoterapia uma realidade para doentes com cancro do pâncreas’ é o que pretende um grupo de investigadores, liderados por Sónia Melo, do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, no Porto. Um projeto que conquistou o Prémio FAZ Ciência, uma iniciativa da Fundação AstraZeneca (FAZ) e da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO).

Um prémio que distingue o melhor projeto de investigação translacional em Imuno-Oncologia desenvolvido em Portugal. O prémio, que se traduz numa bolsa de trinta e cinco mil euros, foi entregue hoje, em Lisboa.

O prognóstico do adenocarcinoma ductal pancreático é, segundo os investigadores, “sombrio”, tendo uma elevada taxa de mortalidade. Para os doentes, as opções terapêuticas são limitadas e a sobrevivência não sofreu grandes alterações nos últimos 40 anos, isto apesar da promessa da terapia direcionada e da imunoterapia, que acabou por não se concretizar.

Para a equipa de Sónia Melo, os exossomas (nano-vesículas produzidas por todas as células do corpo humano) libertados pelas células de cancro contribuem para reprogramar o microambiente do tumor, tornando-o insensível à imunoterapia. Para alterar esta situação, propõe-se, “usando modelos pré-clínicos”, visar os exossomas do cancro, tornando o tumor suscetível à imunoterapia “e, desta forma, abrindo a possibilidade a uma nova estratégia terapêutica com grande potencial para melhorar a sobrevivência dos doentes”.

O trabalho é, reconhecem os investigadores nele envolvidos, “ambicioso”, mas concretizável, contando com o apoio do Departamento de Gastrenterologia do Hospital de São João, no Porto. Uma relação que, segundo Manuel Sobrinho Simões, diretor do IPATIMUP, é preciso cultivar.

“A investigação translacional depende de uma colaboração muito mais intensa entre clínicos e cientistas do que é habitual entre nós”, refere, acrescentando que é necessário que “as perguntas dos clínicos sejam trazidas para o laboratório e aí tratadas experimentalmente”, uma vez que “é neste ‘universo’ que se ganha a tal investigação de translação com repercussão económica e social que faz a diferença entre países com e sem investigação clínica ‘a sério’”.

Recompensa ao mérito

Importantes são também, reconhece o especialista, prémios como o ‘FAZ Ciência’, “na medida em que introduz a noção de que há uma recompensa ao mérito, reforça a convicção de que vale a pena procurar fazer bem. Na investigação, como na vida”.

E contribui para melhorar o panorama da investigação no domínio das ciências da vida e da saúde que, “sem ser bom é muito melhor do que há alguns anos. É fundamental assegurar o financiamento estável das instituições onde se faz ciência de melhor qualidade (a avaliação institucional com recompensa ao mérito é indispensável para manter o ‘tecido’ funcionante)”.

“É também fundamental assegurar a abertura regular de concursos para projetos de investigação com dotações financeiras apropriadas e transparência/celeridade nos processos de avaliação. Finalmente, é fundamental não destruir os Programas Doutorais de muita qualidade que existem nesta área, pois a qualidade da investigação depende, antes de qualquer outra coisa, da qualidade das pessoas”, refere.

Os 20 projetos candidatos ao Prémio FAZ Ciência 2018 foram avaliados por uma Comissão de Avaliação composta por cinco reconhecidos especialistas nacionais na área da Imuno-Oncologia.

Já foi escolhido o vencedor do Prémio ‘FAZ Ciência’

Por | Iniciativas

Os trabalhos já foram submetidos e o júri já deliberou. E a apresentação do vencedor do Prémio ‘FAZ Ciência’, uma iniciativa da Fundação AstraZeneca (FAZ) e da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), que distingue o melhor projeto de investigação translacional em Imuno-Oncologia, já tem data.

O projeto que vai merecer a distinção, em forma de uma bolsa no valor de 35 mil euros, vai ser conhecido no dia 06 de março, a partir das 17h30, na Sala Fernando Pessoa, no Centro Cultural de Belém (CCB).

A cerimónia contará com uma palestra sobre os Desafios para a prática médica e a investigação clínica na era da medicina de precisão, proferida por Manuel Sobrinho Simões, diretor do IPATIMUP.

Os projetos candidatos ao Prémio “FAZ Ciência” 2018 foram avaliados por uma Comissão de Avaliação composta por cinco reconhecidos especialistas nacionais na área da Imuno-Oncologia, presidida pelo Presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

 

Ciência descobre como o cérebro aprende a fazer “replay” para obter mais prazer

Por | Atualidade

Foi a primeira vez que os cientistas conseguiram ver como o cérebro de um ratinho aprende a repetir padrões de actividade neural que produzem uma sensação de prazer. Até agora, os mecanismos cerebrais que comandam este tipo de aprendizagem nunca tinham sido medidos directamente. Um estudo que tem ‘mão’ portuguesa.

Este trabalho, liderado por cientistas da Universidade Columbia, em Nova Iorque; do Centro Champalimaud, em Lisboa; e da Universidade da Califórnia, fornece importantes pistas sobre a forma como a actividade cerebral é moldada e refinada à medida que os animais aprendem a repetir comportamentos que suscitam uma sensação de prazer.

Os resultados também sugerem novas estratégias para lidar com perturbações caracterizadas por comportamentos repetitivos anormais, tais como a adição e a perturbação obsessiva-compulsiva (POC).

“Não é segredo para ninguém que temos prazer em fazer coisas das quais gostamos, como jogar o nosso jogo de vídeo favorito”, diz em comunicado Rui Costa, investigador principal da Universidade Columbia e do Centro Champalimaud. “Os resultados publicados revelam que o cérebro aprende a seleccionar os padrões de actividade que produzem sensações de bem-estar e que se remodela para reproduzir esse padrões de maneira mais eficiente.”

“A descoberta agora anunciada funda-se no nosso trabalho anterior e pode permitir explicar como funciona a aprendizagem por repetição, podendo também servir para elucidar o que acontece nos comportamentos adictivos ou obsessivos-compulsivos, em que o circuito de feedback que liga a acção à recompensa fica descontrolado”, acrescenta Costa.

Normalmente, fazer algo agradável faz com que os neurónios libertem uma substância chamada dopamina. É esta libertação que produz a sensação de bem-estar, suscitando o desejo de repetir a acção vezes sem conta. Um exemplo muito ilustrativo deste fenómeno é o que acontece com os jogos de vídeo.

“Quando mexemos no comando do jogo exactamente da maneira certa para atingir a pontuação máxima, o nosso cérebro lembra-se de como executou essa acção – de quais foram os neurónios que se activaram e o padrão de activação. Assim, o cérebro consegue recriar o mesmo movimento da próxima vez que jogarmos”, diz Costa. “Após repetidas tentativas, o nosso cérebro aumenta a sua capacidade de recriar esse padrão de actividade neural e a nossa forma de jogar melhora.”

Para a equipa, isto levantou imediatamente a pergunta seguinte: será que o cérebro pode ser treinado para aprender o padrão certo de actividade normalmente envolvido na vivência de algo que dá prazer e a seguir reproduzir o padrão quando quiser, para desencadear a libertação de dopamina?

Numa série de experiências em ratinhos, os cientistas desenvolveram um programa de computador que associava a actividade neural no cérebro dos animais a notas de música, de forma a que, quando um grupo de neurónios era activado, fosse gerada uma dada nota.

Diferentes padrões de actividade neural resultavam em combinações diferentes de notas musicais. E quando os padrões de actividade neural desencadeavam a ordenação certa das notas (arbitrariamente determinada por um computador), os cientistas libertavam manualmente dopamina no cérebro dos animais.

Os ratinhos rapidamente aprenderam qual era o arranjo musical que, ao ser reproduzido, provocava a libertação de dopamina e uma sensação de bem-estar. Os seus circuitos cerebrais começaram então a alterar-se para ouvir essa canção com mais frequência, provocando assim, de cada vez, o “chuto” de prazer devido à dopamina.

“Essencialmente, os ratinhos aprenderam a repetir o mesmo padrão de actividade cerebral que tinha previamente sido suscitado pela audição daquelas notas de música”, diz Vivek Athalye, o primeiro autor do artigo, da Universidade da Califórnia.

Segundo os investigadores, estes resultados constituem um exemplo notável da Lei de Thorndike – um velho princípio de psicologia que estipula que as acções que conduzem a reforços positivos são repetidas com maior frequência. E mais: representam a primeira observação directa deste princípio no cérebro.

Investigação vai prosseguir

“De certa maneira, estes resultados eram totalmente expectáveis”, diz Costa. “Faz sentido que o cérebro simule a sensação de recompensa produzida por uma experiência agradável gerando o padrão correspondente de actividade neural. Mas isso nunca tinha sido testado.”

“Este trabalho também tem importantes implicações para o desenvolvimento de neuroterapias avançadas, ou seja de sistemas capazes de tratar as causas subjacentes das perturbações cerebrais modificando os padrões de actividade neural dos doentes”, diz José Carmena, da Universidade da Califórnia, que coliderou o estudo com Rui Costa.

“Por exemplo, quando os padrões de actividade neuronal do cérebro ficam descontrolados, como acontece frequentemente nas pessoas com adição ou POC, será que poderíamos criar um programa de computador que ajudasse a treinar de novo o cérebro para diminuir a frequência dessa actividade?”, pergunta Costa. “É uma possibilidade que estamos a explorar activamente.”