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Equipa de Coimbra estuda em Portugal tratamento inovador para a depressão na gravidez e no pós-parto

tratar a depressão na gravidez

Uma equipa de investigação, liderada pela Universidade de Coimbra (UC), está a estudar, em Portugal, a viabilidade e a aceitabilidade de um tratamento não invasivo e sem recurso a medicamentos para a depressão na gravidez e no pós-parto. Com esta intervenção, que já revelou ser eficaz em estudos realizados noutros países, as investigadoras esperam conseguir tornar por cá disponível um tratamento que pode chegar, de forma fácil, a mais mulheres com depressão na gravidez ou após o parto.

Este tratamento resulta da combinação da estimulação elétrica transcraniana de baixa intensidade (tDCS) com uma intervenção psicológica, de base cognitivo-comportamental, suportada por uma aplicação móvel, e vai ser disponibilizado pela primeira vez em Portugal na Unidade Local de Saúde de Coimbra (ULS de Coimbra), mais precisamente na Maternidade Bissaya Barreto.

Em concreto, “o tratamento tem a duração de dez semanas: nas primeiras três, a pessoa em tratamento realiza cinco sessões por semana (uma por dia) e nas sete semanas seguintes realiza três sessões. Cada sessão inclui 30 minutos de estimulação cerebral associada a um conjunto de exercícios oferecidos pela aplicação, integrados numa intervenção psicológica cognitivo-comportamental breve”, explica a docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC) e investigadora do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC), Ana Ganho Ávila.

Sobre a estimulação elétrica, a investigadora revela que “a tDCS é uma técnica não invasiva e não farmacológica que permite modular a atividade neuronal, tornando determinadas áreas do cérebro mais ou menos excitáveis. Atua diretamente no funcionamento dos neurónios, sendo uma técnica segura e indolor quando utilizada sob supervisão médica. As sessões de estimulação podem ser dirigidas a regiões específicas do cérebro, o que torna esta técnica uma forma prática de influenciar o funcionamento cerebral, resultando em melhorias no estado emocional e cognitivo”.

Alternativa aos medicamentos para a depressão na gravidez

A equipa da UC decidiu trazer esta intervenção terapêutica para Portugal depois de “já ter sido testada no Reino Unido com resultados encorajadores”, acreditando que “será uma oportunidade importante para alargar o leque terapêutico existente no Serviço Nacional de Saúde para grávidas e mulheres a amamentar com sintomatologia depressiva que procuram alternativas não farmacológicas”, avança a docente da Universidade de Coimbra.

A facilidade de utilização em casa e o facto de ser uma alternativa não farmacológica são alguns aspetos positivos destacados pelas participantes do estudo no Reino Unido com depressão na gravidez ou após o parto, que apresentaram, por exemplo, melhorias no humor, nos sintomas depressivos, no sono e no bem-estar geral, algumas após poucas semanas de utilização.

Sobre a aplicação no contexto português, a equipa já realizou um estudo com um grupo focal de mulheres com história de sintomatologia depressiva e profissionais de saúde perinatal para aferir a aceitabilidade do tratamento. Os resultados deste estudo encontram-se publicados no artigo científico Acceptability of remotely supervised Home-Based transcranial direct current stimulation combined with Cognitive-behavioural-based app for peripartum depression: perspectives from women with lived experience and mental health professionals, disponível aqui. A automonitorização de sintomas e a forma simples de utilização foram dois aspetos destacados sobre as vantagens deste tratamento.

Depois deste estudo, seguiu-se a formação da equipa de psiquiatras e psicólogos clínicos da Maternidade Bissaya Barreto que vão implementar o tratamento nas mulheres com depressão na gravidez ou após o parto. Neste momento, está a decorrer a implementação do tratamento junto de 40 mulheres grávidas ou no período pós-parto, que vão realizar o tratamento ao longo de dez semanas.

“Através deste estudo observacional vamos analisar a viabilidade deste tratamento combinado junto de mulheres que são acompanhadas na Maternidade Bissaya Barreto”, destaca Ana Ganho Ávila.

Em comparação com outras possibilidades de tratamento para a depressão na gravidez ou após o parto já existentes, a também psicóloga clínica elucida que “este tratamento apresenta um perfil de segurança elevado, incluindo para mulheres grávidas e mulheres a amamentar, não colocando riscos conhecidos nem para a mãe nem para o bebé ou recém-nascido”.

“Por essa razão, pode ser considerado como uma alternativa segura ou um complemento à medicação antidepressiva, cuja utilização é frequentemente vivida com receio por muitas mães e famílias durante a gravidez e o período pós-parto, devido ao risco de exposição do feto ou do bebé através da placenta ou do leite materno. Além do mais, é um tratamento que pode ser realizado em casa, em total segurança, evitando as deslocações diárias às unidades clínicas que outras alternativas de estimulação cerebral exigem”, acrescenta.

“A resposta à saúde mental materna é cada vez mais urgente e Coimbra é uma referência nesta área. Este projeto é um contributo importante, que possibilita à ULS de Coimbra disponibilizar às suas utentes grávidas e no pós-parto acesso a uma intervenção inovadora e não invasiva”, frisa o Presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra, Francisco Maio Matos.

“Além disso, este projeto está perfeitamente alinhado com o nosso compromisso, enquanto ULS universitária, de articulação e valorização da investigação, inovação e conhecimento e de reforço da ligação estratégica entre a ULS de Coimbra e o ecossistema académico e científico. Estamos sempre disponíveis para apoiar e fomentar projetos que contribuam para ganhos em saúde, em estreita colaboração com a Universidade”, acrescenta.

Sobre o projeto

A investigação decorre no âmbito do projeto 4MUMs, liderado pelo Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental. Na Universidade de Coimbra, para além de Ana Ganho Ávila, integram também a equipa a investigadora da Faculdade de Medicina (FMUC), Ana Telma Pereira, e as investigadoras da FPCEUC, Mónica Sobral e Magdalena Iwanow.

Do lado da ULS de Coimbra, fazem parte da equipa a coordenadora do Hospital de Dia de Psiquiatria e subcoordenadora da Unidade de Neuromodulação do Centro de Responsabilidade Integrada de Psiquiatria, Joana Andrade; a diretora do Serviço de Psicologia Clínica, Mariana Moura Ramos; a diretora do Departamento da Mulher e do Recém-nascido, Teresa Almeida Santos, também docente da FMUC; as médicas psiquiatras e membros da consulta de Psiquiatria de Ligação às Maternidades, Daniela Pereira e Vera Martins; e a psicóloga clínica da Maternidade Bissaya Barreto, Cristina Vieira.

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