As pessoas com anorexia nervosa apresentam níveis anormalmente elevados de uma hormona chamada LEAP2 no sangue durante a fase aguda da perturbação, revela uma investigação apresentada no Fórum 2026 da Federação das Sociedades Europeias de Neurociência. Os doentes com os níveis mais elevados de LEAP2 têm maior probabilidade de recaída após o tratamento para a anorexia nervosa.
“A anorexia nervosa é uma perturbação complexa que afeta predominantemente mulheres jovens. É caracterizada pela restrição alimentar autoimposta, frequentemente acompanhada de hiperatividade, que, em conjunto, podem levar a uma desnutrição grave e a consequências potencialmente fatais. De facto, a anorexia nervosa tem a maior taxa de mortalidade entre todas as perturbações psiquiátricas”, explica Virginie Tolle, neurocientista do INSERM (Instituto de Saúde e Investigação Médica de França), que trabalha no Instituto de Psiquiatria e Neurociências de Paris, França.
“Apesar da sua gravidade, atualmente não existe um medicamento eficaz para tratar esta perturbação, com os tratamentos existentes a terem por base a reabilitação nutricional e cuidados multidisciplinares. No entanto, a recuperação pode demorar muitos meses e as taxas de recaída continuam elevadas, atingindo os 40%. Ao longo da última década, temos observado cada vez mais evidências de que a anorexia nervosa não é apenas uma condição psiquiátrica, mas também uma perturbação com causa metabólica”, acrescenta.
Esta nova investigação sugere que os níveis desta hormona estão associados à capacidade de controlar os impulsos, o que pode ser um fator quando se evitam alimentos na anorexia nervosa ou, em contraste, na alimentação emocional em doentes com compulsão alimentar e comportamentos purgativos.
Os investigadores descobriram também que a hormona LEAP2 parece estar associada à regulação do açúcar no sangue e a uma tolerância anormal à subalimentação, o que pode ajudar a explicar porque é que os doentes podem restringir a sua alimentação durante meses ou anos.
Afirmam, por isso, que as suas descobertas ajudam a compreender a ligação entre os problemas físicos e mentais subjacentes aos distúrbios alimentares e podem levar a melhores testes e novas formas de tratamento da anorexia nervosa no futuro.
Ferramenta para prever recaídas na anorexia nervosa
Tolle e os seus colegas estudam a anorexia nervosa em humanos e em ratinhos, o que lhes permite relacionar as observações clínicas e comportamentais em doentes com estudos do cérebro e do metabolismo que só podem ser realizados em animais.
A investigação incluiu 30 mulheres com idades entre os 18 e os 60 anos, diagnosticadas com anorexia nervosa e submetidas a um programa de realimentação de quatro meses num centro especializado em perturbações alimentares. As doentes forneceram amostras de sangue antes do tratamento, após o tratamento e novamente seis meses depois e responderam também a questionários detalhados sobre o seu comportamento.
Em pesquisas anteriores, Tolle tinha estudado uma hormona chamada grelina que, em circunstâncias normais, é libertada pelo estômago em resposta à fome e sinaliza ao cérebro que está na hora de comer. Nas pessoas com anorexia nervosa, este processo parece não funcionar corretamente.
Agora, a investigadora e os seus colegas descobriram que os doentes com anorexia nervosa apresentavam níveis 20% mais elevados de outra hormona chamada LEAP2, produzida pelo fígado e pelos intestinos, que atua contra a grelina, anulando os sinais naturais de fome do organismo. Analisaram os níveis de LEAP2 no sangue de doentes internados pela primeira vez por anorexia nervosa, em comparação com os níveis após quatro meses de tratamento hospitalar, tendo verificado uma diferença particularmente evidente nos doentes que recaíram seis meses após a alta hospitalar.
Esta descoberta, se confirmada num maior número de doentes, sugere que a análise dos níveis de LEAP2 pode prever quem tem maior probabilidade de recaída, permitindo que o tratamento e o seguimento sejam personalizados para fornecer o nível adequado de apoio. Aprender mais sobre esta molécula e a sua relação com a anorexia nervosa pode também levar ao desenvolvimento de um tratamento farmacológico para os doentes.
“As nossas descobertas sugerem que os sinais metabólicos que normalmente regulam a fome se adaptam de forma diferente em distúrbios alimentares como a anorexia nervosa. Estes sinais também influenciam o cérebro e os processos de tomada de decisão. O que aprendemos sobre o LEAP2 sugere que é um alvo potencial para novas estratégias terapêuticas muito necessárias. Além disso, a nossa investigação identifica o LEAP2 como um biomarcador de recaída, sugerindo que seria possível testar e monitorizar os doentes e adaptar o tratamento conforme necessário”, afirma Tolle.
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