É polémico, já motivou inúmeros estudos, é suspeito de estar na origem de diferentes problemas de saúde, mas apesar de tudo isto, a Comissão Europeia decidiu manter o glifosato autorizado até 2022. Agora, um novo estudo lança achas para a fogueira científica, ao afirmar que este herbicida causa efeitos negativos sobre o fígado humano.

É o primeiro trabalho deste tipo. Realizado por investigadores da San Diego School of Medicine, Universidade da Califórnia, o estudo examinou a excreção de glifosato nas amostras de urina de dois grupos de doentes: os que tinham diagnóstico de um tipo de doença hepática gordurosa não alcoólica (a esteato-hepatite não alcoólica) e os que não o tinham.

Os resultados foram significativos: independentemente da idade, raça, índice de massa corporal (IMC), etnia ou presença de diabetes, os resíduos de glifosato foram significativamente maiores naqueles com doença hepática gordurosa do que naqueles que apresentavam fígado mais saudável.

Segundo Paul J. Mills, professor e chefe do Departamento de Medicina Familiar e Saúde Pública da Universidade da Califórnia, estes resultados, juntamente com estudos anteriores realizados com animais, sugerem uma ligação entre o uso de glifosato comercial e a prevalência desta doença, pelo menos nos EUA.

“Tem havido um grupo de estudos, que citamos no nosso artigo, e todos apontam para a mesma coisa: o desenvolvimento da patologia do fígado associada ao glifosato”, refere o especialista. Situação que motivou a colocação da questão: então e nas pessoas?

Investigação longe do fim

O passo seguinte da investigação consiste em ter um grupo de doentes a fazer uma dieta totalmente orgânica e acompanhá-los ao longo de vários meses, examinando como uma alimentação livre de herbicidas pode afetar os biomarcadores da doença hepática.

O glifosato é o herbicida mais utilizado nos Estados Unidos. Foi desenvolvido e patenteado pela gigante de produtos agroquímicos Monsanto, nos anos 70, e as suas vendas representam aproximadamente 50% da receita anual da empresa.

“Os níveis crescentes de glifosato na urina das pessoas estão muito relacionados com o consumo de culturas tratadas com o herbicida”, refere Mills. Mas há ainda muito trabalho que precisa de ser feito, acrescenta.

“Existem muitos produtos químicos sintéticos aos quais estamos regularmente expostos”, refere o especialista. “Nós medimos apenas um.”