De acordo com uma análise inédita de mais de 13 milhões de mulheres, apresentada na Reunião Anual da Associação Americana de Neurologia (ANA), entre metade e três quartos das mulheres com endometriose também podem sofrer de enxaqueca.
A análise mostrou ainda que as mulheres com endometriose têm 2,3 vezes mais probabilidades de ter enxaqueca do que as mulheres sem a doença pélvica. A investigação reforça a evidência de que a enxaqueca e a endometriose podem partilhar uma via de dor.
“Existe uma lacuna de visibilidade porque a enxaqueca e a endometriose são tratadas por especialistas diferentes e registadas separadamente, o que faz com que a sobreposição seja fácil de passar despercebida”, refere Yohannes Woubishet Woldeamanuel, médico, autor principal do estudo e professor assistente de neurologia na Mayo Clinic Arizona, em Phoenix. “Como resultado, as dores de cabeça e a dor pélvica nas mulheres podem ser vistas como não relacionadas, mesmo quando podem fazer parte de um padrão de dor mais amplo.”
Os investigadores analisaram 35 estudos que abrangem 50 anos de comparação das taxas de enxaqueca entre 207.675 mulheres com endometriose e 12.963.120 mulheres sem a doença.
“As mulheres que têm – ou suspeitam ter – tanto enxaqueca como endometriose devem compreender que provavelmente não é uma coincidência e comunicar todos os seus sintomas aos seus médicos”, refere Megan N. Wasson, coautora do estudo e chefe do Departamento de Ginecologia Médica e Cirúrgica da Mayo Clinic Arizona. “Os profissionais de saúde também precisam de fazer esta ligação. Os neurologistas devem questionar sobre as cólicas menstruais intensas e a dor pélvica, enquanto os ginecologistas devem investigar a presença de enxaqueca. O reconhecimento precoce pode levar a um atendimento melhor e mais coordenado.”
Pesquisas anteriores já tinham encontrado uma associação entre enxaqueca e endometriose, mas este estudo oferece uma visão mais clara da frequência com que as mulheres podem apresentar ambas as condições.
Identificar o ‘culpado’
O CGRP é uma substância química natural do organismo que desempenha um papel fundamental nas crises de enxaqueca. Envia e amplifica sinais de dor no cérebro e pode também desencadear inflamação no tecido nervoso, o que pode agravar a dor. O tecido da endometriose contém fibras nervosas e células imunitárias associadas à inflamação, e a investigação sugere que o CGRP também pode contribuir para a dor.
Na endometriose, um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce noutras partes do corpo, causando inflamação, tecido cicatricial e, em algumas mulheres, dor pélvica intensa, cólicas menstruais e infertilidade. Os tratamentos tradicionais podem incluir terapêutica hormonal ou cirurgias repetidas, todos com potenciais efeitos secundários. Diversos tipos de tratamentos para a enxaqueca podem aliviar as crises ou ajudar a prevenir futuras, incluindo as terapêuticas dirigidas ao CGRP, que bloqueiam a atividade de um mensageiro químico envolvido na dor da enxaqueca e são consideradas opções de primeira linha para a prevenção.
As descobertas apresentadas apoiam a investigação sobre se os medicamentos existentes para a enxaqueca que bloqueiam o CGRP também poderiam aliviar a dor da endometriose, oferecendo potencialmente um tratamento para ambas as condições, afirmam os investigadores.
Crédito imagem: iStock















