infertilidade masculina nos genes

Descobertas novas causas genéticas da infertilidade masculina

Por | Investigação & Inovação

A infertilidade, o mesmo é dizer, a incapacidade de conceber após um ano de relações sexuais desprotegidas, afeta um em cada seis casais em todo o mundo, estando o homem implicado em cerca de metade destes casos. Apesar da importância conhecida dos fatores genéticos na infertilidade masculina, apenas cerca de 25% destas situações podem ser explicadas atualmente. Até agora. Um estudo revela novas potenciais causas genéticas, descoberta que ajudará a desenvolver melhores testes de diagnóstico para a infertilidade masculina.

Apresentado este sábado na conferência anual da Sociedade Europeia de Genética Humana, caberá a Manon Oud, do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, descrever como ela e a sua equipa realizaram o trabalho, que analisou o ADN de genes responsáveis pela maioria das mutações causadoras por doenças atualmente conhecidas.

Foi estudado o ADN de 108 homens inférteis e também dos seus pais. Uma comparação que permitiu identificar novas mutações. “Encontramos 22 em genes envolvidos na espermatogénese”, refere a especialista, “nenhum deles anteriormente conhecido por causar infertilidade em humanos”.

Infertilidade pode estar no ADN

É ainda muito cedo para dar a estes doentes um diagnóstico definitivo, sendo necessários mais estudos, que estão a decorrer.

Agora, os investigadores esperam rastrear mais homens e os seus pais, a fim de encontrar padrões nos locais das novas mutações e aprender mais sobre a função dos genes que são afetados por elas.

“Estamos a estudar o papel desses genes em material de biópsias de testículos dos nossos doentes e a realizar experiências em moscas da fruta para ver se a rutura desses genes causa infertilidade”, confirma a cientista.

Os resultados ajudarão a estabelecer novos testes de diagnóstico, que poderão dar aos doentes uma análise detalhada do motivo da sua infertilidade e permitir um atendimento personalizado. Ao estabelecer a causa molecular da infertilidade, o risco de transmissão para outra geração pode ser previsto.

“A infertilidade não é algo que normalmente se herda dos pais; eles eram claramente ambos férteis. Mas com a introdução de tecnologias de reprodução assistida, está a tornar-se um distúrbio hereditário em alguns casos”, explica Oud.

As mutações que levam à infertilidade podem resultar de erros no ADN, que ocorrem durante a produção de espermatozoides e óvulos dos pais, ou durante o desenvolvimento inicial do embrião.

“Ficamos surpreendidos ao encontrar tantas mutações novas com um papel potencial na infertilidade masculina, dado o facto de, nos anos anteriores, apenas alguns genes novos terem sido descobertos nesta condição. As pessoas ainda tendem a pensar que a falha em conceber é mais provável de ter como causa um fator feminino. Temos o prazer de poder dar essa contribuição ao campo pouco estudado da infertilidade masculina.”

O presidente da conferência da Sociedade Europeia de Genética Humana, Joris Veltman, refere que “a ligação entre genética e infertilidade masculina é um mistério, pois transmitimos os nossos genes, mas não pode passar a infertilidade. Faz sentido, portanto, comparar o ADN de pessoas inférteis com os dos seus pais normalmente férteis, como foi feito neste estudo. Espera-se que esta nova abordagem forneça mais informações sobre as causas subjacentes e ajude com informações relevantes aos casais afetados”.

identificar a dor

Estudo apela a reforço e mudança no ensino da dor aos futuros médicos

Por | Investigação & Inovação

A dor é considerada o 5.º sinal vital, mas nem assim muitos dos futuros médicos lhe dão a atenção devida. É o que prova um estudo, publicado na Acta Médica Portuguesa, que confirma a necessidade de mudanças nos currículos, “para que os futuros médicos desenvolvam competências e combatam o sofrimento ‘evitável’ dos seus doentes”.

O objetivo do trabalho era conhecer a opinião dos estudantes finalistas de Medicina e dos internos do ano comum sobre o ensino da dor crónica nas oito escolas médicas portuguesas. Para isso, recolheram-se inquéritos feitos a 251 alunos, 142 dos quais finalistas e 109 internos.

E foi a avaliação dos mesmos que permitiu verificar que embora a maioria considere a dor como o 5.º sinal vital, quase uma em cinco pessoas pensam que esta só deve ser avaliada se o doente se queixar.

Para a maioria dos inquiridos, a falta de avaliação da dor nas consultas ou internamentos resultava da ausência de queixas, com mais de um terço a indicar como motivo “a falta de conhecimento médico”.

O estudo conclui que “o ensino da dor crónica é disperso, pouco estruturado e opcional. Para 98,4% da amostra é relevante haver mais educação sobre a dor crónica”, que deverá ocorrer no 5.º ano do curso médico, com mais de 15 horas, sendo ainda “aconselhados estágios em consultas de dor crónica”.

Destaca a necessidade, por parte das escolas de medicina, de fornecerem mais educação sobre a dor crónica no currículo de graduação e um maior investimento nesta área, capaz de criar o “conhecimento indispensável para uma realidade transformadora. A visão dos futuros médicos vai, por isso, mudar; eles vão sentir-se empoderados e irão contribuir para combater o sofrimento evitável dos seus doentes”.

E apesar do tamanho e da qualidade da amostra deste trabalho não permitir uma generalização dos resultados, é um indicador importante do estado da atenção dada à dor pelos profissionais de saúde.

fibrilhação auricular vai aumentar

Fibrilhação auricular deverá afectar mais de 14 milhões de pessoas na UE até 2060

Por | Investigação & Inovação

É preciso uma ação urgente para prevenir, detetar e tratar a fibrilhação auricular, para impedir um aumento substancial nos AVC incapacitantes. O alerta é dado por um artigo publicado no EP Europace, uma revista da Sociedade Europeia de Cardiologia, numa altura em que assinala a Semana Mundial do Ritmo Cardíaco.

Este é o distúrbio do ritmo cardíaco mais comum, representando 0,28% a 2,6% dos gastos com saúde nos países europeus. Aqui, os doentes têm um risco cinco vezes maior de acidente vascular cerebral, com 20% a 30% dos AVC a terem como causa a fibrilhação auricular, o que os torna mais incapacitantes e mais frequentemente fatais.

O estudo estima que 7,6 milhões de pessoas com mais de 65 anos na União Europeia tenham sido diagnosticadas em 2016, percentagem que aumentará em 89%, para 14,4 milhões, em 2060. A prevalência deve aumentar em 22%, passondo de 7,8% para 9,5%.

No que diz respeito à proporção destes doentes com mais de 80 anos, essa deverá aumentar de 51% para 65%.

“Os doentes com fibrilhação auricular com mais de 80 anos têm riscos ainda maiores de AVC, o que significa que a mudança na demografia tem enormes implicações para a UE”, refere Antonio Di Carlo, autor do estudo e um dos membros do Conselho Nacional Italiano de Investigação.

“Os doentes mais velhos também têm mais comorbilidades associadas à fibrilhação auricular, como insuficiência cardíaca e comprometimento cognitivo.”

Prevenção da fibrilhação auricular começa pelos médicos de família

A prevenção da fibrilhação auricular é a mesma que para outras doenças cardiovasculares e inclui deixar de fumar, fazer exercício, manter uma dieta saudável, beber álcool com moderação e controlar a pressão arterial e a diabetes.

A triagem para este problema é importante, uma vez que a anticoagulação oral previne eficazmente os AVC nestes doentes. Por isso, segundo Di Carlo, cabe aos médicos de família fazer o rastreio da fibrilhação auricular, realizando a palpação do pulso em cada consulta.

Os doentes com pulso irregular terão de fazer um eletrocardiograma (ECG) para confirmação. “A maioria dos idosos vê o seu médico de família pelo menos uma vez por ano, então este é um método eficiente e eficaz para diagnosticar a fibrilhação auricular e prevenir complicações”, refere o médico.

Estes médicos podem informar os doentes sobre os sintomas, como palpitações, pulso irregular, falta de ar, cansaço, dor no peito e tonturas e podem ensinar a verificar a pulsação usando as pontas dos dedos

“No futuro, podemos vir a ter dispositivos confiáveis ​​para o rastreio de primeira linha pelo público, como aplicações para smartwatch, mas essa tecnologia não está pronta para uso generalizado.”

deficiência de ferro nas doenças cardiovasculares

Deficiência de ferro associada às doenças cardiovasculares

Por | Investigação & Inovação

É o distúrbio nutricional mais comum no mundo, com uma prevalência particularmente alta em pessoas com doenças cardiovasculares. Isto porque, sabe-se agora, a deficiência de ferro afeta também os vasos sanguíneos. 

A garantia é dada por um novo artigo, publicado por especialistas da Universidade de Oxford, que descreve a forma como a falta de ferro afeta os vasos sanguíneos, sobretudo os do pulmão.

Há algum tempo que se sabe que a deficiência de ferro, também conhecida como ferropénia, predispõe à hipertensão arterial pulmonar (HAP), problema onde os vasos sanguíneos dos pulmões são restritos e remodelados, pressionando o lado direito do coração.

Uma situação que se pensava ser causada por anemia, que teria a ferropénia como mecanismo subjacente. Ou seja, a única atenção dada à deficiência de ferro no cenário clínico tem sido, pelo menos até agora, no contexto da correção da anemia.

No entanto, os especialistas envolvidos neste trabalho mostraram que a deficiência de ferro dentro dos tecidos, como o coração, é suficiente para causar doença mesmo na ausência de anemia. Ou seja, Lakhal-Littleton, investigadora da Universidade de Oxford, e a sua equipa conseguiram provar que a deficiência de ferro está, de facto, associada, e de forma isolada, às doenças cardíacas.

Uma investigação que, garante Lakhal-Littleton tem, por isso mesmo, “o potencial de alterar a forma como os doentes com hipertensão arterial pulmonar são tratados”, justificando a administração de ferro, “mesmo quando estes não são anémicos, uma vez que o alvo deixou de ser a anemia, mas a ferropénia dentro dos tecidos”.

vinho tinto baixa a pressão

Pode o vinho tinto baixar a pressão arterial?

Por | Investigação & Inovação

Pode o vinho tinto ajudar a baixar a pressão arterial? A resposta é dada em forma de estudo, realizado por investigadores do Centro de Excelência da Fundação Britânica King, publicado na revista Circulation.

Por tratar, a pressão arterial elevada pode aumentar significativamente o risco de doenças cardíacas e circulatórias, incluindo AVC e enfarte. Foi esse o motivo que levou os especialistas a olhar para o vinho, onde identificaram uma molécula capaz de baixar a pressão, abrindo portas a novas formas de luta contra as doenças cardíacas e circulatórias.

A molécula, conhecida como resveratrol, é um composto produzido pelas peles de certas frutas para se defenderem contra insetos, bactérias e fungos e é mais conhecida pela sua presença nas uvas e no vinho tinto.

Neste estudo, os investigadores deram uma dose de resveratrol a ratinhos de laboratório com pressão alta induzida, fazendo com que os seus vasos sanguíneos relaxassem e a pressão sanguínea descesse. Um efeito que os especialistas conseguiram também demonstrar que funciona nas células dos vasos sanguíneos humanos.

Do vinho tinto a uma nova geração de medicamentos 

Os investigadores garantem que, atualmente, não há nenhuma medicação destinada a baixar a pressão arterial que tem como alvo este caminho, pelo que as descobertas podem levar ao desenvolvimento de nova medicação.

O líder do estudo, Joseph Burgoyne, não tem dúvidas que, aos poucos, está a perceber-se que “os oxidantes nem sempre são os vilões. A nossa investigação mostra que uma molécula antes considerada um antioxidante exerce os seus efeitos benéficos através da oxidação. E pensamos que muitos outros chamados antioxidantes podem também funcionar dessa maneira”.

“O nosso trabalho pode estabelecer as bases para alterar quimicamente o resveratrol, de forma a melhorar o seu transporte no organismo ou projetar novos medicamentos mais fortes, que usem o mesmo caminho. No futuro, podemos mesmo ter toda uma nova classe de medicamentos para a pressão arterial.”

“Infelizmente, para obter a dose equivalente humana de resveratrol usada aqui, é preciso beber uma quantidade impossível de vinho tinto todos os dias – o que é inviável e desaconselhável”, acrescenta Metin Avkiran, diretor médico associado da Fundação Britânica do Coração.

“O valor real deste estudo é revelar a maneira surpreendente como o resveratrol exerce os seus efeitos e, com ele, a possibilidade de ter novos medicamentos para a pressão arterial que funcionam de forma semelhante. As descobertas colocam-nos um passo mais perto de atacar esse ‘assassino silencioso’, que coloca as pessoas em risco de ter um AVC ou enfarte devastador.”

sintomas de enfarte

Doentes desvalorizam sintomas e não pedem ajuda quando têm um enfarte

Por | Investigação & Inovação

Ignoram os sintomas, desvalorizam as queixas e esperam que passe. Para quem sofre um enfarte, a incapacidade de perceber a gravidade do que é sentido e sobretudo de agir é o principal motivo para os atrasos nos tratamentos, que podem custar vidas, alerta um estudo publicado no European Journal of Cardiovascular Nursing, uma revista da Sociedade Europeia de Cardiologia.

A maioria das mortes por enfarte ocorre nas primeiras horas após o início dos sintomas. O tratamento rápido é essencial para restaurar o fluxo sanguíneo e salvar vidas, mas nem sempre acontece Isto porque as pessoas têm dificuldade na avaliação dos sintomas.

O estudo agora publicado envolveu 326 pessoas submetidas a tratamento agudo para um primeiro ou segundo enfarte, que preencheram um questionário sobre as suas emoções e a tendências para agir nestes momentos.

As respostas revelaram que, em média, os doentes esperam três horas antes de procurar ajuda médica, com alguns a demorar mais de 24 horas. O que acontece então durante este período? Foi o que o estudo quis avaliar.

Medo ou ansiedade dos sintomas de enfarte

A incapacidade de agir revelou ter um impacto significativo nos doentes que esperaram mais de 12 horas. “Perdi o poder para agir quando os meus sintomas começaram”, justificaram; “não sabia o que fazer quando tive os sintomas”; “os meus sintomas paralisaram-me”; “senti que tinha perdido o controlo de mim mesmo”.

“Esta imobilização não tinha sido demonstrada ou estudada antes”, afirma a autora do estudo, Carolin Nymark, do Hospital da Universidade de Karolinska, Estocolmo, na Suécia.

“De momento, não sabemos porque é que alguns doentes reagem desta maneira. Está possivelmente associado ao medo ou ansiedade. Este deve ser um elemento novo na educação das pessoas sobre o que fazer quando têm sintomas de enfarte.”

Uma avaliação imprecisa dos sintomas também afetou aqueles que atrasaram a busca por ajuda durante mais de 12 horas. Estes doentes afirmaram terem levado muito tempo para perceber os seus sintomas. Alguns acharam que iam passar, outros que não eram sérios o suficiente para procurar atendimento médico ou ainda que seria difícil procurar ajuda.

Por outro lado, aqueles que identificaram com precisão os seus sintomas, não só procuraram rapidamente ajuda médica, como ainda não tentavam desviar os seus pensamentos dos sintomas.

“A nossa investigação revelou que alguns doentes acreditam que os seus sintomas não são graves o suficiente para chamar uma ambulância”, afirma Nymark. “Outros acham que a unidade de cuidados intensivos está fechada a meio da noite, talvez porque não pensam claramente durante o evento.”

Sinais de alerta para um enfarte

Entre os sinais de alerta de um enfarte, estão o desconforto moderado a grave, que pode incuir dor no peito, garganta, pescoço, costas, estômago ou ombros, durante mais de 15 minutos.

É, muitas vezes, acompanhado por náuseas, suores frios, fraqueza, falta de ar ou medo.

“Outro alerta é sentir que não tem poder para agir de acordo com os seus sintomas”, explica Nymark. “Isso pode indicar uma ameaça real para a saúde e a necessidade de chamar uma ambulância.”

“As nossas descobertas são preocupantes, porque até uma pequena redução no atraso salvaria o músculo cardíaco e a vida”, avança a especialista. “Reduzir os atrasos parece ser uma tarefa complexa e precisamos de encontrar formas

“Se tem sintomas que podem ser causados ​​por um enfarte, não os ignore. Peça ajuda imediatamente. É melhor estar errado sobre os sintomas do que morrer.”

cérebro de bebés prematuros

Música ajuda a desenvolver o cérebro dos bebés muito prematuros

Por | Investigação & Inovação

Qual a melhor forma de ajudar a desenvolver o cérebro dos bebés prematuros, apesar do ambiente stressante e dos cuidados de que necessitam? A resposta é simples, ainda que inusitada e original: música escrita propositadamente para eles.

Em Portugal, dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que, por cá, 8,1% de todos os bebés têm pressa de nascer, fazendo-o antes da 32ª semana de gestação. E confirma também que este número tem vindo a aumentar (era de 7,8% em 2012), tal como acontece na maior parte dos países industrializados.

E apesar dos avanços, que tornam possível aumentar a esperança de vida dos bebés, estes continuam a ter risco elevado de desenvolver distúrbios neuropsicológicos. Foi com isso em mente que investigadores da Universidade de Genebra e do Hospital Universitário de Genebra (HUG), na Suíça, propõem uma solução original.

E os primeiros resultados, publicados na revista Proceedings of National Academy of Sciences, são surpreendentes: imagens médicas confirmam que as redes neurais dos e bebés que ouviram esta música estão a desenvolver-se muito melhor.

Combater as imaturidade do cérebro dos bebés

A Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do HUG recebe, todos os anos, 80 crianças nascidas demasiado cedo – entre as 24 e as 32 semanas de gravidez, ou seja, quase quatro meses antes do previsto para algumas delas.

A grande maioria sobreviverá, mas metade desenvolverá problemas ao nível do neurodesenvolvimento, incluindo dificuldades de aprendizagem ou distúrbios emocionais.

“Ao nascer, os cérebros destes bebés ainda são imaturos. O desenvolvimento do cérebro deve, portanto, continuar na unidade de cuidados intensivos, numa incubadora, sob condições muito diferentes daquelas que teria se ainda estivessem no ventre da mãe”, explica Petra Hüppi, especialista na HUG e uma das responsáveis pelo estudo.

“A imaturidade do cérebro, combinada com um ambiente sensorial perturbador, explica por que as redes neurais não se desenvolvem normalmente”, acrescenta.

Música feita à medida

Os investigadores partiram de uma ideia prática: como os déficites neurais dos bebés prematuros são devidos, pelo menos em parte, a estímulos inesperados e stressantes, bem como à falta de estímulos adaptados à sua condição, o seu ambiente deveria ser enriquecido com a introdução de estímulos agradáveis e estruturantes.

Uma vez que o sistema auditivo funciona desde cedo, a música parece ser um bom candidato. Mas que música pode ajudar a desenvolver o cérebro dos bebés?

“Por sorte, conhecemos o compositor Andreas Vollenweider, que já tinha projetos musicais com populações frágeis e que demonstrou grande interesse em criar músicas adequadas para crianças prematuras”, refere Petra Hüppi.

Lara Lordier, especialista em neurociências, explica que “era importante que os estímulos musicais estivessem relacionados com a condição do bebé. Queríamos estruturar o dia com estímulos agradáveis ​​em momentos certos: uma música para acompanhar o seu despertar, uma música para acompanhar o adormecer e uma música para interagir durante as fases de despertar”.

Andreas Vollenweider experimentou vários tipos de instrumentos e o que gerou mais reações foi a flauta de encantadores de serpentes indiana (punji). “Crianças muito agitadas acalmaram quase instantaneamente, a atenção delas foi atraída pela música!”, refere Lara Lordier.

Seguiu-se a composição, três ambientes sonoros de oito minutos cada, com punjis, harpa e sinos. E os resultados ao nível do cérebro dos bebés motiva os investigadores a prosseguirem o trabalho.

idas à farmácia ajudam idosos com insuficiência cardíaca

Até 50% dos idosos com insuficiência cardíaca não aderem à medicação

Por | Investigação & Inovação

Entre 30 e 50% dos idosos com insuficiência cardíaca na Europa não aderem à medicação. As idas semanais à farmácia aumentam a probabilidade de tomarem os seus comprimidos e serem mais ativos na vida diária, revelam os resultados de um estudo recente.

Apresentado no Heart Failure 2019, um congresso científico Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), o estudo PHARM-CHF confirma que “aderir a um complexo regime de medicação é um enorme desafio para os idosos com insuficiência cardíaca”, refere Martin Schulz, um dos investigadores principais e professor do Departamento de Farmácia Clínica, da Freie Universitaet Berlin, na Alemanha.

“Estima-se que 30% a 50% dos doentes na Europa não aderem à medicação para a insuficiência cardíaca, o que resulta num aumento da frequência e gravidade dos sintomas, como falta de ar, agravamento da insuficiência cardíaca e consequentes hospitalizações e maior mortalidade.”

A falta de adesão inclui não aviar a receita, tomar uma dose menor do que é prescrito, fazer intervalos na medicação, sobretudo durante os finais de semana ou feriados, ou quando a pessoa se sente melhor, ou parar completamente um ou mais medicamentos.

Benefício da ida à farmácia na insuficiência cardíaca

O estudo PHARM-CHF quis perceber se ver regularmente um farmacêutico melhora ou não a adesão a medicamentos para a insuficiência cardíaca.

Para isso, socorreu-se de um total de 237 doentes com insuficiência cardíaca crónica, com 60 anos ou mais,  divididos, de forma aleatória, em dois grupos, seguidos ao longo de dois anos: um que recebia o tratamento normal e outro alvo de uma intervenção de farmácia. 

A intervenção começou com uma revisão da medicação. Os doentes levaram os seus medicamentos a um farmacêutico, que fez um plano de medicação, verificou se havia interações medicamentosas e medicações duplas, e contactou o médico sobre quaisquer riscos.

Os doentes visitavam a farmácia a cada oito a 10 dias para discutir a adesão e os sintomas, além de medirem a pressão arterial e a pulsação. Os medicamentos eram fornecidos numa caixa com compartimentos para a manhã, tarde e noite de cada dia. 

Contas feitas, a proporção de pessoas com insuficiência cardíaca que aderiram à medicação aumentou de 44% para 86% no grupo da farmácia e de 42% a 68% no grupo de cuidados habituais, uma diferença significativa de 18 pontos percentuais entre os grupos.

Os doentes no grupo de farmácia foram três vezes mais propensos a aderir, em comparação com o grupo alvo de cuidados habituais. 

Já a melhoria na qualidade de vida foi mais pronunciada no grupo de farmácia, ao fim de um ano, e significativamente melhor em comparação com o grupo de cuidados habituais após dois anos. Isto significa que os doentes do grupo de farmácias eram menos limitados nas suas atividades diárias e menos preocupados com a sua doença.

“O ponto principal é que as visitas às farmácias precisam de ser usado como uma oportunidade para fornecer cuidados estruturados”, reforça o especialista.

impacto do fumo dos incêndios na saúde dos bombeiros

Estudo inédito confirma riscos do fumo dos incêndios para a saúde dos bombeiros

Por | Investigação & Inovação

Não são só os problemas no aparelho respiratório e circulatório os problemas de saúde que afetam os bombeiros em cenários de combate a incêndios florestais. Uma investigação da Universidade de Aveiro (UA) confirma que a exposição frequente e prolongada a elevados níveis de concentração de poluentes, presentes no fumo dos incêndios, pode originar problemas de saúde agudos ou de longo prazo.

Foi a primeira vez que se monitorizaram os sinais vitais de soldados da paz em cenários de incêndio experimentais. Um trabalho que conclui, como explica em comunicado Raquel Sebastião, investigadora do Instituto de Engenharia Informática e Telemática de Aveiro (IEETA), que há problemas que “podem aparecer rapidamente, como erupções agudas e instantâneas nos olhos, irritações no nariz e na garganta e falta de ar”.

Sintomas que, acrescenta, “geralmente evoluem para dores de cabeça, tonturas e náuseas e que podem ter uma duração de várias horas”.

Durante o combate aos incêndios, os bombeiros estão especialmente expostos a poluentes que são inalados, afetando o seu sistema respiratório. De facto, esclarece Raquel Sebastião, “a exposição frequente e prolongada a elevados níveis de concentração de poluentes durante o combate de incêndios florestais pode originar
problemas de saúde agudos ou de longo prazo”.

A isto junta-se “a diminuição da função pulmonar, podendo-se traduzir numa capacidade respiratória ligeiramente diminuída, na constrição do trato respiratório e em hipersensibilidade das pequenas vias aéreas”.

Além destes sintomas, e de acordo com a Associação Nacional de Proteção contra Incêndios dos EUA, a maioria das mortes ocorridas durante os incêndios são devidas à inalação de poluentes presentes no fumo.

Ritmo cardíaco influenciado pela exposição a fumo

O trabalho pioneiro monitorizou o ritmo cardíaco de bombeiros e a respetiva exposição a monóxido de carbono em diferentes cenários de combate ao fogo, o que permitiu verificar situações de exposição dos bombeiros a níveis de monóxido de carbono elevados, bem como alterações no ritmo cardíaco associadas a valores de pico de exposição a este gás de grande toxicidade para a saúde humana.

“Apesar de ser necessário realizar mais estudos, os resultados sugerem que o ritmo cardíaco dos bombeiros reage a variações de exposição a gases como o monóxido de carbono, e que a localização do bombeiro em relação ao fogo e ao fumo pode ser relevante no que se refere aos efeitos da inalação do gás”, refere a investigadora.

Na impossibilidade de monitorizar de forma regular e no terreno a exposição individual dos bombeiros ao monóxido de carbono, “a monitorização do ritmo cardíaco, atualmente de baixo custo e tecnologicamente viável, pode ser um valioso alarme para a retirada ou para a realocação do bombeiro, evitando situações de perigo não identificadas claramente no teatro de operações”.

É, portanto, “essencial monitorar a frequência cardíaca e perceber as alterações que podem levar a efeitos colaterais indesejáveis sobre as condições de saúde dos bombeiros”.

estar doente depende da hora do dia

Estar doente de manhã pode ser diferente de estar doente à noite

Por | Investigação & Inovação

O que é que a hora do dia tem a ver com a gravidade das doenças? Muito, garante um novo estudo, que explica como o ritmo circadiano, ou seja, o nosso relógio interno, pode influenciar a forma como os problemas de saúde nos afetam. Ou seja, estar doente de manhã pode ser diferente de estar doente à noite.

Investigadores da Universidade de Genebra, na Suíça, tornaram pública a sua investigação, na revista Trends in Immunology, com base em trabalhos feitos com ratinhos de laboratório. Nela, descrevem como a altura do dia tem impacto em quatro doenças: enfarte, pneumonia, infeções parasitárias e ataques de asma.

Parece que o corpo reage a estímulos, como a luz e as hormonas, para antecipar ritmos recorrentes de sono, metabolismo e outros processos fisiológicos. Tanto em humanos como nos ratinhos, o número de leucócitos (glóbulos brancos), elementos fundamentais do sistema imunitário, também oscila de forma circadiana, o que coloca a questão: será possível, um dia, otimizar a resposta imunitária através da perceção e utilização do relógio circadiano?

Ainda que a resposta não tenha sido encontrada, passos importantes foram dados nesses sentido. Resultados considerados “impressionantes” pelo autor sénior do estudo, o imunologista Christoph Scheiermann, que defende mesmo que devem “ser relevantes para aplicações clínicas, na área dos transplantes a da vacinação”.

Enfartes mais comuns pela manhã; ataques de asma de madrugada

Os resultados revelam que os enfartes em humanos costumam ser mais frequentes durante a manhã, com a investigação a sugerir que os ataques cardíacos matinais tendem a ser mais graves do que aqueles que ocorrem à noite. 

No caso das infeções por parasitas, ficou claro que estas dependem da hora do dia. Os ratinhos infetados durante a manhã com o parasita gastrointestinal Trichuris muris foram capazes de matar os vermes significativamente mais rápido do que os ratos infetados à noite.

Também a pneumonia foi aqui contemplada, com o recrutamento de células do sistema imunitário durante a inflamação pulmonar a exibir um padrão de oscilação circadiana. Os investigadores verificaram que é durante a tarde que tendiam a ser recrutados mais monócitos, uma espécie de leucócitos.

Já os sintomas alérgicos, que também seguem um ritmo dependente da hora do dia, geralmente pioram entre a meia-noite e o início da manhã.