Uma equipa da Universidade de Coimbra descobriu novos mecanismos que ajudam uma bactéria, que é das mais perigosas do mundo, a esconder‑se dentro das nossas células e essa pista inesperada pode abrir caminho a tratamentos capazes de travar infeções que hoje parecem impossíveis de eliminar.
Uma equipa de cientistas, liderada pelo Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC), integrado no Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CiBB), identificou um novo conjunto de fatores que ajudam a explicar a virulência elevada da bactéria multirresistente Staphylococcus aureus. Estes novos dados abrem caminho ao desenvolvimento de terapias inovadoras, capazes de eliminar esta população de bactérias, contribuindo, assim, para combater infeções crónicas e recorrentes.
Publicado na revista Nature Communications, este estudo fornece novas pistas sobre como se esconde, sobrevive e se multiplica dentro dos fagócitos não profissionais, células humanas cuja primeira função não é a defesa imunitária e nas quais alguns antibióticos demonstram menor eficácia.
O Staphylococcus aureus é um patógeno que constitui uma das principais causas de doença hospitalar e comunitária. As infeções causadas por estirpes de Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (ou MRSA) constituem a segunda causa mais comum de morte associada à resistência bacteriana a antibióticos. Atualmente, esta bactéria é responsável por mais de um milhão de mortes por ano e uma das principais causas de doença hospitalar e comunitária.
O estudo identifica um conjunto de fatores nunca antes associados à vida intracelular e virulência da Staphylococcus aureus. Para a investigadora do CNC-UC e líder do estudo, Ana Eulálio, “compreender os mecanismos de infeção e adaptação intracelular da bactéria Staphylococcus aureus permitiu-nos desvendar como este microorganismo consegue escapar ao sistema imunitário e resistir aos antibióticos, expandindo assim o conhecimento recente sobre a sua biologia e virulência”.
Os cientistas identificaram 73 genes que ajudam a Staphylococcus aureus a entrar, sobreviver e multiplicar‑se dentro de células humanas, podendo até levá‑las à morte.
Também descobriram que a enzima nicotinamidase (PncA) tem um papel inesperado: ela regula o sistema de virulência agr, responsável por controlar muitos fatores que tornam a bactéria mais agressiva. O estudo mostrou que a PncA influencia esse sistema ao alterar o metabolismo bacteriano.
Compreender como a PncA contribui para a virulência abre novas oportunidades de investigação sobre a ligação entre metabolismo e infeção. Estas descobertas criam várias possibilidades para desenvolver novos tratamentos e aprofundar o entendimento das interações entre a bactéria e o hospedeiro.
“Nos últimos anos, tem-se acumulado evidência de que a bactéria Staphylococcus aureus não é apenas um patógeno extracelular [que vive fora das células do hospedeiro], mas que, pelo contrário, consegue estabelecer-se dentro de células humanas, contribuindo para infeções persistentes”, explica a investigadora.
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