vacina para a gripe em forma de pastilhas

Vacina da gripe em forma de pastilha: uma ideia nacional

Por | Investigação & Inovação

E se a vacina da gripe fosse substituída por pastilhas efervescentes? Para aqueles a quem a ideia da agulha afasta da vacinação, a ideia não podia ser melhor, ainda que seja, por enquanto, apenas um projeto, nascido na Universidade de Aveiro (UA).

À base de vitamina C e de uma mão cheia de minerais, o ingrediente secreto das super-pastilhas está nos anticorpos retirados das gemas dos ovos das galinhas. Sem as contraindicações das vacinas que todos os anos têm de ser reformuladas e sem a agulha invasiva, as pastilhas querem revolucionar o combate à gripe. Só falta uma coisa: financiamento.

Os anticorpos IgY – assim se chamam os ingredientes chave das pastilhas efervescentes – são produzidos exclusivamente por aves, estando concentrados nas gemas dos ovos. Proteínas que atuam no sistema imunológico como defensoras do organismo, referem os investigadores do Departamento de Química (DQ) da UA, que acrescentam ser possível manipulá-los de forma a torná-las armas eficazes no combate ao Influenza, o vírus causador da gripe.

Uma pastilha por dia…

Marguerita Rosa, Emanuel Capela e Mariam Kholany, estudantes do Doutoramento em Engenharia Química do DQ e do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro da UA, são os autores da ideia, que passa pela toma de uma pastilha por dia. “É o que desejamos alcançar para manter a proteção ao longo do tempo de maior incidência do vírus da gripe”, referem, em comunicado.

Com a tecnologia e os conhecimentos científicos necessários para acabarem com o Influenza, os jovens investigadores querem criar um produto nutracêutico revolucionário e inovador para combater o vírus da gripe.

“A nossa ideia passa por desenvolver pastilhas efervescentes contendo anticorpos da gema do ovo específicos para as proteínas membranares constantes do vírus, e suplementadas com vitamina C e outros minerais para reforçarem o sistema imunitário”, explicam.

“Trata-se de um método passível de ser utilizado por toda a população e não apenas por doentes de risco, tendo a vantagem de ser não-invasivo quando comparado com a vacinação tradicional.”

Uma aposta vencedora

O projeto foi mesmo um dos 12 finalistas selecionados para apresentação de um pitch no na V IMFAHE’s International Conference 2019 – Innovation Camp, que decorreu em março, na Universidade de La Laguna, em Tenerife (Ilhas Canárias).

No final, venceram o segundo prémio no concurso, arrecadando 2 mil euros para trabalharem na proposta ao longo do próximo ano.

Os investigadores: Marguerita Rosa, Emanuel Capela e Mariam Kholany

genes envolvidos na dor

Há uma mulher que vive sem dor no mundo e a culpa é de um gene

Por | Investigação & Inovação

Como seria viver sem dor, não sentir nada depois de uma cirurgia, de um trauma ou de um acidente? Há pelo menos uma pessoa que sabe a resposta, uma escocesa que, para além de não sentir dor, experimenta ainda pouca ou nenhuma ansiedade e medo.

Foi quando, aos 65 anos, procurou tratamento para a anca que os especialistas começaram a suspeitar que poderia ser diferente dos restantes mortais. Isso e o facto de, ao longo de toda a sua vida, nunca ter precisado de tomar analgésicos após cirurgias, como aquelas que envolveram idas ao dentista.

Apesar de sofrer de uma grave degeneração articular, aparentemente não sentia qualquer dor. Aos 66 anos, foi submetida a uma cirurgia à mão, normalmente muito dolorosa, e ainda assim não relatou dor após a intervenção.

Uma insensibilidade diagnosticada por Devjit Srivastava, consultor em Anestesia num hospital do  serviço nacional de saúde do norte da Escócia e coautor do estudo, agora publicado, sobre este tema, que explica o que é que esta mulher tem.

“Descobrimos que tem um genótipo específico que reduz a atividade de um gene, já considerado um possível alvo para tratamentos da dor e ansiedade”, explica um dos principais investigadores do estudo, James Cox, da London’s Global University (UCL).

“Agora que estamos a descobrir como esse gene recém-identificado funciona, esperamos avançar ainda mais no desenvolvimento de novos alvos de tratamento.”

Caso que pode não ser único

Para além de uma ausência de dor, a mulher escocesa sente ainda pouca ansiedade e medo, e pode ter melhorado a cicatrização de feridas devido à mutação genética, que os investigadores consideram que pode ajudar a orientar novos tratamentos para uma série de problemas.

Encaminhada para os geneticistas da UCL e da Universidade de Oxford, as análises genéticas identificaram duas mutações notáveis, uma das quais num gene bem conhecido pelos especialistas da dor.

Voltando à mulher escocesa, ao longo da sua longa história de cortes e queimaduras (às vezes despercebidas, até ao momento em que sentia o cheiro a carne queimada), havia outra constante: as lesões tendiam a sarar muito rapidamente.

É uma verdadeira otimista, que relata nunca entrar em pânico, mesmo em situações perigosas, como um acidente de trânsito recente. 

Os investigadores dizem ser possível que haja mais pessoas com a mesma mutação, já que esta mulher não tinha consciência da sua condição até os 60 anos.

“Pessoas com insensibilidade rara à dor podem ser valiosas para a investigação médica, à medida que aprendemos como as suas mutações genéticas afetam a forma como a sentem. Por isso, encorajamos qualquer um que não tenha dor a apresentar-se”, refere Cox.

Em busca de novos medicamentos

A equipa de investigação continua a trabalhar com a mulher na Escócia e está a realizar testes adicionais em amostras de células, para entender melhor o novo pseudogene.

“Esperamos que, com o tempo, as nossas descobertas possam contribuir para a investigação clínica da dor e ansiedade pós-operatória e potencialmente da dor crónica, stress pós-traumático e cicatrização de feridas, recorrendo a terapêutica genética”, refere o especialista.

“As implicações dessas descobertas são imensas”, acrescenta Srivastava.

“Um em cada dois doentes ainda sente dor moderada a intensa após cirurgia, apesar de todos os avanços nos medicamentos e técnicas analgésicas desde o uso do éter, em 1846, para primeiro ‘anular’ a dor da cirurgia”, explica.

“As descobertas apontam para uma nova gama de analgésicos que poderia oferecer alívio para a dor pós-cirúrgica e também acelerar a cicatrização de feridas. Esperamos que isso ajude os 330 milhões de pessoas submetidas a cirurgia em todo o mundo por ano.”

estudo sobre doença dos pezinhos

Estudo nacional faz novas descobertas sobre a doença dos pezinhos

Por | Investigação & Inovação

A idade com que se manifestam os sintomas de paramiloidose, doença neurodegenerativa conhecida como ‘doença dos pezinhos’, não é sempre a mesma. Há doentes mais jovens, outros mais velhos, variação que está associada a fatores genéticos. Agora, uma equipa nacional publicou dois artigos onde associa um conjunto de genes à idade em que a doença se começa a manifestar.

Dados que vão permitir uma melhor previsão do início dos sintomas.

“Apesar desta doença ser monogénica, ou seja, apenas um gene é responsável pelo seu aparecimento, muitos outros genes podem interferir na idade em que se manifesta”, explica ao site Notícias UP Carolina Lemos, investigadora do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Universidade do Porto, e uma das autoras do estudo.

Genes escondem informação

Em causa está o gene ATXN2, identificado pelas especialistas nacionais, que pela primeira vez o associaram à doença dos pezinhos, confirmando que condiciona o risco antecipado do aparecimento da mesma.

O estudo verifica também que determinadas formas deste gene estão associadas ao desenvolvimento mais precoce da doença dos pezinhos, ao contrário do gene C1Q e de algumas das suas variantes, que retardam a idade de início da paramiloidose em famílias cipriotas, tendo sido descoberta associação idêntica em famílias portuguesas, apesar das variantes portuguesas serem diferentes das encontradas nas famílias do Chipre. 

As primeiras autoras dos artigos, Andreia Dias e Diana Santos, explicam que “não basta identificar e conhecer o gene que causa a paramiloidose, é preciso conhecer muitos outros genes, aparentemente não relacionados, que de alguma forma influenciam o aparecimento da doença”. A ação destes genes ou a sua interação podem, aliás, ter efeitos cumulativos.

De acordo com Carolina Lemos, este tipo de estudos “tem impacto a médio prazo, ao permitir uma melhor previsão da idade de início dos sintomas em cada doente e abre caminhos a futuros estudos funcionais na interação entre genes que podem vir a revelar, um dia, formas de travar o avanço da paramiloidose”.

diagnóstico para a doença de Parkinson

Diagnosticar a doença de Parkinson através do cheiro

Por | Investigação & Inovação

A ideia de que uma doença pode ter um cheiro próprio pode ser estranha, mas quando a confirmação é feita pela ciência, o melhor mesmo é aproveitar o facto para melhorar o diagnóstico. É isso mesmo que se pretende com a descoberta de produtos químicos, presentes na pele, responsáveis ​​por um aroma único em pessoas com a doença de Parkinson.

Resultados que sugerem que a doença de Parkinson pode vir a ser, um dia, diagnosticada a partir da análise dessas substâncias na pele, recolhidas com recurso a um cotonete, o que abre a porta a novos testes.

O cheiro pode ser a chave

Não há, atualmente, um exame de diagnóstico para a doença de Parkinson, que é identificada a partir da observação dos sintomas, um processo que pode durar vários anos.

Cientistas da Universidade de Edimburgo sugerem agora que esta doença pode vir a ser diagnosticado devido à presença de substâncias químicas na pele.

Tudo começou com Joy Milne, a viúva de um ex-doente, cujo sentido apurado de olfato permitiu perceber que as pessoas com Parkinson têm um aroma único.

Num estudo piloto, Joy foi capaz de distinguir com precisão quais os doentes e quais as pessoas saudáveis, através apenas do cheiro das camisolas que usaram ao longo de 24 horas.

Utilizando uma técnica especializada que imita o nariz humano, investigadores da Universidade de Manchester analisaram a amostras da pele de pessoas com a doença de Parkinson e identificaram três moléculas associadas ao odor, causadas pela doença, que acreditam serem capazes de vir a dar origem a novos testes.

Um passo importante no sentido da criação de uma forma de diagnóstico que permita reduzir o tempo que leva até ao diagnóstico.

“Ter um teste conclusivo teria um enorme impacto, não apenas para os doentes, mas também na investigação de novos tratamentos”, confirma Tilo Kunath, especialista do Conselho de Pesquisa Médica Centro de Medicina Regenerativa da Universidade de Edimburgo.

Ainda à procura de uma cura

A doença de Parkinson é provocada por uma perda de células nervosas na parte do cérebro que controla o movimento do corpo. Atualmente, não há cura, mas os especialistas esperam que a identificação precoce das pessoas afetadas seja capaz de as ajudar na busca por tratamentos.

defeitos cardíacos congénitos nos bebés

Fumo dos pais pode causar problemas no coração dos filhos

Por | Investigação & Inovação

O tabaco faz mal à saúde. A afirmação é antiga e têm sido tantos os estudos que o confirmam que já não há aqui dúvidas. Ainda assim, o vício dos cigarros continua a preocupar e, agora, a mensagem é dirigida aos homens. Ao que parece, o tabagismo paterno está associado ao aumento do risco de defeitos cardíacos congénitos nos mais pequenos.

Publicado no European Journal of Preventive Cardiology, revista da Sociedade Europeia de Cardiologia, o trabalho deixa o alerta, em forma de repto: “Os pais devem parar de fumar”.

A posição é defendida por Jiabi Qin, da Escola de Saúde Pública de Xiangya, na China, autor do estudo, que acrescenta que “os pais são uma grande fonte de fumo passivo para as mulheres grávidas, que parece ser ainda mais prejudicial para os bebés”.

Principal causa de morte neonatal

Os defeitos cardíacos congénitos são a principal causa de morte neonatal e afetam oito em cada 1.000 nascimentos em todo o mundo, revelam os dados existentes.

O prognóstico e a qualidade de vida continuam a melhorar, graças aos avanços na ciência e cirurgia, mas nem por isso os efeitos deixaram de se fazer sentir. 

“Fumar é teratogénico, o que significa que pode causar malformações no desenvolvimento. A associação entre o tabagismo dos pais e o risco de defeitos cardíacos congénitos tem atraído cada vez mais atenção, com o aumento do número de fumadores em idade fértil”, refere o especialista.

Associação perigosa

Esta foi a primeira meta-análise que examinou a relação entre tabagismo paterno, tabagismo passivo materno e os riscos de defeitos cardíacos congénitos nos filhos.

Os estudos anteriores tinham-se focado sobretudo no tabaco entre as grávidas, mas segundo Qin, “pais fumadores e a exposição ao fumo passivo em mulheres grávidas são mais comuns do que grávidas fumadoras”.

Os investigadores analisaram 125 estudos, que envolviam 137.574 bebés com defeitos cardíacos congénitos e 8,8 milhões de futuros pais.

Todos os tipos de tabagismo dos pais foram associados ao risco de defeitos cardíacos congénitos, com um aumento de 74% no caso dos homens fumadores, 124% nas situações de fumo passivo em mulheres e 25% nos casos de mulheres fumadoras, em comparação com os que não tinham o vício do tabaco ou não eram expostos ao fumo deste.

Esta foi também a primeira revisão que avaliou o tabagismo em diferentes fases da gravidez e o risco de defeitos cardíacos congénitos, o que levou o investigador a defender que “as mulheres devem parar de fumar antes de tentarem engravidar, para garantir que estão livres do fumo quando engravidam”.

Mas, mais do que isso, é também importante que “fiquem longe das pessoas que estão a fumar. Os empregadores podem ajudar, garantindo que os locais de trabalho são livres de fumo”.

No caso dos médicos e profissionais de saúde dos cuidados primários, Jiabi Qin considera que estes “precisam de fazer mais para divulgar e educar os futuros pais sobre os riscos potenciais do tabagismo para o feto”.

casos de tuberculose

Especialistas querem eliminar a tuberculose até 2045

Por | Investigação & Inovação

A tuberculose pode ser tratada, prevenida e curada, mas mata 1,6 milhão de pessoas todos os anos, mais pessoas do que qualquer outra doença infecciosa. A boa notícia é que é possível ter um mundo livre de tuberculose até 2045, isto se a vontade política e os recursos financeiros forem direcionados para áreas prioritárias.

Em vésperas do Dia Mundial da Tuberculose, que se assinala no próximo dia 24, um relatório da Comissão The Lancet dá conta da necessidade de aumentar os esforços e implementar medidas para acabar de vez com a doença. 

“Este relatório é otimista sobre o fim da tuberculose, uma doença que é evitável, tratável e curável. No entanto, não há espaço para complacência no nosso trabalho e devemos agir rápida e estrategicamente para salvar da doença a próxima geração”, refere o comissário-chefe Eric Goosby, enviado especial das Nações Unidas sobre a Tuberculose.

Tratar 40 milhões de pessoas

A tuberculose continua a ser a principal causa de morte infecciosa do nosso tempo, responsável por 1,6 milhões de mortes em todo o mundo em 2017, com formas da doença resistentes a medicamentos que ameaçam os esforços de controlo em muitos países.

No mesmo ano, cerca de um quarto da população mundial vivia com infeção por tuberculose.

Em Portugal, de acordo com os dados mais recentes, a incidência é de 17,5 casos por cada cem mil habitantes, valor superior ao verificado na União Europeia, onde se fica pelos 10,7 por cada cem mil pessoas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, pela primeira vez, a tuberculose como uma crise de saúde pública em 1993 e, em 2018, a primeira Reunião de Alto Nível da ONU sobre o tema tornou-a uma prioridade global.

O que incluiu metas ambiciosas para tratar 40 milhões de pessoas e evitar 30 milhões de novos casos entre 2018 e 2022.

É nesse sentido que a Comissão Lancet faz recomendações de políticas e investimentos para os países com números mais altos de tuberculose, um trabalho realizado por 37 comissários de 13 países, que inclui análises económicas e modelagem de intervenções para enfrentar os desafios do tratamento.

Definição de prioridades

A primeira prioridade para a maioria dos países é garantir a disponibilidade de testes e tratamentos de diagnóstico de elevada qualidade a todas as pessoas com a doença.

Muitos, sobretudo os com menos recursos, não têm acesso ou conseguem pagar pelos serviços e os sistemas de saúde são frequentemente lentos quando se trata de identificar e investigar casos, o que significa que os doentes não fazem o tratamento completo ou recuperam.

canábis associada a psicoses

Uso diário de canábis associado a taxas mais altas de psicose

Por | Investigação & Inovação

É o primeiro estudo do género a mostrar o impacto do consumo de canábis nas taxas de psicose entre a população e as notícias não são boas. Numa altura em que as leis sobre esta substâncias estão a mudar um pouco por todo o mundo, os especialistas deixam alertas.

O consumo diário de canábis, sobretudo aquela com uma potência mais elevada, está fortemente associado ao risco de desenvolvimento de psicose, confirma este estudo, realizado em 11 locais de toda a Europa.

Publicado na revista científica The Lancet Psychiatry, revela que, nas cidades onde a canábis de alta potência está amplamente disponível, como Londres e Amesterdão, um número significativo de novos casos de psicose surge associado ao uso diário desta substância.

Associação perigosa

Têm sido muitos os países que legalizaram ou descriminalizaram o uso desta planta, o que fez aumentar, junto de alguns especialistas, o receio de que essas mudanças possam ter como resultado um aumento no uso da substância, assim como nos danos associados.

Vários estudos, observacionais e de evidências biológicas, têm confirmado a ligação causal entre o uso de canábis e a psicose, mas até agora não estava claro se, ao nível populacional, os padrões de uso influenciavam as taxas de psicose.

Marta Di Forti, principal autora do estudo e investigadora do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College de Londres, Reino Unido, explica que estas descobertas “são consistentes com estudos anteriores, que mostraram que o uso de canábis com uma elevada concentração de tetrahidrocanabinol (THC), a principal substância psicoativa encontrada na canábis, tem mais efeitos nocivos na saúde mental do que o uso de formas mais fracas”.

Indica também, de acordo com a especialista, e isto pela primeira vez, “que o consumo de canábis afeta a incidência de transtornos psicóticos. Tendo em conta que o estatuto legal da canábis está a mudar em muitos países, e tendo em conta também as propriedades medicinais de alguns tipos desta substância, é de vital importância para a saúde pública consideramos os potenciais efeitos adversos associados ao seu uso diário, especialmente das variedades de potência elevada”.

Compreender os fatores de risco associados à psicose

O novo estudo teve como cenário 11 locais em toda a Europa (e um no Brasil). Primeiro, os investigadores estimaram a prevalência de psicose, identificando todos os indivíduos com episódios psicóticos identificados pelos serviços de saúde mental entre 2010 e 2015.

Em seguida, compararam 901 doentes com primeiro episódio de psicose com 1.237 pessoas de um grupo de controlo, para compreender os fatores de risco associados à psicose.

Foi recolhida informação sobre o histórico de uso desta planta e outras drogas recreativas e estimada a potência da canábis usada ​​pelos participantes, dividida entre de alta potência (com THC acima de 10%) ou baixa potência (abaixo de 10%).

O uso diário da substância foi mais comum entre os doentes com primeiro episódio de psicose, comparando com o controlo. Ao todo, 29,5% referiram usar canábis diariamente, comparando com 6,8% dos restantes.

Um em cada cinco casos de psicose associados à substância

O uso de canábis de alta potência foi também mais comum entre os doentes com primeiro episódio de psicose, comparando com os do controlo: 37,1% dos primeiros relataram o uso de canábis de alta potência, em comparação com 19,4% dos segundos.

Uma vez avaliados outros fatores, os autores verificaram que, em todos os 11 locais, aqueles que usavam canábis diariamente tinham três vezes mais probabilidade de ter um diagnóstico de primeiro episódio psicótico, comparando com as pessoas que nunca usaram a substância. Valor que aumentou para cinco vezes mais com o uso diário de canábis de alta potência.

Os autores estimam que um em cada cinco novos casos (20,4%) de psicose nos 11 locais podem estar associadas ao consumo diário de canábis e um em dez (12,2%) estar ligados ao uso de altas doses de canábis de potência mais alta.

De acordo com Suzanne H Gage, da Universidade de Liverpool, “infelizmente, nem todas as evidências que utilizam métodos diferentes são consistentes no que diz respeito a esta relação… É perfeitamente possível que a associação entre canábis e psicose seja bidirecional”.

Mas acrescenta que este estudo tem algo de novo, “indicando, de forma consistente que, para alguns indivíduos, há um risco aumentado de psicose, resultante do uso diário desta planta com potência elevada. Dada a mudança do estatuto legal da canábis em todo o mundo, e o potencial associado a um aumento no seu uso, a próxima prioridade é identificar quais os indivíduos que estão em risco e desenvolver estratégias e intervenções educacionais para estes”.

teste permite prever doença genética

Análise permite identificar casais em risco de ter filho com doença genética grave

Por | Investigação & Inovação

Será que vai correr tudo bem? Será que o bebé vai ser saudável? As questões associadas à gravidez são muitas e é para lhes dar resposta que a ciência tem evoluído. O passo mais recente reveste-se de uma análise genética, que permite fazer o rastreio aos elementos do casal antes mesmo da gestação, identificando assim a probabilidade de conceberem um filho com uma doença genética grave.

“Os filhos herdam a cor do cabelo ou de olhos dos seus pais, mas também podem herdar doenças genéticas”, explica Margarida Reis-Lima, médica geneticista.

“Quando ambos os progenitores são portadores de uma mutação num gene para a mesma doença genética, há 25% de probabilidade de transmitirem essa doença aos seus filhos. A grande maioria dos portadores não apresenta nenhum sintoma e não possui antecedentes familiares, motivo pelo qual estas patologias podem passar despercebidas durante gerações e ser descobertas apenas quando um filho as desenvolve”, acrescenta.

Um dos estudos científicos que atesta a eficácia desta análise, o preconGen, foi realizado em 350 mil adultos e comprovou que há uma percentagem significativa de gestações com fetos afetados por doença genética grave que o rastreio tradicional não deteta.

Ainda de acordo com o mesmo estudo, a cada 550 gestações, um dos fetos será afetado por uma das 176 patologias graves incluídas no painel deste novo rastreio, sendo que esta probabilidade é teoricamente mais alta que o risco natural de um feto apresentar Síndrome de Down (Trissomia 21).

Teste indicado para casais com plano de PMA

A nova análise, disponibilizada pela Synlab, estuda apenas patologias para as quais existem recomendações que permitem validar uma ação terapêutica ou preventiva posterior.

Ou seja, um rastreio que analise mais patologias não é necessariamente melhor, se não existir possibilidade de se oferecer um tratamento ao doente para essas mesmas patologias adicionais. 

“Esta análise está especialmente indicada para casais com algum grau de consanguinidade”, refere a especialista.

A estes juntam-se ainda os casais cuja origem étnica favoreça o risco para serem portadores de algum tipo das doenças incluídas no painel ou casais com antecedentes de perdas fetais recorrentes ou de mortes fetais e neonatais sem explicação.

Importante é também o facto de ser aconselhado para casais que vão recorrer à doação de gâmetas para selecionar um dador mais adequado e/ou que vão iniciar um plano de procriação medicamente assistida (PMA), número que tem vindo a aumentar em Portugal.

De facto, nos últimos anos, cerca de 3% das crianças portuguesas nasceram com recurso a técnicas de PMA, o que torna esta análise cada vez mais pertinente. No entanto, pode também ser realizada por qualquer casal que pretenda formar ou ampliar a família, ou por pessoas individuais que desejem conhecer se são portadores.

facilitar a doação de rins

Investigadores nacionais participam em projeto europeu para facilitar doação de rins

Por | Investigação & Inovação

Chama-se ENCKEP, sigla que traduz a European Network for Collaboration on Kidney Exchange. Um projeto que envolve 28 países de toda a Europa e tem um objetivo: facilitar o processo da doação de rins entre nações. Para o fazer, conta com uma ferramenta made in Portugal.

Foi no INESC TEC, no Porto, que nasceu a ferramenta que se encontra na base do ENCKEP e que permite identificar os “pares mais interessantes” para a doação de rins e respetivo transplante.

A esta tarefa, os investigadores nacionais juntam outra tarefa, a de estudar hipóteses e desenvolver modelos que reflitam a realidade. O objetivo passa por apresentar um protótipo final, em 2020, data de fim do projeto.

O projeto pretende ainda propor uma plataforma comum para partilha de dados e a otimização de modelos em programas internacionais, desenvolvendo e testando um protótipo transnacional.

“Neste campo existem muitas preocupações éticas, legais e tecnológicas”, explica, citada pelo site Notícias UP, Ana Viana, investigadora do INESC TEC.

Há mais de 1900 portugueses à espera de doação de rins

As vantagens destas ‘conversas’ europeias são também sentidas pelos doentes renais, que esperam por um transplante, uma vez que quantos mais pares estiverem nos programas, maior a probabilidade de encontrarem um órgão compatível.

O que significa que países mais pequenos e que, por isso, têm programas nacionais de dimensão pequena, os benefícios passam por ter um maior número de doentes transplantados. No caso dos países de maiores dimensões, a colaboração é a maior vantagem.

“Quando o projeto iniciou, não existiam programas transnacionais de doação renal cruzada. Essa colaboração neste momento já é uma realidade, não necessariamente por via do projeto, mas requer uma análise mais aprofundada sobre a melhor forma de operacionalização”, refere a investigadora.

“Em particular, estando a falar de recursos escassos, os órgãos, é necessário entender de que forma esses órgãos devem ser distribuídos pelos países participantes de forma justa e, eventualmente, respeitando políticas que não seja possível uniformizar entre os diferentes países”, explica.

Recorde-se que, de acordo mais recentes com os dados do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, em Portugal contavam-se mais de 1900 doentes à espera de um transplante de rim no fim do ano passado.

enfarte aumenta com o calor

Risco de enfarte induzido pelo calor está a aumentar

Por | Investigação & Inovação

O ambiente pode ter um efeito importante no sistema cardiovascular humano. E já foi provado que os picos de temperatura aumentam o risco de enfarte. Agora, um grupo de especialistas quis ver até que ponto esse risco aumentou nos últimos anos.

E as conclusões não configuram boas notícias. De facto, ao longo dos 28 anos analisados, o risco de enfarte induzido pelo calor aumentou.

Kai Chen, investigador do Instituto de Epidemiologia da Helmholtz Zentrum München, na Alemanha, juntou-se a colegas de outras instituições e avaliou os dados do Registo de Enfarte do Miocárdio em Augsburg.

Um estudo que incluiu a análise de dados de mais de 27.000 pessoas que sofreram um enfarte, entre 1987 e 2014, com uma idade média de 63 anos. Ao todo, 73% eram homens e cerca de 13.000 perderam a vida na sequência do evento cardíaco.

Para além disso, foram ainda analisados dados meteorológicos referentes ao dia do enfarte, ajustados para uma série de fatores adicionais, como o dia da semana e o estatuto socioeconómico. 

Risco a aumentar

“A nossa análise revelou que, nos últimos anos, o risco de enfarte induzido pelo calor tem aumentado, com a subida da temperatura média diária”, explica Chen, que acrescenta que as pessoas com diabetes ou valor elevado de lípidos no sangue apresentam um risco maior.

Algo que, de acordo com os investigadores, pode ser, ainda que parcialmente, resultado do aquecimento global, mas também consequência de um aumento nos fatores de risco, como diabetes e hiperlipidemia, que tornam a população mais suscetível ao calor.

Calor possível ‘gatilho’

Os especialistas chamam, por isso, a atenção para as alterações climáticas, considerando ser importante ser dada mais atenção “às altas temperaturas como um possível gatilho para ataques cardíacos”, Alexandra Schneider, uma das autoras do estudo.

“Eventos climáticos extremos, como as ondas de calor de 2018 na Europa, poderão, no futuro, ter como resultado um aumento nas doenças cardiovasculares.”