consumo de droga

Águas residuais revelam quais as cidades onde se consome mais droga

Por | Investigação & Inovação

Foram sete anos de trabalho, a monitorizar o uso de drogas ilícitas em 37 países, um dos quais Portugal, através de amostras de águas residuais. Um estudo que mostra que o consumo de cocaína disparou na Europa em 2017 e que as cidades portuguesas estão entre as que apresentam menores taxas de consumo de droga.

Num artigo divulgado na revista científica Addiction, investigadores de 41 instituições internacionais divulgaram as suas descobertas, na sequência da análise de amostras de esgoto de 60 milhões de pessoas, feita entre 2011 e 2017, o maior estudo baseado em águas residuais realizado em todo o mundo.

Foi mapeado o uso global de quatro drogas ilícitas – anfetaminas, metanfetaminas, ecstasy e cocaína -, sendo os três primeiros anos do trabalho realizados em cidades europeias, às quais se juntaram, a partir de 2014, cidades da Austrália, Nova Zelândia, Colômbia, Martinica, Canadá, EUA, Coreia do Sul e Israel.

Consumo de droga na Europa

Os resultados mostraram uma tendência preocupante do uso de drogas em todo o mundo e revelam que, entre 2011 e 2017, os níveis de cocaína foram mais altos em Londres, Bristol, Amesterdão e Zurique.

Genebra e St. Gallen, na Suíça, e Antuérpia, na Bélgica, apresentaram níveis entre 600-900 mg por 1.000 pessoas, por dia. No geral, o uso de cocaína aumentou quase 13% em cinco anos.

A quantidade de anfetaminas foi mais alta na Bélgica, Holanda e nos países do norte da Europa, incluindo cidades suecas e Reiquiavique, na Islândia.

Já no que diz respeito às metanfetaminas, o consumo na América do Norte revelou-se enorme, excedendo os níveis da Europa Oriental, que na época já eram considerados altos, com níveis médios superiores a 150 mg/1.000 pessoas por dia.

A Holanda registou as maiores taxas de ecstasy nos sete anos de estudo, embora tenham também sido relatadas subidas no consumo de droga em cidades como Helsínquia, Oslo, Amesterdão, Bruxelas e Barcelona.

Já as cidades de países como Grécia, Portugal, Finlândia, Polónia e Suécia apresentaram as menores taxas de uso de drogas.

Os números americanos e australianos

Fora da Europa, Medellin (Colômbia), Adelaide (Austrália) e a cidade norte-americana de Seattle registaram níveis relativamente elevados de consumo de droga, embora os números de Medellin sejam devidos sobretudo à cocaína, enquanto Adelaide e Seattle apresentam níveis muito altos de metanfetaminas.

medicamentos para a pressão alta

Estudo confirma: hora de dormir é a melhor para tomar medicação para pressão alta

Por | Investigação & Inovação

A hipótese de que a hora em que se tomam os medicamentos pode interferir com a eficácia dos mesmos tem sido explorada em alguns estudos. Um dos mais recentes confirma que tomar os medicamentos de uma só vez na hora de dormir melhora a pressão sanguínea e reduz o risco de morte, quando comparando com a toma pela manhã.

O Hygia Chronotherapy Trial, publicado esta quarta-feira no European Heart Journal, é o maior estudo a investigar o efeito da hora do dia em que as pessoas tomam os seus medicamentos anti-hipertensivos, seguindo, ao longo de seis anos, 19.084 doentes que tomavam a sua medicação ao acordar ou na hora de dormir.

Liderado pelo professor Ramón C. Hermida, diretor dos laboratórios de bioengenharia e cronobiologia da Universidade de Vigo, Espanha, o trabalho descobriu que aqueles que tomavam os medicamentos na hora de dormir tinham quase metade do risco (45% redução) de morrer ou sofrer enfarte do miocárdio, AVC, insuficiência cardíaca ou exigir um procedimento para desbloquear artérias, em comparação com os que tomavam os remédios ao acordar.

Os resultados para quem sofre pressão alta

Quando analisaram os resultados individuais, os investigadores verificaram que o risco de morte por problemas cardíacos ou nos vasos sanguíneos foi reduzido em 66%, o risco de enfarte do miocárdio caiu 44%, a revascularização coronária 40%, a insuficiência cardíaca 42% e o AVC 49%.

“As diretrizes atuais sobre o tratamento da hipertensão não mencionam nem recomendam nenhum horário de tratamento preferido”, refere a propósito Ramón C. Hermida.

“A ingestão matinal tem sido a recomendação mais comum dos médicos, com base no objetivo enganoso de reduzir os níveis de pressão arterial matinais”, refere, acrescentando que, no entanto, “não existem estudos que mostrem que o tratamento da hipertensão pela manhã melhora a redução do risco de doença cardiovascular”.

“Os resultados deste estudo mostram que os doentes que tomam rotineiramente os seus medicamentos anti-hipertensivos na hora de dormir, ao contrário de quando acordam, têm a pressão arterial melhor controlada e, mais importante, um risco significativamente menor de morte ou doença cardíaca e problemas nos vasos sanguíneos.”

Mais de dez mil doentes seguidos

O Projeto Hygia é composto por uma rede de 40 centros de atenção primária do Serviço de Saúde da Segurança Social da Galiza, no norte da Espanha, envolvendo um total de 292 médicos.

Entre 2008 e 2018, 10.614 homens e 8.470 mulheres de origem espanhola, caucasianos, com 18 anos ou mais de idade, diagnosticados com hipertensão através de monitorização em ambulatório da pressão arterial foram recrutados para esta avaliação. 

Os médicos mediram-lhes a pressão arterial quando ingressaram no estudo e em cada visita clínica subsequente.

A monitorização da pressão arterial em ambulatório foi feita durante um período de 48 horas, após cada visita clínica e pelo menos uma vez por ano, o que deu aos médicos informações precisas sobre a pressão arterial média.

Durante os 6,3 anos de acompanhamento, 1752 doentes morreram na sequência de problemas cardíacos ou nos vasos sanguíneos, ou sofreram enfarto do miocárdio, AVC, insuficiência cardíaca ou revascularização coronária.

Os dados recolhidos mostraram que aqueles que tomavam os seus medicamentos na hora de dormir tinham pressão arterial média significativamente mais baixa tanto à noite como durante o dia, pressão arterial que diminuía mais à noite, quando comparados com os que tomavam os seus medicamentos ao acordar. 

resistência a antibióticos

Em 20 anos, duplica resistência a antibiótico para tratar problema de estômago

Por | Investigação & Inovação

A resistência aos antibióticos mais usados ​​para tratar as bactérias nocivas associadas a vários problemas de estômago mais que duplicou em 20 anos, revela um novo estudo, apresentado esta segunda-feira na UEG (United European Gastroenterology) Week Barcelona 2019.

O estudo, que analisou 1.232 doentes de 18 países de toda a Europa, investigou a resistência a antibióticos tomados regularmente para a infeção por Helicobacter pylori (H. pylori), uma bactéria prejudicial associada à úlcera gástrica, linfoma e cancro do estômago.

A resistência à claritromicina, um dos antimicrobianos mais usados ​​para erradicar o H. pylori, aumentou de 9,9% em 1998 para 21,6% no ano passado, com aumentos de resistência também observados para a levofloxacina e metronidazol.

A resistência aos antibióticos ocorre quando as bactérias desenvolvem a capacidade de sobreviver à exposição a medicamentos desenhados para as matar ou interromper o seu crescimento. É, hoje, uma das maiores ameaças à saúde global, causando mais de 750.000 mortes todos os anos. Sem ação urgente, este número deverá aumentar drasticamente no futuro.

H. pylori, uma das infeções mais comuns

Francis Megraud, investigador principal, explica que “a infeção por H. pylori já é uma condição complexa de tratar, exigindo uma combinação de medicamentos. Com as taxas de resistência a antibióticos, como a claritromicina, a aumentar a um ritmo alarmante de quase 1% ao ano, as opções de tratamento para H. pylori tornar-se-ão progressivamente limitadas e ineficazes, se novas estratégias de tratamento permanecerem pouco desenvolvidas”.

“A eficácia reduzida das terapêuticas atuais pode manter elevadas as taxas de incidência de cancro do estômago e outros problemas, como úlcera péptica, se a resistência a medicamentos continuar a aumentar a este ritmo”, acrescenta.

H. pylori é uma das infeções bacterianas mais comuns em humanos e estima-se que esteja presente em metade da população mundial.

O H. pylori leva à inflamação do revestimento do estômago, ou seja, gastrite, que pode resultar em úlceras pépticas. É também o fator de risco mais importante para o cancro do estômago, a sétima principal causa de morte por cancro na Europa e a terceira no mundo.

Nos últimos anos, a resistência aos antibióticos de H. pylori tornou-se uma questão importante, tanto que, em 2017, a Organização Mundial da Saúde identificou o H. pylori resistente à claritromicina como uma bactéria de alta prioridade para investigação e desenvolvimento de antibióticos.

Resistência a antibióticos chega aos 20% em Portugal

De acordo com este novo estudo, as taxas de resistência primária à claritromicina em H. pylori são mais altas no sul de Itália (39,9%), Croácia (34,6) e Grécia (30%), alinhando-se com relatórios anteriores que preveem que a Itália e a Grécia vão ter o maior número de mortes devido à resistência antimicrobiana entre os membros da União Europeia até 2050.

Os altos níveis de resistência exibidos nestes países foram atribuídos ao consumo excessivo de antibióticos para problemas como gripes e constipações e à falta de apoio institucional para as estratégias de contenção da resistência a antibióticos.

Em Portugal, a taxa de resistência a estes antibióticos está situada, segundo este trabalho, nos 20%, um valor muito superior ao verificado na Dinamarca (5%), Letónia (6,8%) e Noruega (8,9%), os países onde as taxas são mais baixas.

“Os resultados deste estudo são certamente preocupantes, pois o H. pylori é a principal causa de doença péptica e cancro do estômago”, comenta Mário Dinis-Ribeiro, presidente da Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal.

“A crescente resistência do H. pylori a vários antibióticos comummente usados ​​pode comprometer as estratégias de prevenção.”

adesão aos tratamentos

‘App’ que avisa na hora de tomar medicação faz aumentar adesão aos tratamentos

Por | Investigação & Inovação

Os doentes que usam as aplicações de smartphone para se lembrarem de tomar a medicação têm maior probabilidade de tomar os medicamentos do que aqueles que recebem instruções por escrito, revela um estudo apresentado no 45.º Congresso Argentino de Cardiologia.

“Tínhamos a hipótese de que uma ‘app’ aumentaria a adesão em 30%, mas o impacto foi ainda maior”, afirma o autor do estudo, Cristian M. Garmendia, do Instituto Cardiovascular de Buenos Aires.

“Os doentes que usam a ‘app’ foram alertados para tomar os comprimidos. Tinham também um conhecimento melhor sobre o motivo pelo qual lhes tinha sido receitado cada medicamento e podiam verificar a conformidade com o médico”, acrescenta.

Uma maior adesão ao tratamento

Após um enfarte, aos doentes são prescritos medicamentos para evitar outro evento. No entanto, um em cada quatro interrompe pelo menos um medicamento nos primeiros 30 dias após a alta hospitalar, o que proporciona um controlo deficiente dos sintomas e a uma maior probabilidade de reinternamento e morte prematura.

Atualmente, não existe uma estratégia simples e económica para melhorar a adesão e encontrá-la foi o que se pretendeu com este estudo, que testou o impacto de uma ‘app’ na toma da medicação.

Ao todo, 90 doentes que tinham sofrido um enfarte e estavam internados no hospital, com uma idade média de 63 anos, foram aleatoriamente divididos em dois grupos: um que recebia alerta através da ‘app’ e o outro que recebia informações detalhadas por escrito (atendimento padrão).

A adesão ao tratamento médico foi medida aos 90 dias.

Para aqueles designados por grupo de smartphones, a programação de medicamentos prescritos foi carregada no dispositivo móvel, com um alarme a tocar cada vez que deveria ser tomado um medicamento.

Depois da toma, os doentes confirmavam a mesma na ‘app’, dando aos médicos a possibilidade de verificar a adesão diária através de uma plataforma digital profissional.

Aos 90 dias, significativamente mais doentes no grupo da ‘app’ estavam a tomar os medicamentos corretamente (65%) em comparação com aqueles que receberam tratamento padrão (21%).

Uma forma simples e de baixo custo

Um objetivo secundário do estudo foi verificar quantos doentes em cada grupo foram hospitalizados na sequência de  outro enfarte ou tiveram uma visita não planeada ao médico ou urgência. E, aqui, não foram encontradas diferenças entre os grupos.

“Isso pode ter sido devido ao número relativamente pequeno de doentes ou à baixa taxa de eventos. Esse foi um endpoint exploratório, mas nosso próximo estudo será projetado tendo esses resultados como o endpoint primário”, refere Juan Pablo Costabel, autor sénior do estudo.

O mesmo que conclui que “a adesão ao tratamento após um enfarte aumentou com o uso de uma ‘app’ para smartphone. Essa é uma forma fácil e de baixo custo para melhorar a conformidade médica neste cenário”.

excesso de peso e cancro

Excesso de peso antes dos 40 anos aumenta o risco de cancro

Por | Investigação & Inovação

Num estudo internacional, liderado por investigadores da Universidade de Bergen, na Noruega, foi descoberto que o excesso de peso (Índice de Massa Corporal – IMC – acima de 25) e a obesidade (IMC acima de 30) aumentam o risco de diferentes tipos de cancro.

Contas feitas, aqueles que têm, antes dos 40 anos, quilos a mais, apresentam um risco 70% superior de cancro do endométrio, 58% mais alto de cancro de células renais (homem), 29% de cancro do cólon (homem) e 15% de todos os cancros relacionados com a obesidade (ambos os sexos).

“A obesidade é um fator de risco estabelecido para vários tipos de cancro. Neste estudo, incidimos sobre o grau, época e duração do excesso de peso e obesidade em relação a esse risco”, refere Tone Bjørge, especialista do departamento de Saúde Pública Global e Atenção Básica da Universidade de Bergen.

O risco do excesso de peso e obesidade

No estudo, os investigadores avaliaram dados de 220.000 indivíduos da Noruega, Suécia e Áustria, com duas ou mais medidas, obtidas com pelo menos três anos de diferença, e antes de um possível diagnóstico de cancro. Em média, os indivíduos foram acompanhados ao longo de cerca de 18 anos.

No primeiro e segundo exames de saúde, os participantes obesos (IMC acima de 30) apresentavam um risco mais elevado de desenvolver cancro associado à obesidade, em comparação com os participantes com IMC normal.

“O risco aumentou 64% para os participantes do sexo masculino e 48% para as mulheres”, refere Bjørge.

Um risco que tem tradução para número reais: 27.881 indivíduos foram diagnosticados com cancro durante o acompanhamento, dos quais 9.761 (35%) estavam relacionados com a obesidade.

Por isso, a principal mensagem é simples: “impedir o ganho de peso pode ser uma importante estratégia de saúde pública para reduzir o risco de cancro”.

alerta para homens que fazem sexo com outros homens

Na UE, meio milhão de homens que fazem sexo com outros homens sem acesso a medicação que previne VIH

Por | Investigação & Inovação

Atualmente, cerca de 500.000 homens que fazem sexo com outros homens na União Europeia não têm acesso à profilaxia pré-exposição ao VIH (PrEP), apesar de ser elevada a probabilidade de o usarem, revelam os dados de uma publicação agora divulgada.

PrEP significa profilaxia pré-exposição, ou seja, uma medicação que deve ser tomada antes da ocorrência de um comportamento de risco, que previne a infeção, neste caso por VIH. Desta forma, a PrEP, que existe atualmente sob a forma de comprimidos, deve ser utilizada por pessoas não infetadas por VIH, de forma a impedir que se infetem.

Publicado num documento na Eurosurveillance, que tem por base as descobertas do Centro Europeu de Monitorização e Prevenção de Doenças e do Estudo Europeu sobre Homens que fazem sexo com homens (EMIS-2017), o estudo quis identificar o nível de necessidades por satisfazer da PrEP entre os homens que fazem sexo com outros homens, o que continua a ser a principal forma de transmissão do VIH nos países da União Europeia (UE), representando 38% de todos os novos diagnósticos de VIH em 2017. 

Risco para homens que fazem sexo com outros homens

Os especialistas do National AIDS Trust, London School of Hygiene and Tropical Medicine, Public Health England e ECDC, autores do trabalho, utilizaram dados para comparar a proporção de homens que fazem sexo com homens que declararam ter ‘muita probabilidade’ de usar a PrEP se fosse acessível e a proporção daqueles que atualmente a usam.

A ‘diferença de PrEP’ estimada variou consoante os países, mas a nível geral este hiato chega aos 17,4% na Europa, o que equivale a 500.000 homens que fazem sexo com outros homens que provavelmente usariam a PrEP, mas atualmente não o podem fazer.

Rosalie Hayes, principal autora do estudo considera que “estas descobertas devem servir de alerta aos países da UE”.

“Embora tenham sido feitos progressos na disponibilização nacional da PrEP reembolsada, estes dados são preocupantes. Quanto maior o atraso no acesso à PrEP para estes homens, mais infeções por VIH vão ocorrer.”

“O ECDC defende, desde 2015, que os Estados Membros da UE devem considerar a integração da PrEP no seu pacote de prevenção do VIH para aqueles com maior risco de infeção, começando pelos homens que fazem sexo com homens”, enfatiza Andrew Amato Gauci, chefe de o programa da ECDC para o VIH/sida e hepatites virais.

Apesar desta recomendação, tal não tem acontecido, mas em Portugal a PrEP já tem a comparticipação estatal.

Problemas a conciliar trabalho e família prejudicam o coração

Por | Investigação & Inovação

De um lado o trabalho; do outro a família. Quando as exigências de um e outro se tornam difíceis de conciliar, gera-se stress. Uma situação que, confirma um novo estudo, pode contribuir para a diminuição da saúde do coração, sobretudo entre as mulheres.

Publicado no Journal of American Heart Association, o trabalho defende que este deve ser considerado mais um fator no tratamento de doenças cardiovasculares.

Itamar Santos, professor da Universidade de São Paulo e autor principal do estudo, explica que, embora sejam consistentes os resultados que mostram “que pessoas sob stress têm mais doenças cardiovasculares”, faltam dados que as associem à dificuldade de conciliar trabalho e família.

Foi isso que quis explorar, juntamente com a sua equipa. Para isso, foram avaliados mais de 11.000 trabalhadores brasileiros, com idades entre os 35 e os 74 anos, que preencheram questionários com base num modelo que media o impacto do trabalho na vida familiar e vice-versa.

A saúde do coração foi avaliada também através de questionários, aos quais se juntaram exames clínicos e resultados laboratoriais para fatores como o tabagismo, índice de massa corporal, dieta, atividade física, colesterol, pressão arterial e nível de açúcar no sangue.

E os resultados confirmam que os conflitos entre família e trabalho afetam a saúde do coração, sobretudo do feminino.

De acordo com os especialistas, o stress crónico pode afetar o coração, aumentando a inflamação no corpo. O que se pode traduzir na pressão arterial e no colesterol, além de conduzir a comportamentos pouco saudáveis, como falta de sono e exercício, má alimentação e ganho de peso.

Gina Price Lundberg, cardiologista preventiva em Atlanta e diretora clínica do Emory Women’s Heart Center, considera que este estudo reforça a necessidade de um equilíbrio saudável entre vida profissional e familiar.

“Quando se trabalha muito, não há tempo para lazer ou hábitos saudáveis. Não há tempo para ir ao ginásio ou apenas ter uma boa noite de sono.”

Mulheres sofrem mais para conciliar trabalho e família

Embora ambos os sexos tenham sido afetados, Itamar Santos revela que o impacto é maior nas mulheres.

“No conflito entre trabalho e família, elas parecem ser especialmente suscetíveis a este tipo de stress”, revela, sugerindo que esta disparidade pode ser explicada, pelo menos para algumas mulheres, pela importância que atribuem à vida familiar.

Gina Price Lundberg concorda. “Uma pessoa sente o stress de cumprir os papéis de género e acho que as mulheres ainda sentem mais a necessidade de ter essa vida doméstica estimulante”, refere. “Os homens estão a ajudar mais do que nunca, mas acho que as mulheres que trabalham ainda sentem o stress de tentar fazer tudo”, reforça.

ter um cão

Ter um cão está associado a uma vida mais longa, sobretudo de quem sofreu AVC

Por | Investigação & Inovação

A ciência já confirmou que ter um cão faz bem à saúde. Agora, não um, mas dois novos estudos revelam que a amizade de um destes amigos de quatro patas pode também estar associada a uma vida mais longa e a melhores resultados cardiovasculares, sobretudo no caso dos sobreviventes de enfartes e AVC que vivem sozinhos.

Publicados na revista Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes, os trabalhos fizeram a revisão de análises anteriores e, segundo Glenn N. Levine, especialista da Associação Americana de Cardiologia, “embora não possam ‘provar’ que a adoção ou posse de um cão leva diretamente à redução da mortalidade, são pelo menos sugestivos disso”.

Tendo em conta que o isolamento social e a falta de atividade física podem impactar negativamente os doentes, os investigadores do primeiro trabalho procuraram determinar como é que ter um cão afeta a saúde.

Para isso, compararam os resultados de proprietários e não proprietários de cães após um enfarte ou AVC, usando dados de saúde fornecidos pelo Registo Nacional de Doentes da Suécia, que incluiu suecos com idades entre 40 e 85 anos, vítimas de enfarte ou AVC isquémico entre 2001 e 2012.

E verificou-se que o risco de morte para os doentes com enfarte que moravam sozinhos após a hospitalização descia 33% quando tinham um cão, valor que era também 15% inferior quando partilhavam a casa com um parceiro ou crianças.

O risco de morte nos casos das vítimas de AVC que viviam sozinhas, após a hospitalização, revelou-se 27% menor, sendo 12% mais baixo quando moravam com alguém.

Ter um cão significa aumentar a atividade física

O menor risco de morte associado à posse de cães pode ser explicado pelo aumento da atividade física e pela diminuição da depressão e da solidão, ambas relacionadas com a posse de um animal de estimação em estudos anteriores.

“Sabemos que o isolamento social é um forte fator de risco para piores resultados de saúde e morte prematura. Estudos anteriores indicaram que os donos de cães sentem menos isolamento social e têm mais interação com outras pessoas”, explica Tove Fall, professor da Universidade de Uppsala, na Suécia.

“Além disso, ter um cão é uma boa motivação para a atividade física, que é um fator importante para a reabilitação e para a saúde mental.”

“Os resultados deste estudo sugerem os efeitos positivos da posse de cães em pessoas que sofreram um enfarte ou AVC. No entanto, são necessárias mais pesquisas para confirmar uma relação causal e dar recomendações sobre a prescrição de cães para prevenção. Além disso, do ponto de vista do bem-estar animal, os cães só devem ser adquiridos por pessoas que sentem que têm capacidade e conhecimento para dar uma boa vida ao animal”, alerta o especialista.

Risco de mortalidade mais reduzido

O segundo estudo reviu dados de mais de 3,8 milhões de pessoas, que participaram em 10 análises diferentes.

Aqui, concluiu-se que, em comparação com as pessoas sem cães, os donos de cães apresentavam um risco 24% menor de mortalidade por todas as causas, 65% menor de mortalidade após enfarte e 31% menor de morte na sequência de problemas cardiovasculares.

“Ter um cão foi associado ao aumento do exercício físico, níveis mais baixos de pressão arterial e melhor perfil de colesterol em análises anteriores”, refere Caroline Kramer, professora assistente de Medicina da Universidade de Toronto e Endocrinologista do Sinai Center for Diabetes.

“Como tal, as descobertas de que as pessoas com cães vivem mais e têm um risco de morte cardiovascular mais pequeno são também esperadas.”

“As nossas descobertas sugerem que ter um cão está associado a uma vida mais longa.”

“O próximo passo neste tópico seria um estudo de intervenção para avaliar os resultados cardiovasculares após a adoção de um cão e os benefícios sociais e psicológicos da propriedade do cão. Como dono de um cão, posso dizer que a adoção do meu Romeu aumentou os meus passos e atividade física e encheu a minha rotina diária de alegria e amor incondicional”, afirma Kramer. 

doença inflamatória intestinal

Equipa nacional recebe um milhão de euros para estudar doenças intestinais

Por | Investigação & Inovação

Um milhão de dólares é quanto uma investigadora portuguesa e a sua equipa acabam de receber do Departamento de Defesa dos EUA para descobrirem mais sobre a Doença Inflamatória Intestinal (DII).

Salomé Pinho, cientista do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto e líder do grupo Immunology, Cancer & GlycoMedicine daquela instituição, vão avaliar os dados de um grupo de militares norte-americanos, em busca de marcadores capazes de prever a doença ou identificar as suas causas. 

É, garante a especialista, “um estudo pioneiro, que caracteriza uma população única a nível mundial (antes e após o diagnóstico da DII), que permitirá identificar biomarcadores que possibilitarão um diagnóstico precoce da doença e, desta forma, a implementação de estratégias preventivas primárias (prevenindo o aparecimento da doença em indivíduos saudáveis) ou secundárias (que visam atrasar o inicio e progressão clínica da doença em indivíduos de risco)”.

Doença inflamatória intestinal afeta 20 mil portugueses

Ao longo de três anos, a equipa nacional promete trabalhar as amostras biológicas de militares dos EUA, com o apoio de investigadores do centro de investigação médica da Marinha Norte Americana e de especialistas na área da DII do Hospital Mont Sinai, em Nova Iorque, ainda que quase 90% do projeto seja desenvolvido por cá.

“Vai-nos permitir investir em equipamento de ponta e em recursos humanos diferenciados”, refere Salomé Pinho, cujo grupo tem realizado estudos pioneiros na área da DII, tendo realizado estudos que permitiram a identificação de marcadores de prognóstico, assim como a identificação de novas ferramentas terapêuticas para quem sofre com estes problemas.

A Doença Inflamatória Intestinal afeta cerca de 2,5 milhões de pessoas na Europa, 15 mil a 20 mil das quais em Portugal. Trata-se de uma doença crónica, que afeta sobretudo indivíduos jovens em idade ativa, sem causa conhecida ou forma de prevenção.

estudar os tumores no espaço

Cientistas preparam-se para estudar como a gravidade afeta os tumores… no espaço

Por | Investigação & Inovação

Pode a ausência de peso impedir o crescimento do cancro? A resposta a esta pergunta pode vir de um dos nove projetos de investigação que receberam o aval da nova Estação Espacial da China, programada para 2022. Um estudo que vai decorrer… no espaço.

As condições laboratoriais únicas oferecidas pela Estação Espacial Internacional e pela Estação Espacial da China (CSS), que ainda vai ser lançada, permitem investigações sobre todos os temas. Quando estiver pronta para dar início ao trabalho, o que se espera venha a acontecer em 2022, a Estação Espacial chinesa vai incluir um projeto que não é comum sobre cancro.

Chamado “Tumores no Espaço”, vai examinar o  papel da microgravidade e da radiação cósmica no crescimento e desenvolvimento de tumores.

“Pretendemos estudar mutações e veremos como o ADN da célula é afetado pela falta de peso e pela radiação cósmica”, refere Tricia L. Larose, investigadora principal e especialista da Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade Norueguesa de Ciências e Tecnologia (NTNU).

“O espaço está constantemente a abrir novas fronteiras para a humanidade poder avançar, como demonstrado por este projeto, que visa encontrar novas formas de reduzir tumores, um dos principais assassinos do nosso tempo”, refere a responsável pela agência das Nações Unidas para assuntos espaciais.

Transformar o espaço em laboratório

A experiência parte da hipótese de Larose, que acredita que o crescimento do cancro diminui ou para quando não existe gravidade da Terra.

E uma vez que no espaço existe radiação cósmica, esta será também alvo de análise, nomeadamente a forma como afeta as células.

Estudo que vai também ajudar a entender o risco de cancro entre os astronautas em missões de longa duração na estação espacial ou em viagens mais longas, como a que se deverá realizar a Marte.

“O maior desafio dos voos espaciais e da exploração humana em missões de longa duração é, entre outros, o risco de cancro para a tripulação devido à exposição a radiação cósmica”, refere a cientista. Uma avaliação que vai permitir “prever riscos e proteger a tripulação numa missão espacial de longa duração”.

Marianne K. Vinje Tantillo, chefe de voo espacial e exploração da Agência Espacial Norueguesa, considera que a proposta de Larose aborda questões que precisam de ser respondidas. “Se uma pessoa vai para o espaço, precisa de resolver problemas de radiação, e este é um passo para o fazer”, refere.