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Desafios do diagnóstico na saúde ginecológica

especialista em doenças ginecológicas

Num país onde a dor feminina continua a ser, demasiadas vezes, silenciada ou normalizada, torna‑se urgente refletir sobre o impacto que esta desvalorização tem no diagnóstico e tratamento das doenças ginecológicas. A persistência de mitos, a insuficiente literacia em saúde e a falta de acesso a cuidados especializados contribuem para que milhares de mulheres vivam com sintomas que não deveriam ser considerados inevitáveis. Neste artigo, Ana Sofia Fernandes, médica especialista em Ginecologia/Obstetrícia no Centro Hospitalar Universitário de São João, lança um olhar sobre os desafios atuais no reconhecimento da dor pélvica e no diagnóstico de patologias que afetam profundamente a saúde e a qualidade de vida das mulheres em Portugal.

“Estima-se que será elevado o número de mulheres que vivem em Portugal com dores pélvicas consideradas ‘normais’. No nosso país, à semelhança de outros, persiste um conjunto  de patologias ginecológicas frequentemente subdiagnosticadas e/ou incorretamente  diagnosticadas, resultado não só, mas também, de uma normalização e desvalorização da dor  associada ao período menstrual (dismenorreia) ou à relação sexual (dispareunia).

E não é só a mulher que tende a perpetuar esta desvalorização, mas também alguns  profissionais de saúde, o que contribui para o atraso no diagnóstico de patologias como a endometriose e a adenomiose que têm a dor pélvica como manifestação clínica frequente.  Atualmente, o diagnóstico destas doenças é imagiológico. A ecografia ginecológica é o exame  de primeira linha e deve ser realizada por um ginecologista ou radiologista com experiência  diferenciada nesta área, para garantir uma adequada acuidade diagnóstica. Importa, por um  lado, evitar o sobre-diagnóstico de adenomiose e, por outro, a ausência de correta identificação  de lesões de endometriose profunda.

É de salientar que, recentemente a comunidade médica e a sociedade civil têm  desempenhado um papel relevante na sensibilização para estas doenças, através da formação  dos profissionais de saúde e de campanhas de informação junto da população, o que certamente  terá um impacto futuro num diagnóstico mais precoce.

Outra área de preocupação na saúde da mulher é o diagnóstico da síndrome do ovário  poliquístico (SOP) na adolescência. Aqui, coexistem dois problemas opostos e igualmente  preocupantes. Por um lado, há uma tendência para assumir erradamente o diagnóstico com  base exclusiva em achados ecográficos; por outro, as irregularidades menstruais e os sinais de  hiperandrogenismo característicos desta fase do desenvolvimento são frequentemente  normalizados, atrasando o diagnóstico em jovens que efetivamente sofrem de SOP e que  beneficiariam de uma intervenção precoce.

Certas patologias ginecológicas apresentam diagnóstico tardio devido à ausência de manifestações clínicas nas fases iniciais e/ou ausência de rastreio organizado e eficaz. Destacam as infeções sexualmente transmissíveis causadas por Chlamydia  trachomatis and Neisseria gonorrhoeae, que podem ser completamente assintomáticas e,  quando não tratadas, comprometer de forma irreversível a saúde reprodutiva da mulher. Na  ausência de sintomas, o diagnóstico destas infeções depende essencialmente de três fatores:  literacia em saúde, identificação de comportamentos de risco e procura atempada de cuidados  médicos. São três pilares que remetem, inevitavelmente, para questões de educação, acesso e  equidade e que mostram como a saúde ginecológica vai muito além da clínica.

O cancro do ovário é, talvez, o exemplo mais dramático do diagnóstico tardio. É  frequentemente diagnosticado em estádios avançados, pela inespecificidade dos sintomas e  pela ausência de evidência que suporte um programa de rastreio eficaz para a população geral,  ao contrário do que acontece com o cancro da mama ou do colo do útero.

A saúde da mulher merece ser priorizada pela própria e todos os profissionais de saúde  envolvidos nos seus cuidados. É essencial a existência de consultas acessíveis e em tempo útil,  de profissionais com formação diferenciada, de programas de educação da população geral e  uma cultura clínica que trate a dor feminina com a seriedade que esta merece. A dor pélvica  incapacitante, tantas vezes suportada em silêncio, constitui um elemento essencial para o  diagnóstico de determinadas patologias ginecológicas que podem progredir para quadros complexos e incapacitantes. É urgente promover uma mudança de paradigma que reconheça  que, neste contexto, o silêncio tem um preço – e esse preço pode ser a própria saúde.”

Crédito imagem: DR