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“A boca é uma janela privilegiada para a saúde geral”

Entrevista Hugo Madeira e a saúde pela boca

Hugo Madeira acredita que a boca é uma janela para a saúde geral e que uma gengiva inflamada pode ser o primeiro sinal de problemas que vão do coração ao cérebro. Fundador da Clínica Hugo Madeira e da Hvma Life, o médico dentista, à conversa com o Notícias Saúde, defende uma medicina cada vez mais preventiva, personalizada e integrada.

Que doenças ou condições sistémicas é que a boca pode ajudar a detetar precocemente e que a maioria das pessoas desconhece completamente?

Durante muitos anos olhámos para a boca como um conjunto de dentes e gengiva. Hoje sabemos que ela é muito mais do que isso. Acredito que o melhor tratamento continua a ser a prevenção e que prevenir significa identificar desequilíbrios quando ainda não provocaram sintomas ou quando ainda são facilmente reversíveis.

É precisamente esse o caminho que queremos seguir e por isso, temos vindo a incorporar na nossa prática clínica ferramentas que nos permitem conhecer melhor cada paciente desde a primeira consulta. Além da avaliação clínica, utilizamos questionários validados, testes simples realizados através da saliva e lançámos recentemente um teste pioneiro de microbioma oral que nos ajuda a compreender melhor o equilíbrio das bactérias, determinados fatores genéticos e o risco individual para algumas doenças orais. Tudo isto permite-nos deixar de fazer uma prevenção igual para todos e começar a construir estratégias verdadeiramente personalizadas.

Ao mesmo tempo, existem alterações orais que podem ser os primeiros sinais de doenças como diabetes, doenças autoimunes, défices nutricionais, refluxo gastroesofágico, perturbações do sono, algumas infeções e até determinados tipos de cancro oral. Uma gengiva que sangra persistentemente, uma boca muito seca, lesões que não cicatrizam, alterações da língua ou desgaste dentário excessivo podem ser manifestações de problemas que vão muito além da cavidade oral.

Além disso, a evidência científica, entre ela uma umbrella review publicada na prestigiada revista Nature Communications, demonstra uma forte associação entre a doença periodontal e mais de 28 doenças crónicas, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes, doença renal crónica e doenças neurodegenerativas. É importante esclarecer que associação não significa necessariamente causalidade, mas significa que estes sinais merecem ser valorizados e investigados.

O papel do médico dentista não é substituir outras especialidades. É reconhecer estes sinais, compreender o seu significado, tratar aquilo que pertence à medicina dentária, encaminhar quando necessário e, acima de tudo, educar o paciente para a prevenção.

Porque acredito que o futuro da medicina dentária não será apenas tratar doença, mas antes conseguir antecipá-la, e quando conseguimos antecipar a doença, muitas vezes evitamos que ela chegue a acontecer. O futuro está em descobrir mais cedo os desequilíbrios que podem dar origem a doença e esse é, para mim, o verdadeiro objetivo da medicina moderna. 

Como é que uma gengiva inflamada pode afetar, por exemplo, o coração ou o cérebro?

A inflamação é um mecanismo essencial de defesa do organismo. O problema surge quando deixa de ser localizada e passa a persistir durante meses ou anos. Na doença periodontal existe uma resposta inflamatória contínua provocada pelas bactérias presentes no biofilme oral. Estas bactérias e os mediadores inflamatórios podem entrar na circulação sanguínea, contribuindo para um estado de inflamação sistémica.

É precisamente por isso que hoje encontramos associações consistentes entre doença periodontal e doenças cardiovasculares, diabetes ou algumas doenças neurodegenerativas. Ainda estamos a estudar muitos destes mecanismos, mas já sabemos que a saúde oral faz parte da saúde geral e que controlar a inflamação oral pode ser uma peça importante na estratégia global de prevenção.

Porque é que esta visão integrada ainda não é prática corrente?

Porque a medicina evoluiu através da especialização. Essa especialização permitiu avanços extraordinários, mas também criou fronteiras entre disciplinas que nem sempre refletem a forma como o organismo funciona e o nosso corpo não está dividido em especialidades. O sistema imunitário, a inflamação, o microbioma, o metabolismo ou o sono influenciam simultaneamente vários órgãos.

Hoje, existe cada vez mais investigação que nos obriga a voltar a ligar estes pontos, trabalhando em equipa multidisciplinar e olhando para o paciente de forma mais completa. Já a tínhamos na nossa visão sistemática da medicina dentária, mas juntamos agora outras especialidades com a inauguração da nossa área nova, a Hvma Life (lê-se huma), na nossa área de saúde para além da boca. 

O que diria a um médico dentista convencional que acha que isto é “demasiado” para a sua área?

Diria que continuamos exatamente a fazer medicina dentária, que continuamos a tratar dentes, gengivas, oclusão e função oral, mas que a diferença é que hoje sabemos muito mais sobre a forma como tudo isso se relaciona com a restante saúde.

Não pretendemos, em momento algum, substituir um cardiologista, um nutricionista ou um neurologista. O nosso papel é reconhecer padrões, identificar fatores de risco, tratar aquilo que nos compete e articular-nos com outras especialidades sempre que necessário e, acima de tudo, promover a saúde e a prevenção. Na realidade, esta abordagem aumenta a responsabilidade do médico dentista, mas também aumenta a qualidade dos cuidados prestados ao paciente.

O que distingue concretamente esta primeira consulta (Mouth Body Blueprint) de uma consulta dentária convencional? O que é que o paciente sente de diferente?

A maioria das consultas dentárias começa pela pergunta: “Qual é o problema?” Na Mouth Body Blueprint começamos por perguntar: “Quem é esta pessoa?”

Falamos sobre alimentação, sono, respiração, doenças existentes, medicação, energia, hábitos, stress, exercício físico e objetivos de saúde. Fazemos uma avaliação clínica detalhada da boca, mas procuramos compreender como todos estes fatores se relacionam. O paciente percebe rapidamente que não estamos apenas interessados num dente, estamos interessados em compreender a sua saúde como um todo e isso muda completamente a experiência da consulta.

Como é que se cruzam dados tão díspares, como sono, inflamação, microbioma, estilo de vida, e se chega a uma leitura coerente do paciente?

Na verdade, estes dados não são assim tão díspares, todos eles influenciam processos biológicos comuns, como a inflamação, a resposta imunitária, a cicatrização, a composição do microbioma ou o metabolismo. A boca funciona como uma janela privilegiada para observar muitos destes processos.

A consulta consiste precisamente em integrar informação proveniente da história clínica, da avaliação oral, do microbioma, dos exames complementares e do contexto de vida do paciente, para perceber quais são os fatores que mais provavelmente estão a contribuir para o seu estado de saúde. Não procuramos respostas simples. Procuramos compreender sistemas complexos.

O microbioma oral ainda é uma área emergente. Que resultados concretos já observou na prática clínica?

O microbioma oral está a transformar a forma como pensamos a prevenção e a personalização dos cuidados de saúde. Recentemente, lançámos o Teste de Microbioma Oral Hugo Madeira, um teste pioneiro que utiliza sequenciação metagenómica para analisar centenas de espécies de microrganismos presentes na boca, identificar sinais de disbiose, avaliar fatores genéticos relacionados com a saúde oral e compreender melhor o perfil biológico de cada paciente. 

Na prática clínica, aquilo que mais nos surpreende é perceber que dois pacientes com exatamente o mesmo diagnóstico — por exemplo, doença periodontal — podem ter perfis biológicos completamente diferentes. Um pode apresentar uma elevada carga de determinadas bactérias patogénicas, outro pode ter uma predisposição genética para uma resposta inflamatória mais intensa e outro pode ter um microbioma relativamente equilibrado, mas hábitos de vida que favorecem a progressão da doença. Isso significa que dificilmente a melhor estratégia será igual para todos.

O teste permite-nos avaliar o equilíbrio entre bactérias benéficas, neutras e potencialmente patogénicas, identificar fatores de risco para problemas como doença periodontal, halitose, cárie ou inflamação e cruzar essa informação com predisposições genéticas relevantes. Mas, mais importante do que o diagnóstico molecular, é aquilo que fazemos com essa informação. 

Cada paciente recebe um plano de ação verdadeiramente personalizado, que pode incluir recomendações específicas de higiene oral, alimentação, suplementação, probióticos, controlo do biofilme, frequência das consultas de manutenção e acompanhamento clínico. O objetivo não é apenas tratar uma doença existente, mas criar condições para restaurar a eubiose — o equilíbrio saudável do microbioma — e reduzir o risco de progressão da doença. 

Acredito que esta é uma mudança de paradigma. Durante muitos anos tratámos doenças. Hoje começamos a tratar perfis biológicos. E isso aproxima-nos de uma medicina dentária cada vez mais personalizada, preditiva e preventiva, onde o foco deixa de ser apenas resolver problemas e passa a antecipá-los antes mesmo de surgirem.

Como funciona, na prática, esta ideia de multidisciplinaridade, de relação com outras especialidades no objetivo de olhar para o paciente como um todo, partindo da boca?

A multidisciplinaridade não significa colocar muitos profissionais à volta de uma mesa. Significa que cada profissional conhece profundamente a sua área, sabe reconhecer quando um problema ultrapassa a sua competência e trabalha em articulação com outros especialistas para garantir que o paciente recebe o melhor acompanhamento possível.

Na verdade, esta visão sempre fez parte da Clínica Hugo Madeira. Desde o início que defendemos uma abordagem de Systemic Dentistry, em que a saúde oral é entendida como parte integrante da saúde global. Sempre trabalhámos em estreita ligação com médicos de outras especialidades sempre que a situação clínica o justificava. O que mudou foi a forma como decidimos concretizar essa visão.

Com o lançamento da Hvma Life, e sob o conceito Mouth. Body. Mind. As One.”, trouxemos para dentro do nosso ecossistema algumas das áreas com que mais frequentemente trabalhávamos: otorrinolaringologia, medicina geral com uma abordagem sistémica, medicina do sono, nutrição e um conjunto de terapias complementares que fazem sentido quando enquadradas num plano clínico individualizado.

Isso permite-nos oferecer um acompanhamento muito mais integrado e próximo. Muitas vezes, aquilo que antes implicava vários encaminhamentos, diferentes agendas e consultas em locais distintos, pode agora acontecer de forma coordenada, com maior comunicação entre profissionais e uma visão comum sobre os objetivos do paciente. O objetivo nunca é que um profissional faça o trabalho do outro. É garantir que nenhuma peça importante do puzzle fica esquecida e que cada decisão clínica é tomada tendo em conta a pessoa como um todo, e não apenas um órgão ou uma especialidade.

Onde acaba a medicina dentária e começa a Hvma Life? Como define essa fronteira?

Na verdade, não existe uma fronteira rígida. A Clínica Hugo Madeira continua a ser o centro de tudo e é aqui que começa a avaliação da saúde através da boca. Quando percebemos que existem fatores que ultrapassam a esfera da medicina dentária, relacionados, por exemplo, com metabolismo, sono, inflamação, nutrição ou estilo de vida, a Hvma Life permite dar continuidade a esse acompanhamento através de outras áreas médicas e terapêuticas.

Não são dois projetos separados. São duas partes da mesma visão de saúde.

Que tipo de pessoa procura esta abordagem hoje? E quem deveria procurar, mas ainda não o faz?

Inicialmente eram sobretudo pacientes com casos dentários complexos. Hoje, recebemos cada vez mais pessoas que procuram compreender melhor a sua saúde, prevenir doença ou encontrar respostas para sintomas persistentes que não conseguem explicar. Estamos a sair da doença para entrar na prevenção. 

Mas acredito que esta abordagem deveria interessar praticamente a qualquer pessoa. Tal como fazemos análises ao sangue ou medimos a tensão arterial, faz sentido conhecer o estado da nossa saúde oral antes que apareçam sintomas. A prevenção continua a ser a forma mais inteligente de cuidar da saúde.

Para onde caminha a medicina dentária nos próximos dez anos e onde quer estar nessa evolução?

Acredito que a medicina dentária vai tornar-se cada vez mais personalizada, preventiva e integrada. Vamos recorrer cada vez mais à inteligência artificial, à análise do microbioma, à genética, aos biomarcadores e à medicina de precisão para compreender melhor cada paciente e adaptar as recomendações ao seu perfil biológico.

Mas, paradoxalmente, quanto mais tecnologia tivermos, mais importante será a capacidade de olhar para a pessoa como um todo. É precisamente aí que quero estar, no cruzamento entre ciência, tecnologia e uma visão profundamente humana da saúde. Porque acredito que o futuro da medicina dentária não passa apenas por tratar dentes, passa por compreender as pessoas e a sua saúde no seu todo através da sua boca. Mouth. Body. Mind, as One.

Crédito imagem: DR

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