O ouvido, um dos primeiros órgãos sensoriais a ganhar forma no embrião e aquele que nos abre a porta ao mundo sonoro desde o nascimento, continua a ser alvo de desvalorização. É precisamente sobre a importância da audição e os riscos de ignorar sinais precoces de perda auditiva em qualquer idade que a otorrinolaringologista Teresa Gabriel, da Clínica Affidea de Castelo Branco, escreve neste artigo, alertando para a urgência de prevenir, vigiar e tratar uma condição que pode moldar profundamente a comunicação, a autonomia e a qualidade de vida.
“Desenhado meticulosamente e de anatomia particular, o ouvido cumpre funções nobres em cada organismo. Do mais simples reptil, ao mais complexo de todos os seres – o humano -, todos eles experienciam, desde muito cedo, a sensação auditiva.
Tão nobre quanto qualquer outro órgão dos sentidos, o ouvido permite-nos captar estímulos, como se de um recetor se tratasse, e enviá-los a várias áreas do cérebro, onde, por meio de sinapses múltiplas, se produzem informações sensoriais, que nos permitem conhecer o mundo tal como o concebemos.
É por volta da terceira semana de gestação que se inicia a formação do ouvido humano, estimando-se que se torne funcional por volta da vigésima quarta, o que o torna num dos órgãos sensoriais mais precoce do processo de desenvolvimento embrionário. Ao nascer, o ouvido está apto a captar informação sonora, embora a sua função plena se verifique apenas após o primeiro mês de vida. Nesta fase, é já possível avaliar a integridade da audição, através da realização de testes específicos, que idealmente deveriam ser realizados a todos os recém-nascidos, na tentativa de identificar precocemente potenciais casos de surdez.
A surdez em idade pediátrica, afeta significativamente o desenvolvimento da criança, a sua comunicação e vida de relação. A ligação entre a audição e a linguagem tem sido sobejamente relatada; são, por vezes, as dificuldades no desenvolvimento da linguagem, que levam os pais e os profissionais de saúde a suspeitar de perda auditiva. Nesse sentido, interessa realizar uma avaliação da audição, sempre que a suspeita surja.
Não obstante, a perda auditiva tem impacto em qualquer faixa etária, comprometendo não só a vida relacional e profissional, mas também a própria autonomia e saúde mental. Pode inclusivamente contribuir para o isolamento social, sobretudo em idades mais avançadas. Não são raros os casos em que, à semelhança do que acontece em idade pediátrica, também nos idosos, a surdez pode passar despercebida ou não ser valorizada, atrasando o diagnóstico e o tratamento da mesma, e impactando sobremaneira o sucesso da reabilitação.
Como é do conhecimento geral, a exposição continuada ao ruído, constitui uma etiologia importante no desenvolvimento da surdez ao longo da vida. Esta causa pode ser evitável, através da normalização da utilização de proteção auricular, seja no local de trabalho, seja durante atividades recreativas. De igual importância, é de referir a vigilância da audição, sobretudo em grupos de risco.
Urge, portanto, sensibilizar a população para a importância, quer da prevenção da surdez, quer da vigilância da mesma.
Importa ainda salientar que a perda auditiva não tem que ser irreversível. Casos existem, em que a medicação, a cirurgia e/ou a colocação de prótese auditiva, podem conferir ao doente uma melhoria substancial da qualidade auditiva e inumeráveis benefícios na qualidade de vida.”
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