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Porque é que a Síndrome dos Ovários Poliquísticos mudou de nome?

síndrome dos ovários poliquísticos

Primeiro, foi batizada em homenagem a dois homens. Depois, foi nomeada com base numa premissa falsa. Agora, passado mais de um século, um dos distúrbios hormonais mais comuns que afetam as mulheres em todo o mundo tem um nome que reflete a ciência. Um consórcio global de especialistas em saúde e doentes anunciou que a Síndrome dos Ovários Poliquísticos (SOP) deve agora ser conhecida como Síndrome do Ovário Metabólico Poliendócrino (SOM). A mudança, que demorou 14 anos a ser concretizada, foi revelada no Congresso Europeu de Endocrinologia.

Os especialistas em ginecologia e endocrinologia, bem como os especialistas em medicina da adolescência, concordam que isto valida os sintomas mais abrangentes das pacientes e oferece um caminho mais claro para um diagnóstico completo e um plano de tratamento que aborda todas as facetas da saúde, incentivando uma intervenção mais precoce e eficaz.

“A mudança de Síndrome dos Ovários Poliquísticos para Síndrome do Ovário Metabólico Poliendócrino é um marco na endocrinologia e uma vitória para as milhões de doentes que foram negligenciadas durante décadas”, afirma Michelle Maresca, médica endocrinologista que trata doentes com este problema no Hospital Infantil Joseph M. Sanzari, no Hackensack Meridian Hackensack University Medical Center, EUA.

“A nomenclatura anterior – Síndrome dos Ovários Poliquísticos – era uma barreira significativa para o diagnóstico e também para a compreensão do processo da doença; ao focar-se exclusivamente nos ovários, incentivava uma visão restrita que ignorava o quadro metabólico e hormonal mais amplo. Remover o foco na morfologia ovárica e valorizar o aspeto da disfunção metabólica irá encorajar uma abordagem mais abrangente para o tratamento e validação dos sintomas hormonais e metabólicos complexos das pacientes.”

Para Jocelyn A. Carlo, médica cirurgiã ginecológica minimamente invasiva e diretora de Ginecologia no Hackensack Meridian Jersey Shore University Medical Center, “a mudança representa uma evolução significativa e necessária na nossa compreensão e abordagem desta condição complexa. Isto é mais do que apenas uma mudança de terminologia; é um compromisso com um diagnóstico mais holístico e preciso que vai além do foco enganador nos quistos nos ovários”.

O novo nome enfatiza, com razão, os distúrbios metabólicos e hormonais que estão no cerne da síndrome, que se manifestam como ciclos menstruais irregulares, excesso de androgénios e um risco aumentado de problemas de saúde a longo prazo, como diabetes e doenças cardiovasculares.

Como a ciência ditou a mudança de nome

O termo “poliquístico” era um equívoco, garantem os especialistas. Os “quistos” são, na realidade, folículos ováricos subdesenvolvidos, uma característica que nem sempre está presente em todas as doentes. O nome antigo levou à confusão e a um foco restrito aos ovários.

A Síndrome dos Ovários Poliquísticos não é apenas uma perturbação reprodutiva. O novo nome enfatiza os importantes problemas endócrinos e metabólicos, como a resistência à insulina, que afetam até 85% das doentes e aumentam o risco de diabetes tipo 2 e esteatose hepática.

Estima-se que 170 milhões de pessoas em todo o mundo tenham este problema, mas até 70% não estão diagnosticadas. Os especialistas acreditam que o nome enganador é parcialmente responsável por isso, impedindo que as pacientes sejam examinadas para detetar condições metabólicas e psicológicas associadas.

A mudança de nome visa alterar o foco médico, melhorar as taxas de diagnóstico e garantir que as pacientes recebem cuidados abrangentes para uma condição complexa que se estende muito para além da idade reprodutiva. Espera-se também que isto incentive a aprovação oficial de novos tratamentos.

Crédito imagem: iStock