doentes com cancro querem ser ouvidos

Relatório internacional sobre cancro confirma: doentes são muitas vezes esquecidos

Por | Cancro

“Fazer a coisa certa pelos doentes.” Este é o pedido feito às autoridades de saúde, governos e tomadores de decisão pela iniciativa internacional de cancro All.Can, que divulgou um relatório onde alerta para a necessidade de planos e políticas de tratamento para o cancro que tenham em conta os doentes em todos os aspetos do tratamento.

“Os doentes são muitas vezes esquecidos quando se trata de planear cuidados para o cancro”, refere Alex Filicevas, responsável pelos assuntos da União Europeia na Coligação Europeia de Doentes com Cancro e membro do comité de direção da All.Can international.

“Com a prevalência, a complexidade e os custos do cancro a aumentar em todo o mundo, é imperativo ouvir o que os doentes dizem, que possa melhorar a sua experiência de atendimento. Ignorar os resultados deste relatório seria uma oportunidade perdida de fazer a coisa certa pelos doentes e fazer mudanças que poderiam fazer uma diferença real.”

Quase metade dos doentes não se sente envolvido na decisão de tratamento

O documento tem por base os resultados de uma sondagem internacional, feita junto de cerca de 4.000 pessoas afetadas por diferentes tipos de cancro em 10 países, na Europa e fora dela, que revela que um quarto dos entrevistados (26%) afirma que o seu diagnóstico inicial foi a parte mais ineficiente da sua jornada.

Quase metade (47%) dos entrevistados não se sentiu suficientemente envolvido na decisão de qual a melhor opção de tratamento, enquanto 39% dizem nunca ter recebido – ou apenas algumas vezes – apoio suficiente para lidar com quaisquer sintomas e efeitos secundários.

Sete em cada dez entrevistados (69%) confirmam que precisavam de apoio psicológico durante ou após o tratamento contra o cancro, com apenas um terço (34%) a referir que “não estava disponível” para o receber.

Ao todo, 24% afirmaram não ter acesso ao apoio de profissionais de saúde como nutricionistas e fisioterapeutas, aos quais se juntam 26% que relatam uma perda de rendimento como resultado do seu tratamento e 36% que abordam os custos de viagem como uma implicação financeira dos seus cuidados contra o cancro.

Resultados que os autores do trabalho consideram importante ter em conta, no sentido de se fazerem mudanças capazes de operar uma diferença real nos resultados e experiências dos doentes.

Rapidez no diagnóstico

As evidências existentes confirmam que um diagnóstico mais rápido pode melhorar a sobrevida do doente e está associado à redução dos custos de tratamento para muitos tipos de cancro.

A tomada de decisão partilhada está associada a melhores resultados, referindo-se ainda a necessidade de apoio psicológico adequado.

Calcula-se que a produtividade perdida devido a cancro chegue aos 52 mil milhões de euros por ano na União Europeia, na sequência de mortes prematuras e dias de trabalho perdidos, pelo que políticas sociais protetoras que ajudem as pessoas a regressar ao trabalho ou as protejam da insegurança financeira podem ter um impacto enorme na redução desse ónus.

“É tão importante que, como médicos, tenhamos a capacidade de ouvir o que os doentes nos estão a dizer nesta sondagem”, refere Christobel Saunders, especialista internacional da All.Can, cirurgião de cancro da mama e professor de oncologia cirúrgica da Universidade da Austrália Ocidental.

“Cada uma das áreas identificadas representa uma oportunidade para melhorar o tratamento do cancro e proporcionar um atendimento verdadeiramente orientado para o doente.”

cancro da bexiga

Vírus da constipação consegue ‘matar’ cancro da bexiga

Por | Cancro

Uma constipação para vencer o cancro? Não é bem assim, mas um grupo de investigadores britânicos descobriu que uma estirpe do vírus da constipação comum ataca, infeta e destrói as células cancerígenas em doentes com cancro da bexiga.

Publicado na revista Clinical Cancer Research, o estudo, levado a cabo por especialistas da Universidade de Surrey e do County Hospital Real Surrey, relata que, após o tratamento com o vírus, não foram encontrados vestígios do tumor num doente tratado desta forma. 

O trabalho avaliou a segurança e tolerabilidade da exposição ao vírus Coxsackievirus A21 (CVA21) em 15 pessoas com cancro da bexiga invasivo muscular, presente no tecido da superfície interna da bexiga.

Atualmente, a forma de tratamento para este tumor, que tem uma elevada taxa de recorrência e de progressão, inclui um procedimento invasivo e a imunoterapia, com efeitos secundários graves verificados num terço dos doentes.

Potencial tratamento para o cancro da bexiga

No estudo, aos 15 doentes foi administrado o CVA21, uma semana antes de uma cirurgia programada para remover o tumor. O exame de amostras ao tecido após a cirurgia revelou que o vírus era altamente seletivo, tendo como alvo apenas as células cancerígenas do órgão e deixando todas as outras intactas.

Ou seja, o vírus infetou as células cancerígenas e multiplicou-se, fazendo com que estas morressem.

Aquilo que se sabe é que, no caso do cancro da bexiga, não há células do sistema imunitário na zona, o que impede que este elimine o cancro à medida que cresce. Com a administração do vírus, parece que o tumor fica inflamado, o que faz com que as células imunitárias ‘corram’ para aquele ambiente, atacando e matando as células cancerígenas.

Hardev Pandha, investigador principal do estudo e professor de oncologia médica na Universidade de Surrey, explica que “o cancro da bexiga não muscular invasivo é uma doença altamente prevalente, que exige um plano de tratamento invasivo e muitas vezes prolongado. O tratamento atual é ineficaz e tóxico para um grupo de doentes e há  necessidade urgente de novos tratamentos”.

Este pode bem ser  papel do CVA21 que, acredita o especialista, “pode ajudar a revolucionar o tratamento para este tipo de cancro, reduzindo a carga tumoral e aumentando a morte de células cancerígenas em todos os doentes e eliminou todos os vestígios da doença num doente após uma semana de tratamento, o que demonstra a sua potencial eficácia”.

“De forma notável, não foi observado nenhum efeito secundário em nenhum dos doentes”, acrescenta. 

exercício físico em doentes com cancro

Exercício físico ajuda doentes com cancro da mama a recuperar

Por | Cancro

São vários os estudos que indicam que a prática de exercício físico adaptado por parte das doentes com cancro da mama ajuda em vários aspetos da sua recuperação, contribuindo para uma melhoria no tratamento. É para o confirmar que um investigador nacional está a realizar um estudo, com doentes do Serviço de Oncologia do Hospital de Guimarães.

Tiago Moreira está a realizar doutoramento em Ciências do Desporto na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. O seu projeto, ‘Quality Onco Life’, inclui aulas de exercício físico adequado às doentes, para verificar se o exercício atua como potenciador da função aeróbia/muscular e da qualidade de vida das doentes.

“A nossa recolha de dados já está a finalizar e já temos resultados com consistência. Apesar de ainda nos faltarem os resultados de alguns exames médicos, podemos já destacar que observamos a manutenção da mobilidade e funcionalidade do ombro em mulheres mastectomizadas, o aumento da funcionalidade física e a menor sensação de fadiga física e psicológica, quando comparadas ao grupo controlo”, refere Tiago Moreira.

Os benefícios do exercício físico

O projeto tem vindo a superar as expectativas e diferencia-se pela prática de exercício a baixo custo e com recurso a poucos materiais, de forma a que este possa ser implementado em meio hospitalar sem que os mesmos tenham que fazer grandes investimentos.

No caso, está a ser testado um tipo de treino que combina o treino aeróbio e o treino de força em isometria.

Alexandra Teixeira, oncologista do Hospital de Guimarães que está a acompanhar este estudo ao nível clínico, refere que “durante muito tempo, e de forma empírica, era estimulado repouso aos doentes oncológicos, dada a sensação de fadiga e cansaço fácil, decorrentes da doença ou dos tratamentos realizados, como a quimioterapia”.

No entanto, “mais recentemente foi demonstrado que a prática de exercício físico tem um impacto positivo a nível cardiovascular, reduzindo possível toxicidade decorrente dos tratamentos, bem como pela melhoria da qualidade de vida durante e após os mesmos. De uma maneira geral, o exercício físico adaptado à condição clínica de cada doente proporciona um bem-estar físico e psíquico, o que permite uma maior tolerância aos tratamentos e prognóstico melhorado”.

protetores solares

Casos de cancro de pele em Portugal custaram 20 milhões em cinco anos

Por | Cancro

Em cinco anos, contaram-se cerca de 90 mil episódios de cancro da pele nos hospitais públicos portugueses, 16 mil dos quais melanomas e 72 mil não melanomas. Os dados fazem parte de um estudo de investigadores do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, publicado na revista Cancer Epidemiology, que deixa o alerta: é preciso maior aposta na prevenção do cancro da pele em Portugal.

A avaliação feita aos casos de internamentos e consultas em ambulatório com diagnóstico de cancro de pele nas instituições do Serviço Nacional de Saúde permite fazer um desenho dos doentes afetados. Por exemplo, que aqueles com melanoma apresentam uma idade mediana mais baixa (66 anos) e mais metástases (14%), sendo o tronco a zona do corpo mais afetada (32%).

Para os diagnosticados com cancro da pele não melanoma, a idade é mais avançada (76 anos) e a mortalidade associada mais baixa, embora seja maior o tempo de internamento (nove dias em média, contra 7,3). Quanto aos custos, são também mais elevados: 2.563 euros contra 2.417 euros por cada hospitalização.

Cancro da pele não melanoma com mais dias de internamento

Contas feitas às hospitalizações, o grupo de investigadores verificou que o melanoma foi responsável por mais de 35 mil dias de internamento, com o cancro da pele não melanoma a totalizar mais de 73 mil dias.

Por ano, o melanoma custa qualquer coisa como 3,8 milhões de euros, aos quais se juntam 16,2 milhões com os doentes que têm não melanoma, que custa cerca de quatro vezes mais.

Citada pelo CINTESIS, Ana Filipa Duarte, primeira autora do estudo, considera que “estes números estão provavelmente subestimados, uma vez que não são contabilizados os episódios ocorridos em instituições de saúde privadas”.

“Sabe-se que, com listas de espera que ultrapassam um ano no Serviço Nacional de Saúde, os doentes com recursos financeiros ou com seguro de saúde procuram cada vez mais o setor privado. A isto acresce que a maioria dos cancros não melanoma não são tumores de risco e podem ser tratados eficazmente fora do setor público”, acrescenta.

Aposta na prevenção é essencial

Tendo em conta o envelhecimento da população e os comportamentos de risco conhecidos, os casos de cancro da pele tendem a aumentar, o mesmo acontecendo com os custos.

É, por isso mesmo, essencial “apostar em estratégias de prevenção primária do cancro da pele e numa deteção precoce dos casos de cancro”, no sentido de reduzir a mortalidade e os custos que a doença acarreta.

Campanhas que não devem “subestimar a importância do cancro da pele não melanoma”, quer em termos do seu impacto no sistema de saúde, quer dos seus custos, muito superiores em média aos do melanoma, quer da qualidade de vida dos doentes.

ensaios clínicos em oncologia pediátrica

Faltam recursos humanos e financeiros para ensaios clínicos em oncologia pediátrica

Por | Cancro

São poucos, ou melhor, “são muito poucos”. Cristina Potier, diretora-geral da Fundação Rui Osório de Castro (FROC), não tem dúvidas que são precisos mais ensaios clínicos em oncologia pediátrica. A propósito do Dia Internacional dos Ensaios Clínicos, que se assinala a 20 de maio, confirma que “entre as questões que impedem a inclusão de crianças com doença oncológica em ensaios clínicos estão a escassez de recursos humanos para coordenar, monitorizar e reportar aos grupos internacionais que coordenam estes estudos e, também, a falta de recursos financeiros”.

De acordo com a representante da FROC, “os centros de referência de oncologia pediátrica encontram-se muito orientados para um modelo exclusivamente assistencial, o que faz com que a participação de Portugal nestes grupos de trabalho internacionais exista apenas sustentado na boa vontade dos médicos”.

Apela, por isso, à existência de uma estrutura capaz de coordenar a participação nestes ensaios clínicos, considerada “uma mais-valia para se conseguir integrar mais crianças portuguesas ao abrigo de protocolos de ensaios clínicos”.

Crianças tratadas com medicamentos testados em adultos

A diretora-geral da FROC salienta também a necessidade de consciencializar a população no geral que “as crianças com doença oncológica são tratadas com medicamentos que, na grande maioria, não foram testados para elas, mas sim para adultos”.

As características e as reações de um cancro numa criança podem ser muito diferentes do cancro num adulto. “É por isso fundamental que exista investigação clínica e ensaios clínicos específicos para a oncologia pediátrica.”

Cristina Potier, considera ainda que Portugal deve “contribuir para a evolução do conhecimento da doença e da melhoria contínua nos cuidados prestados, com a vantagem de assim as nossas crianças terem mais cedo acesso a terapias inovadoras”.

E explica que “os ensaios clínicos realizados nas crianças de que falamos são de fase III ou IV. O que é que isto quer dizer… que o risco não é grande, os medicamentos utilizados já têm autorização de introdução no mercado. Apenas se quer comprovar se um medicamento ou protocolo é melhor do que já é seguido no tratamento de um certo tipo de doença oncológica nas criança”.

Vantagens dos ensaios feitos com crianças

No que diz respeito ao investimento da indústria farmacêutica, a aposta tem sido no adulto. “A investigação pediátrica é normalmente realizada por iniciativa dos investigadores, através de estudos chamados académicos. Nos ensaios clínicos pediátricos podem estar a testar-se protocolos de tratamento e caso não seja ‘melhor’ do que o normalmente seguido, volta-se ao protocolo normalmente utilizado para aquela patologia e estadiamento da doença”.

Aqui, “a vantagem é que a observação não é feita apenas numa criança. Existe um grupo de crianças que participa, pelo que existe uma grande monitorização e controlo ao tratamento seguido. Qualquer sinal menos positivo é logo transmitido a todos os participantes. Tendo em conta o número reduzido de casos de cada tipo de cancro pediátrico, estes ensaios são normalmente organizados por grupos de trabalho internacionais, normalmente europeus, para que a amostra seja significativa”.

Tendo em conta a mais recente posição da Sociedade Europeia de Oncologia Pediátrica, que pretende alterar a idade mínima de acesso a ensaios clínicos para 12 anos, a diretora-geral da FROC considera que a proposta “tem prós e contras”.

Uma das vantagens é que “permite o acesso precoce a tratamentos inovadores e muito se tem evoluído no tratamento e na sobrevivência de alguns tipos de cancro nos adultos isto graças a terapias inovadoras. Terapias essas a que as crianças com a atual regra dos 18 anos ainda não têm acesso”.

O contra é “o risco inerente à participação num ensaio clínico, neste caso com medicamentos que podem ainda não ter autorização para serem introduzidos no mercado, isto é nunca ‘testados’. Pessoalmente, acredito, que cada caso é um caso e que a escolha deverá ser dada à família e ao médico e apenas seguida não havendo outra hipótese terapêutica satisfatória. E acho que esse vai ser o caminho”.

tratamento inovador para cancro no IPO do Porto

IPO do Porto faz tratamento inovador para cancro do sangue

Por | Cancro

Foi uma estreia e não uma estreia qualquer. O tratamento inovador, realizado esta semana no IPO do Porto, pode mesmo dar esperanças a doentes com cancro do sangue, em que se incluem as leucemias e os linfomas, sem alternativa de tratamento.

Trata-se de uma intervenção com recurso à terapia genética de células CAR T, uma resposta inovadora na área do cancro do sangue, individualizada, que registou taxas de sucesso elevadas, nomeadamente em doentes em que o transplante não foi bem-sucedido.

Um tratamento que surge no âmbito de um programa de acesso precoce, aprovado pelo Infarmed, e vai abranger até oito doentes.

Para além do IPO do Porto, também o Instituto Português de Oncologia de Lisboa está credenciado para a realização desta terapia pioneira, “constituindo este mais um sinal de que o Serviço Nacional de Saúde está a garantir o acesso às tecnologias da saúde mais inovadoras”, lê-se na informação divulgada para o efeito.

A terapia consiste na retirada ao doente de linfócitos T, ou seja, as células que defendem o organismo de agentes desconhecidos, como as células cancerosas. Células que são depois modificadas em laboratório, para que sejam mais expeditas no combate à doença.

Nesta fase, estão em avaliação dois tratamentos com recurso a esta tecnologia, estando o custo da terapêutica a rondar os 350 mil euros por doente, embora ainda esteja em curso o processo de avaliação farmacoeconómica.

Com a submissão do primeiro processo de avaliação para tratamento com células CAR T em Portugal, foi criado um grupo de trabalho constituído pelo Infarmed, Direção-Geral da Saúde e a Coordenação Nacional das Doenças Oncológicas e Registo Oncológico Nacional, que definiu os critérios clínicos necessários e aprovou os centros de tratamentos com esta tecnologia, ou seja, o IPO de Lisboa e o do Porto.

mais procura de quimioterapia

Estudo prevê aumento de mais de 50% na necessidade de quimioterapia

Por | Cancro

Até 2040, o número de pessoas que vai precisar de quimioterapia deve passar de 9,8 milhões para 15 milhões a nível global, uma subida de 53%. As contas são feitas num estudo publicado no The Lancet Oncology, que é o primeiro a estimar estas necessidades nacional, regional e globalmente, isto no caso da aplicação completa de diretrizes baseadas em evidências. 

As estimativas referem que dois terços (67%) destes doentes residem em países de rendimentos mais baixos ou médios. Isto porque se espera que o número de casos de cancro aumente sobretudo nestes países.

Sendo um componente crucial do tratamento, a quimioterapia irá provavelmente beneficiar uma grande percentagem destes casos.

Número de casos de cancro a aumentar

Para dar resposta ao aumento da procura, o estudo estima ainda o número de médicos necessários, no mesmo período, para fornecer quimioterapia a todos os doentes que dela necessitem, reforçando a necessidade de um aumento de aproximadamente 65.000 especialistas em 2018 para 100.000 em 2040.

“A crescente carga global de cancro é, sem dúvida, uma das principais crises de saúde de hoje. São urgentemente necessárias estratégias para equipar a força de trabalho, tornando possível o tratamento seguro dos doentes atuais e dos futuros”, afirma Brooke Wilson, da Universidade de New South Wales, primeira autora do estudo.

“Os países e as instituições devem usar os nossos dados para estimar as suas necessidades futuras de força de trabalho e de quimioterapia e planear estratégias nacionais, regionais e globais para garantir que todos aqueles que precisam vão ter acesso ao tratamento de quimioterapia.”

Os autores usaram as diretrizes de melhores práticas, características do doente e dados do estadio do cancro referentes aos EUA e Austrália para calcular a proporção de casos de cancro recém-diagnosticados que poderiam beneficiar da quimioterapia.

Taxas que forma depois aplicadas às estimativas internacionais de incidência global de cancro adulto e pediátrico entre 2018 e 2040 (GLOBOCAN), para estimar a procura global por quimioterapia.

Ou seja, estas estimativas pressupõem que a prestação de assistência oncológica, que se verifica nos países com mais rendimentos, vai ser uma meta alcançável para todos os países. 

Pulmão, mama e cólon a liderar

Globalmente, 58% dos novos casos de cancro exigiram quimioterapia em 2018. Em 2040, os autores do estudo prevêem que o número de novos casos da doença chegue aos 26 milhões, dos quais 53%, mais 5,2 milhões, venham a precisar de quimioterapia.

Destes, mais de um terço deverá viver no leste da Ásia (35%), 12% na região centro-sul da Ásia, 10% na América do Norte, 7% no sudeste asiático, 6% na América do Sul e 5% na Europa Ocidental.

Quanto aos tumores malignos mais comuns a precisarem desta forma de tratamento, os investigadores identificam o do pulmão (16,4%), da mama (12,7%) e colorretal (11,1%), com os maiores aumentos absolutos de novos casos a ocorrerem nestes mesmos três tipos de cancro.

cancro do ovário e mutações genéticas

Quatro em cada dez mulheres com mutações genéticas vão desenvolver cancro do ovário

Por | Cancro

Em 2018 surgiram, em Portugal, 574 novos casos de cancro do ovário, doença que, no mesmo ano, matou 412 mulheres. E apesar de apenas 1,3% das mulheres na população em geral virem a desenvolver cancro do ovário ao longo das suas vidas, a predisposição genética é um importante fator de risco para o desenvolvimento deste tumor. É para ele que se alerta, em vésperas do Dia Mundial do Cancro do Ovário, que se assinala no próximo dia 8.

De facto, cerca de 44% das portadoras de mutações patogénicas no gene BRCA1 e cerca de 17% das portadoras de mutações patogénicas no gene BRCA2 vão desenvolver cancro do ovário até aos 80 anos.

Gabriela Sousa, médica oncologista, confirma que “cerca de 85% do cancro do ovário é esporádico e cerca de 15% é hereditário, pelo que é importante que as mulheres estejam atentas à sua história familiar porque este é evitável”.

Mutações transmitidas de pais para filhos

As alterações dos genes BRCA não estão apenas associadas a cancro da mama ou do ovário, podendo também associar-se a cancro do pâncreas, próstata, entre outros.

Gabriela Sousa explica que “estes são genes reparadores celulares, ou seja, ao funcionarem corretamente produzem proteínas que reparam pequenos erros no ADN e evitam o desenvolvimento dos tumores. Contudo, quando ocorre uma alteração, uma mutação nestes genes, este ‘trabalho’ fica comprometido, o que pode levar ao aparecimento do tumor”.

Segundo a médica, as mutações são transmitidas às gerações seguintes num padrão de hereditariedade. Ou seja, “estas alterações não saltam gerações. Se o pai ou a mãe tem a mutação, o(a) filho(a) tem uma probabilidade de 50% de a ter herdado”.

É por isso que é importante a realização do teste genético. “O teste genético é recomendado a alguns doentes oncológicos. No caso do cancro epitelial do ovário, todas as mulheres devem ser testadas segundo as recomendações nacionais e internacionais, porque esta informação poderá ter implicações no seu tratamento. As pessoas com um histórico familiar de cancro, mediante aconselhamento genético, poderão também ser referenciadas para estudo genético.”

Cirurgias para prevenir

A confirmação da presença de uma mutação patogénica germinativa (no gene BRCA1 ou BRCA2) é importante para o doente, porque poderá fazer alterar as opções terapêuticas, mas é sobretudo importante para os familiares saudáveis.

“Se identificarmos portadores saudáveis com estas alteração podemos atuar antes da doença surgir, através de cirurgias redutoras de risco, como a mastectomia, que previne o cancro da mama, ou a cirurgia de remoção dos ovários, que previne o cancro do ovário, mas também reduz o risco de cancro da mama.”

De acordo com a médica, “também se pode optar por uma vigilância mais adequada, com a realização de exames regulares, caso as cirurgias preventivas não sejam opção para a mulher”.

Quanto às idades para a realização destas intervenções cirúrgicas, Gabriela Sousa explica que “a vigilância deve ser iniciada cerca de dez anos antes da idade de diagnóstico do familiar mais jovem atingido pela doença, e as cirurgias redutoras de risco, são decididas de acordo com cada situação clínica”.

A cirurgia de remoção dos ovários é aconselhada a partir dos 35 anos ou entre os 40 e os 45 anos, “se em causa estiver o gene BRCA2, após as mulheres terem completado o seu projeto reprodutivo”.

A preocupação de várias mulheres quanto à maternidade, nomeadamente, o receio de passar a mutação aos filhos é, segundo a especialista, válido, “mas  existem, atualmente, técnicas de reprodução medicamente assistida que permitem selecionar os embriões que não têm a mutação e, dessa forma, interromper a transmissão da mutação à descendência”.

Exposição para informar e esclarecer

É para esclarecer estas e outras questões que a Evita, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Sociedade Portuguesa de Genética Humana, a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, a Sociedade Portuguesa de Senologia e a Sociedade Portuguesa de Oncologia e a AstraZeneca irão lançar a campanha “saBeR mais ContA”, no dia 8 de maio, Dia Mundial do Cancro do Ovário, e que irá decorrer até outubro, mês de sensibilização para o cancro da mama.

Segundo Tamara Milagre, presidente da Evita, é uma forma de “contribuir para acelerar a identificação de portadores e aumentar a resposta às suas necessidades específica”.

A responsável refere ainda que “é necessário que os centros especializados aumentem a sua capacidade de resposta para quem decide avançar com cirurgias preventivas, para as quais o tempo de espera neste momento é bastante longo em algumas instituições”.

Neste sentido, a campanha contará com a realização de três sessões de esclarecimentos com médicos especialistas e testemunhos sobre ‘As mutações genéticas BRCA e o cancro’, com a primeira a acontecer no dia 17 de maio, pelas 15h00, no IPO de Coimbra, e a segunda, a 30 de maio, à mesma hora, no IPO do Porto, esta última transmitida por livestreaming nos sites e páginas de facebook da Evita e LPCC. 

Estas sessões, dirigidas sobretudo a doentes e familiares, são uma forma de passar conhecimento, que segundo Vítor Rodrigues, presidente da Direção da LPCC, “é um aspeto-chave para que as pessoas possam tomar decisões informadas sobre a sua saúde e equacionem as vantagens e as desvantagens das várias estratégias disponíveis e o diálogo com os profissionais de saúde, numa interacção esclarecida sobre as opções a tomar”.

Para além destas sessões, a campanha “saBeR mais ContA” terá ainda uma exposição fotográfica, com testemunhos de famílias onde houve diagnóstico de cancro da mama e/ou ovário, associados à mutação BRCA, e outros que realizaram o teste genético.

Esta exposição estará no Alma Shopping, entre 9 a 20 de maio, seguindo para o Porto, para a estação da Casa da Música do Metro do Porto, de 20 a 31 de maio. A campanha chega a Lisboa no mês de outubro.

estudo sobre sistema imunitário

Investigação sobre células do sistema imunitário na luta contra o cancro ganha prémio

Por | Cancro

Contribuir para melhores tratamentos de imunoterapia contra o cancro, através dos sistema imunitário, é o grande objetivo de um projeto do Instituto de Medicina Molecular – João Lobo Antunes (IMM), vencedor do Prémio Faz Ciência 2019.

A investigação de um conjunto de linfócitos que infiltram o tumor e que podem contribuir para a sua progressão conquista, desta feita, um prémio, iniciativa da Fundação AstraZeneca e da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), que distingue o melhor projeto de investigação translacional em Imuno-Oncologia desenvolvido em Portugal.

O prémio, que se traduz numa bolsa de trinta e cinco mil euros, foi entregue esta terça-feira, em Lisboa, numa cerimónia que decorreu na residência do Embaixador do Reino Unido.

O papel do sistema imunitário

Tendo em conta que as células do sistema imunitário são uma componente importante do microambiente tumoral, influenciando de forma significativa a progressão do cancro, os investigadores do IMM identificaram dois subconjuntos destas células que desempenham papéis opostos na progressão do tumor: enquanto um estimula a resposta contra o cancro, o outro promove o seu crescimento.

O que controla este equilíbrio é o que falta perceber e é o que se pretende com este trabalho, reconhecido pela sua importância com o ‘Prémio FAZ Ciência’, que pela segunda vez premeia a investigação que se faz em Portugal nesta área.

Tal como em 2018, foram submetidos diversos projetos a concurso, com elevada qualidade e representativos de vários grupos de investigação, o que representa o consolidar de um novo paradigma no panorama da investigação em Portugal.

Para Paulo Cortes, Presidente da SPO, parceira deste projeto, “esta iniciativa dá corpo a  um dos desígnios maiores da SPO ao promover o conhecimento e interligação entre os vários grupos de investigação, cooperativos e universidades, nacionais e internacionais. Neste sentido, continuamos a abraçar esta parceria com a Fundação AstraZeneca na atribuição do prémio FAZ Ciência com a maior satisfação e empenho”.

A  seleção do vencedor foi feita por uma Comissão de Avaliação composta por cinco reconhecidos especialistas nacionais na área da Imuno-Oncologia.

350 casos de cancro do ovário

Um passo mais perto de exame de sangue para diagnóstico do cancro do ovário

Por | Cancro

É a sétima causa de morte feminina no mundo. Por cá, todos os anos são diagnosticados cerca de 350 novos casos de cancro do ovário, frequentemente chamado de “assassino silencioso”, tendo em conta a inexpressividade dos seus sintomas, que faz com que o diagnóstico seja feito em estágios avançados. Por enquanto, não há um exame de sangue sensível ou específico o suficiente para fazer o rastreio. A boa notícia é que pode estar bem mais perto.

Amy Skubitz, professora da Escola de Medicina da Universidade do Minnesota, nos EUA, e a sua equipa, que se dedica à deteção precoce do cancro do ovário, têm usado uma nova tecnologia, através da qual o sangue de um doente pode ser testado para a presença de 92 proteínas de uma só vez, o que pode ser o passo necessário para criar um exame capaz de diagnosticar, de forma simples e rápida, este tipo de cancro na população em geral.

Nova tecnologia com resultados positivos

Em estudos anteriores, que usaram um pequeno número de amostras de sangue, a equipa de Skubitz já tinha confirmado que esta tecnologia funciona bem para um conhecido biomarcador do cancro do ovário, o CA125.

Examinando 150 amostras de sangue de mulheres com e sem a doença, foi possível quantificar os níveis de 92 proteínas relacionadas com o cancro no sangue de cada doente.

E foi possível também determinar que dezenas de proteínas relacionadas com cancro estavam presentes em níveis significativamente diferentes no sangue das mulheres com cancro do ovário, quando comparando com as mulheres saudáveis.

Quando foi testado um painel com CA125 e cinco proteínas adicionais, foi possível dizer se o sangue era de uma mulher com cancro do ovário ou de uma mulher saudável.

“Os resultados deste estudo levam-nos um passo mais perto de desenvolver um teste de sangue para deteção do cancro do ovário”, afirma Skubitz.

“Os estudos que estamos a desenvolver estão focados no uso de amostras de sangue de mulheres com estágios iniciais de cancro do ovário, bem como de mulheres com doenças ginecológicas benignas.”

Deteção precoce = maior sobrevida

Tendo em conta que a prevalência de cancro do ovário na população geral não é muito elevada, um teste que faça o rastreio tem de ser altamente sensível e específico. O que significa que será necessário testar muitas outras amostras de sangue para determinar se o teste se manterá fiável nos estágios iniciais da doença.

O trabalho promete continuar, até porque esta deteção precoce significaria cirurgias menos extensivas e quimioterapia menos tóxica para as mulheres diagnosticadas, traduzindo-se numa melhora significativa na sobrevida das doentes.