Atitudes avarentas podem revelar baixa autoestima ou vaidade extrema

Por | Opinião | NS

Fabiano de Abreu, filósofo e escritos. Crédito: Contam Estórias (divulgação)

Segundo a tradição católica, a avareza é um dos sete pecados capitais. Um comportamento que se caracteriza pela dificuldade e o medo de perder o que se possui, como bens materiais e recursos. Por isso, uma pessoa avarenta tem dificuldade de abrir mão do que tem, mesmo que receba algo em troca; tem cuidado excessivo com seus pertences e é uma pessoa egoísta.

No Brasil, chama-se uma pessoa avarenta por muitos nomes, como pão-duro, mão-de-vaca, unha-de-fome ou muquirana, mas estes apelidos, muitas vezes empregados de modo pejorativo, estão longe de refletir as reais consequências da avareza na vida do avarento.

O filósofo e escritor Fabiano de Abreu acredita que a avareza e suas atitudes podem, na verdade, revelar não apenas baixa autoestima ou vaidade excessiva, mas também ter sua origem em outros assim chamados pecados capitais. E é isto que ele relata numa de suas teorias.

“A avareza manifesta-se quando o apego excessivo e descontrolado pelos bens materiais e pelo acúmulo de dinheiro revelam uma vaidade excessiva ou uma completa falta dela. Esse desejo de possuir muito dinheiro para si, pode ocasionar inveja, cobiça, e também pode estar ligado à gula. O indivíduo passa a querer mais e mais, de maneira irracional, pois se ele mesmo parar para pensar racionalmente, verá que, daqui dessa vida, não se leva nada, nenhuma moeda. Quando morrermos, independente da crença de cada um, seremos enterrados em buracos no chão, muito parecidos uns com os outros, só por isso, não deveríamos ser avarentos.”

Nunca é o bastante

Segundo Fabiano de Abreu, a avareza tem ligações com a não saciedade e insatisfação com o que se tem. “O avarento não consegue pensar que possui o suficiente para ser feliz porque vive um vazio existencial. Falta uma estima por si mesmo. O problema é que o avarento não consegue ser feliz com pouco, e pensa que só será feliz se tiver muito. No entanto, quando conseguem acumular um montante que para muitos é satisfatório, geralmente se tornam amargos,
mesquinhos, egoístas e com essa atitude se distanciam cada vez mais da tão desejada felicidade.”

De quanto precisamos para alcançarmos a felicidade? O filósofo faz um paralelo entre o necessário para se viver e desejo de acúmulo de riqueza. “Precisamos de bens materiais? Sim, precisamos de uma certa quantia para o que é essencial, para que usufruamos do mínimo de conforto e nos sintamos seguros. Mas o excesso, o acúmulo de bens pode ser sinal de uma busca por mascarar uma profunda tristeza interior. Se eu não me sinto bem comigo mesmo, eu acabo ficando vulnerável ao sugestionamento, e busco acumular riquezas e bens para chamar a atenção das pessoas. Seja comprar um carro de luxo, ou investir em imóveis de alto padrão, o avarento o faz para se sentir bem e aceite.”

“Essa pressão em obter mais, seja imposta pela família, pela sociedade, ou pelo próprio avarento, o motiva a se tornar um infeliz sem escrúpulos. O que não quer dizer que o avarento faz gastos a toda hora, mas os que faz, são compelidos por estas necessidades, de alcançar reconhecimento e tentar encontrar uma felicidade. Ele gosta de mostrar aos outros o que possui, mas não divide o que tem com ninguém. Ele é sovina, só gasta o seu dinheiro se tiver plateia olhando. Entre quatro paredes, a família sofre para retirar um vintém sequer dele, tudo é muito caro e, portanto, dispensável, na sua visão tacanha. É o famoso, ‘mão de vaca’, ou ‘pão duro’.”

A avareza como produto da experiência pessoal

Fabiano também aponta que alguns se tornam avarentos após um período de dificuldade financeira severa. “Se no contexto dos sete pecados capitais pensarmos que o avarento de hoje é o pobre e famigerado faminto de ontem, ele poderia ser perdoado? Alguns, dominados pela avareza, justificam o ‘pão-durismo’ dizendo que sofreram com a escassez na infância. Mas aquele que sentiu fome e se torna avarento pode ser escusado quando o assunto é o pecado da avareza? O motivo que o fez sofrer na infância foi a falta, e essa lembrança causa nele uma angustia, pois teme vir a passar pela escassez novamente. Essa lembrança se transforma num trauma que o leva a guardar grandes quantias, pois acredita piamente que poderá vir a precisar um dia.”

De acordo com a teoria do filósofo, aqueles que foram paupérrimos e passaram por privações podem definir um determinado objetivo de se tornarem prósperos e, no decorrer da vida, por tudo que teve que fazer, esse homem poderá, sim, vir a se tornar um avarento, se conseguir adquirir algum dinheiro na vida, colocando o acúmulo de dinheiro acima dos escrúpulos.

“Para conseguirem o que querem, burlam aqui, corrompem ali, são corrompidos acolá, e seguem comendo pelas beiradas, trilhando rumos obscuros para conseguirem o que querem, que é dinheiro e mais dinheiro. Porém, não podemos generalizar. O pobre só se tornará um rico avarento ou um ser pão-duro, se ele tiver dentro dele, sentimentos mesquinhos enraizados, uma mania de grandeza incrustada. Muitos, dominados pela avareza, se justificam dizendo que precisam ter uma reserva caso aconteça alguma coisa ‘ruim’, uma doença na família ou até com ele, um acidente, algo negativo. Esse pensamento de ‘prevenção’ é comum e natural nos seres humanos, mas o avarento de verdade não guarda pouco para essas ocasiões não, ele guarda muito mais do que a situação exigiria.”

As consequências da avareza

Para o filósofo, a avareza tem diversos desdobramentos e pode afetar mais pessoas além do avarento.

“O vício pelo acúmulo de dinheiro quando é reconhecido em um pai, leva alguns dos filhos a sentirem que os bens materiais são mais importantes do que eles próprios. Sentimento esse que poderá levar muitos a se tornarem os famosos ‘filhos de pais ricos’, que não se esforçam para conquistar o próprio alimento, pois entendem que já possuem o suficiente. Os filhos da avareza saem por aí gastando e esbanjando o dinheiro do pai com suas frivolidades. Tal comportamento, se torna um grande problema familiar, pode-se imaginar.”

“Essa ação do pai gera uma reação por parte dos filhos que se sentem subjugados e continuam a agir de maneira imatura e irresponsável. Além disso, o filho de sovina poderá vir a ser um sovina também.”

Na sua teoria, o filósofo evoca de certo modo a Lei do Retorno. “A forma como trata os outros lhe trará bênçãos ou martírios. A sua dignidade, o seu caráter e a sua honestidade trarão muito mais riquezas a sua vida do que o dinheiro que você tem no banco. É preciso que o avarento se consciencialize que não serão os bens materiais que o darão projeção na sociedade, ou que os tornarão poderosos e felizes, mas sim a forma como se sentem e como tratam as pessoas que compõem essa sociedade. Não podemos deixar que a necessidade do “ter” se sobreponha à importância do “ser”. Estamos nessa vida para deixar um legado, e o legado não está relacionado ao montante de dinheiro ou às riquezas materiais que adquirimos, mas sim, aos feitos que realizamos no sentido de melhorar a sociedade em que vivemos e a vida humana. Caixão não tem gaveta para guardar dinheiro, e dinheiro não tem alma para ser carregado para o outro lado.”

Dia Mundial sem Tabaco

Dia Mundial do Cérebro: prevenção primordial do AVC

Por | Opinião
AVC, Dr. Fernando Pita

Fernando Pita, Coordenador da Unidade Funcional de Neurologia, Hospital de Cascais Membro da Sociedade Portuguesa do AVC

O AVC mantém-se como principal causa de morte e morbilidade em Portugal, tendo sido, em 2014 responsável por 11% do total dos óbitos. No entanto, nem tudo são más notícias, tendo-se registado uma progressiva diminuição da incidência do AVC, com redução em termos de mortalidade (menor que 46% numa década) e morbilidade. Esses ganhos são seguramente consequentes de medidas de prevenção de âmbito populacional.

Por fator de risco entende-se um comportamento ou doença que aumenta o risco de um acontecimento ou outra doença. Os fatores de risco demonstram uma associação forte (preditiva) e etiologicamente significativa (causal) com a doença que se pretende evitar.

Por promoção de saúde ou prevenção primordial entende-se medidas visando a população em geral. O objetivo é o desenvolvimento de estratégias que previnam o aparecimento de fatores de risco para AVC, atuando antes das doenças (ou fatores de risco) surgirem, evitando, na medida do possível, que estas apareçam. Destinam-se globalmente à população como um todo (…são para a toda a gente).

Por prevenção primária entende-se estratégias direcionadas para indivíduos presentes na população, já com um ou mais fatores de risco para AVC, visando a deteção e tratamento custo-efetivo dessas doenças (hipertensão arterial, tabagismo, diabetes mellitus, dislipidémia, fibrilhação auricular), antes de acontecer o AVC e tentando evitar que ele ocorra.

Ambas as estratégias são complementares e têm como objetivo a prevenção do AVC (tentam evitar a sua ocorrência).

Relativamente ao AVC sabemos que o principal fator de risco é a idade sendo, obviamente, não modificável (é o preço a pagar por nos irmos mantendo vivos).

Por fator de risco modificável entende-se comportamentos ou doenças, para os quais a sua prevenção ou tratamento irá no futuro reduzir o risco de vir a ter um AVC.

Sabemos que:
– Mais de 90% do risco para AVC é atribuível a fatores de risco modificáveis – comportamentais, metabólicos ou ambientais;
– Sendo que 74,2% do risco do AVC é atribuível a fatores de risco comportamentais, nomeadamente tabagismo, dieta inadequada e inatividade física. Sabemos ainda que escolhas de vida saudáveis permitem uma redução de risco significativa.

Quais são então essas medidas?

Comportamentais – educação para a saúde, escolhendo um estilo de vida saudável:
– Mantendo atividade física regular;
– Valorizando uma dieta saudável (como a dieta mediterrânea), usando produtos frescos, de época, produzidos localmente (diversidade) equilibrando o consumo calórico com a atividade física (frugalidade), parando a epidemia do sal e do açúcar;
– Mantendo um peso adequado, controlando a obesidade;

– Prevenindo o tabagismo e intervindo na cessação tabágica.
Métricas
– Controlar tensão arterial;
– Controlar níveis de colesterol;
– Controlar valores de glicémia.

Assim, mediante educação populacional para a saúde (estilo de vida saudável), com divulgação, prevenção, reconhecimento, deteção e intervenção terapêutica precoce nos principais fatores de risco vascular, podemos, a longo prazo, manter a progressiva redução da incidência e prevalência do AVC em Portugal e evitar as suas trágicas consequências em termos de mortalidade e morbilidade (dependência).

Dia Mundial sem Tabaco

Tabaco e acidente vascular cerebral: uma associação perigosa

Por | Opinião
Dia Mundial sem Tabaco

Sofia Ravara, médica pneumologista, membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral

O fumo de tabaco tem efeitos agressivos e rápidos sobre o sistema cardiocirculatório, tornando o sangue mais espesso, ativando a agregação das plaquetas sanguíneas e favorecendo a formação de coágulos, estreitando as artérias e reduzindo o transporte do oxigénio do sangue para os tecidos.

Os fumadores são também mais propensos a ter hipertensão arterial e colesterol elevado. Deste modo, fumar duplica o risco de ter um AVC, mesmo fumando poucos cigarros. Para além disso, a exposição dos não fumadores ao fumo de tabaco também causa AVC, aumentando em 30% o risco. 

Se é fumador e já sofreu um AVC, ou tem outros fatores de risco para AVC, com hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, arritmia ou outra doença cardíaca, ou se é mulher e faz anticonceção hormonal, deixar de fumar é muito importante: o risco de AVC ou de AVC recorrente é demasiado grande se continuar a fumar.

Os cigarros eletrónicos e o tabaco aquecido têm riscos para a saúde, o seu uso pode aumentar o risco de AVC?

Existe evidência de que os aerossóis libertados pelo aquecimento dos cigarros eletrónicos e do tabaco aquecido contêm substâncias tóxicas, irritantes e potencialmente carcinógenicas para a saúde humana.

Diversos estudos científicos já demonstraram efeitos prejudiciais para a saúde, a curto e médio prazo, afetando o sistema respiratório, cardiovascular, imunológico e o sistema nervoso central. 

O maior estudo epidemiológico, que avaliou a associação entre usar cigarros eletrónicos, AVC e doença cardíaca, mostrou um risco aumentado em 71% de ocorrência de AVC e 59% de sofrer um ataque cardíaco ou angina de peito nos utilizadores de cigarros eletrónicos.

Este risco poderá ser ainda mais alto para aqueles que usam simultaneamente cigarros tradicionais e eletrónicos ou tabaco aquecido. Por outro lado, um estudo experimental em animais mostrou que a exposição ao tabaco aquecido afeta o sistema cardiocirculatório, com potencial para causar doença cardiovascular.

Porque é tão importante deixar de fumar?

Se é fumador, a melhor medida para ter saúde e qualidade de vida é deixar de fumar.

A boa notícia é que parar de fumar traz benefícios rápidos para a sua saúde, melhorando a oxigenação e circulação logo nos primeiros dias e reduzindo o risco de AVC  ao longo do tempo: um ano após parar de fumar, o risco de AVC diminui para metade e, após 15 anos, iguala o risco do não fumador.

Quanto mais tempo estiver sem fumar, mais ganha em saúde e qualidade de vida, sente-se menos cansado, respira melhor e tem mais energia. Pense ainda na poupança de dinheiro. Sabe que os fumadores gastam em média 15% do seu ordenado em tabaco? Ao fim dum ano, pode poupar o equivalente a 1,5 até dois ordenados.

O que pode fazer para deixar de fumar?

Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. A melhor maneira de conseguir parar de fumar é com tratamento especializado. Peça ajuda. Fale com o seu médico assistente, ou ligue para a linha de Saúde SNS 24 (808 24 24 24) para agendar uma consulta de cessação tabágica no centro de saúde ou hospital perto da sua casa.

Pode também consultar o portal da Direcção Geral da Saúde, que indica os locais de consulta, horário de funcionamento e telefone. 

Sofia Ravara, médica pneumologista. Membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral. Coordenadora da Unidade de Cessação Tabágica do Centro Hospitalar da Cova da Beira. Professora de Medicina Preventiva, Universidade da Beira Interior. 

Hipertensão arterial: o que todos devemos saber

Por | Opinião
hipertensão arterial

Fernando Pinto

As Doenças Cérebro-Cardiovasculares (DCCV), das quais se destacam o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o Enfarte Agudo do Miocárdio (EAM), são a principal causa de morte e de incapacidade em todo o mundo, particularmente nos países ocidentais. Em Portugal, as DCCV são responsáveis por 1/3 de todas as mortes (aproximadamente 30.000/ano), estimando-se que possam reduzir em 12-14 anos a esperança de vida; para além disso, as DCCV são a principal causa de incapacidade e são responsáveis por um número muito elevado de internamentos hospitalares.

A Hipertensão Arterial (HTA)– isto é pressão arterial maior ou igual a 140/90 mmHg – é o principal fator de risco para o AVC, (que é a principal causa de morte em Portugal: cerca de 2/3 de todas as mortes por DCCV) e um dos mais importantes fatores de risco para EAM (bem como para insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doença arterial periférica, etc.). 

A deteção precoce e o tratamento adequado da HTA podem, comprovadamente, reduzir significativamente o risco de incidência de DCCV e, consequentemente, reduzir os trágicos números de incapacidade e mortalidade.

Apesar da melhoria significativa verificada nos últimos 10-15 anos, cerca de 42% dos adultos em Portugal têm HTA, mas quase 1/4 desconhece a doença e cerca de 1/4 dos hipertensos não estão a tomar medicação, contribuindo para que menos de metade dos doentes com HTA tenha a pressão arterial efetivamente controlada.

Silenciosa, mas perigosa

Habitualmente, a HTA não provoca sintomas (ou provoca sintomas inespecíficos que podem estar presentes em muitas outras doenças como dores de cabeça, tonturas, cansaço, etc). Assim sendo, a única maneira de detetar a HTA é verificando valores tensionais elevados, através da medição da pressão arterial, pelo que a medição regular da pressão arterial deve ser um hábito a seguir.

Todos os adultos devem fazê-lo pelo menos uma vez por ano – seja em rastreios como os realizados no âmbito do Dia Mundial da HTA, seja na consulta médica e/ou de enfermagem, na farmácia, ou mesmo em casa (mediante o uso de um aparelho adequado).

Os fumadores, obesos, as pessoas com diabetes ou com história de doença cardiovascular na família têm maior risco de desenvolver HTA, pelo que devem ter particular cuidado em medir regularmente a sua pressão arterial A idade também é outro fator a ter em atenção: em geral, quanto mais idosa for a pessoa, maior a probabilidade de desenvolver HTA.

A melhor forma de prevenir a hipertensão

A adoção de um estilo de vida saudável constitui a melhor forma de prevenir ou controlar a HTA, proporcionando, geralmente, uma descida significativa da pressão arterial: uma alimentação equilibrada – nomeadamente com redução no consumo de sal e de álcool e aumento de vegetais e fruta – acompanhada de exercício físico regular são medidas recomendadas, bem como a perda de peso (no caso dos doentes com excesso de peso ou obesidade) e a cessação tabágica total.

Quando estas medidas são insuficientes, poderá ser necessário recorrer a medicamentos anti-hipertensores (mantendo e/ou reforçando o estilo de vida saudável).

No entanto, há que lembrar que os fármacos também não curam a hipertensão; só a controlam, por isso, uma vez iniciado, o tratamento medicamentoso deverá, em princípio, ser mantido prolongadamente (em princípio por toda a vida, salvo indicação em contrário do médico).

Hoje em dia, existem muitos fármacos eficazes na redução da pressão arterial, competindo ao médico assistente decidir qual é (ou quais são) o(s) mais apropriado(s) para cada pessoa. Quando criteriosamente utilizada, a terapêutica permite controlar a HTA na esmagadora maioria dos casos.

Fernando Pinto, membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão

Mulheres são as que mais sofrem com incontinência urinária

Por | Opinião
Mário Rodrigues, especialista em incontinência urinária

Mário Rodrigues, médico urologista no Hospital da Cruz Vermelha

Se olharmos para números, e ao definir incontinência urinária como pelo menos um episódio de perda de urina nos últimos 12 meses, ela ocorre em até 69% das mulheres e até 39% dos homens. Definida como uma qualquer perda involuntária de urina pela uretra, é uma condição que pode diminuir muito significativamente a qualidade de vida caso não tenha o diagnóstico e tratamento adequado.

É na mulher que é mais pedominante, tendo como principais fatores que não só a podem originar, como agravar, a gravidez, parto (por via) vaginal, obesidade, falta de estrógenos, diabetes mellitus, perda de capacidade cognitiva e demência. Pelo contrário, tabaco, dieta, depressão, infeções urinárias e exercício físico não são fatores de risco.

A incontinência urinária de esforço ou incontinência urinária por urgência miccional são, na mulher, onde é mais predominante esta patologia, os dois tipos mais frequentes, que podem ocorrer de forma isolada ou em simultâneo.

A incontinência urinária de esforço é provocada por tosse, espirros, esforços, levantamentos de peso, enquanto na incontinência por urgência miccional existe vontade súbita de urinar mas não há tempo para chegar ao local apropriado.

Problema tem tratamento

Apesar de existirem vários tratamentos de incontinência urinária, o doente vive, a maior parte do tempo, envergonhado e com medo de ter perdas de urina e que estas sejam notadas. Assim, evita sair de casa ou realizar atividades que podem desencadear as perdas, evita falar com a família e amigos sobre o problema e até esconde o problema do seu médico de família.

Atitudes erradas, até porque que os tratamentos atuais permitem resolver o problema, tais como fisioterapia (indicada para casos de incontinência urinária de esforço ligera) ou exercícios de kegel, exercícios simples, realizados sem assistência médica, que consistem em contrações dos músculos do pavimento pélvico.

Os cones vaginais, onde se usam halteres para a musculação convencional, a reabilitação perineal ou reeducação pélvica, que consiste num programa de exercícios complementados com a utilização de dispositivos especificamente concebidos para o efeito são outras alternativas.

O bio-feedback, técnica que demonstra a utilização da contração dos grupos musculares corretos e ideais para o controle e melhoria das queixas de incontinência urinária, a eletroestimulação, que promove o fortalecimento da musculatura do pavimento pélvico através de contrações induzidas eletricamente através de elétrodos colocados na pele da região do períneo e, por último, existe sempre a opção de recorrer a medicamentos.

Mas mesmo antes do tratamento aconselha-se a que se façam exames complementares de diagnóstico mais relevantes, tais como o estudo urodinâmico, um estudo funcional do aparelho urinário baixo, que na mulher consiste na bexiga, na uretra e nas suas estruturas envolventes.

Tem particular importância na determinação da causa da incontinência urinária e na definição do tipo de terapêutica e expectativas com o tratamento. É um exame invasivo que demora cerca de 30 a 60 minutos.

A Citoscopoia é um exame que permite a observação do interior da uretra e da bexiga através da introdução de um aparelho endoscópico pela uretra. Está indicado na presença de hematúria (presença de sangue na urina, micro ou macroscópica), sintomas relacionados com o enchimento da bexiga, ou outra patologia associada.

Mário Rodrigues, médico urologista no Hospital da Cruz Vermelha
Dia Mundial sem Tabaco

Ecocardiografia de esforço na criança, um exame de futuro

Por | Opinião
Carlos Cotrim, Hospital da Cruz Vermelha

Carlos Cotrim, Médico Cardiologista no Hospital da Cruz Vermelha, especialista em Ecocardiografia de Sobrecarga

O Hospital da Cruz Vermelha desenvolveu, nos últimos quatro anos, no seu Laboratório de Ecocardiografia, uma atividade crescente na área da ecocardiografia de sobrecarga com particular relevo para a ecocardiografia de esforço em tapete rolante.

A utilização de ecocardiografia de sobrecarga no adulto é atualmente recomendada como exame de primeira linha no estudo do doente cardíaco pela Sociedade Europeia de Cardiologia.

O uso da ecocardiografia de esforço na criança está menos disseminado e não faz ainda parte do algoritmo diagnóstico da avaliação da criança com sintomas de dor torácica ou lipotimias relacionadas com o esforço e de causa potencialmente cardíaca.

No entanto, a nossa experiência demonstra que, nos últimos anos, a ecocardiografia de esforço deverá, no futuro, passar a ser um exame de primeira linha neste contexto clínico. Esta tese será desenvolvida e apresentada na primeira reunião do Heart Center, que se irá realizar no dia 30 de março.

Em algumas destas situações clínicas, os achados observados no ecocardiograma em repouso não traduzem a resposta que ocorre no coração, em resposta ao esforço que é o causador dos sintomas.

Salientamos de entre as múltiplas aplicações(1) o seu uso na deteção de gradientes intraventriculares durante o esforço associados ou não a SAM da válvula mitral, como causa de sintomas relacionados com o esforço.

Carlos Cotrim, Médico Cardiologista no Hospital da Cruz Vermelha

(1)Cotrim C 1 , João I, Fazendas P, Almeida AR, Lopes L, Stuart B, Cruz I, Caldeira D, Loureiro MJ, Morgado G, Pereira H. Clinical applications of exercise stress echocardiography in the treadmill with upright evaluation during and after exercise. Cardiovasc Ultrasound. 2013 Jul 22;11:26. doi: 10.1186/1476-7120-11-26.
Dia Mundial sem Tabaco

Opinião: “Era uma vez…a comunicação no futuro”

Por | Opinião

Como é que mudanças a que assistimos hoje vão ter impacto, a médio e a longo prazo, nos modelos económicos, na sustentabilidade ambiental ou na saúde e, numa análise mais micro, nas interações comunicacionais?

 

 

Nada é mais entusiasmante do que tentar prever e discutir o futuro. O que será do mundo daqui a 10, 20 ou mesmo 100 anos? O mundo está sempre a mudar mas hoje vivemos tempos e dinâmicas geográficas novas que nos deverão fazer refletir e agir. A tecnologia fez com que passássemos de indivíduos passivos a manifestantes, sempre em busca da última indignação digital. E a uma velocidade supersónica!

Nunca, como hoje, foi tão complexa a relação das empresas com os seus públicos-alvo. De uma comunicação unidirecional que constituía o processo relacional no século passado – uns falavam e os outros ouviam – passámos para uma fórmula relacional bidirecional, ampliada pela conjugação de uma realidade multicanal, com a existência de um consumidor mais atento e interventivo que descobriu o seu poder de influência e vive hoje inebriado por ele. E a área da saúde não é imune a esta dinâmica.

As pessoas sempre gostaram de ouvir histórias e elas fazem parte do nosso quotidiano desde que nascemos. Todos, de alguma forma, prestam atenção a uma boa narrativa quando alguém diz as palavras mágicas “Era uma vez…”. Seja uma criança ou um adulto, as histórias sempre tiveram presentes ao longo da nossa vida. São elas que nos fazem sonhar, emocionar e até enfatizar determinados valores.

Olhemos para o exemplo da comunicação em saúde. Usualmente temos o diagnóstico da doença (o vilão), a descoberta do tratamento certo (o bom da história), a luta contra a mesma e nas melhores narrativas, a superação (clímax).

Contar histórias ainda hoje é a técnica mais eficaz de transmitir conhecimento e reter a atenção do público. A diferença dos tempos modernos está na multiplicidade de canais para o fazer sem esquecer que a tecnologia nunca poderá sobrepor-se ao factor emocional da narrativa. Porque, independentemente de tudo, seja em 2030 ou 2050 somos e seremos humanos e por que mais que o mundo se transforme este facto manter-se- á como uma verdade inexorável.

Jorge Azevedo, Managing Partner da Guess What Comunicação e Relações Públicas