Desde o início da pandemia de Covid-19, há pouco mais de um ano, multiplicou-se o número de pessoas infetadas. De centenas a milhares, até chegar aos milhões, são dados que escondem histórias com um final feliz, histórias de doença mais simples e outras que se complicaram. A ciência procura encontrar as respostas capazes de levar de vencida o vírus de uma vez por todas, e agora dirige o seu olhar para o chamado ‘long Covid’ ou Covid de longo prazo, termo usado para descrever os efeitos da doença que se prolongam meses após a infeção inicial.

Mas o que é afinal este Covid de longo prazo? Desde abril de 2020 que os investigadores da UNSW Sydney, na Austrália, têm investigado os seus efeitos, em busca de melhores cuidados clínicos capazes de ajudar estas pessoas e preparar os serviços de saúde para o que pode vir em seguida.

É o que tem feito o estudo ADAPT, que segue pessoas com diagnóstico de Covid-19 em intervalos regulares, ao longo de um período mínimo de um ano após o diagnóstico.

No seu relatório mais recente, publicado no medRxiv, a equipa de especialistas revelou que apenas 80% dos doentes relataram uma recuperação completa em oito meses, não tendo havido uma melhoria significativa nos sintomas ou nas medidas de qualidade de vida associadas à saúde entre as avaliações feitas aos quatro e oito meses.

Gail Matthews, professora no Kirby Institute, e uma das principais investigadoras do estudo, considera não haver ainda uma definição clara para a Covid de longo prazo, tratando-se provavelmente de várias síndromes diferentes, com causas diferentes.

“Por norma, a Covid de longo prazo refere-se a pessoas que não recuperam da infeção aguda por Covid-19 e que passam a ter sintomas de longo prazo. A fase aguda da doença pode durar até duas semanas, mas além disso, a pessoa tem potencialmente uma doença pós-aguda, ou o que agora é chamado de ‘long Covid’”, refere.

Os sintomas mais comuns são fadiga, falta de ar, dor no peito e névoa cerebral, mas uma meta-análise sistemática, entretanto realizada, descreve 55 sintomas diferentes para a Covid de longo prazo.

“É muito difícil chegar a uma definição clara e não existe uma definição global aceite. Mas a maioria aceita os sintomas comuns como fadiga, falta de ar, aperto no peito, coração acelerado, dificuldade de concentração e confusão mental”, explica.

“Existem provavelmente várias síndromes diferentes que causam a Covid de longo prazo. Por outras palavras, a Covid de longo prazo não é apenas uma coisa. Pode haver muitas causas subjacentes para alguém se manter persistentemente sintomático três meses ou mais após a infeção.”

Quem são as pessoas que sofrem de Covid de longo prazo?

“As pessoas que ficaram muito doentes, que necessitaram de cuidados intensivos e de um ventilador ao longo de duas a três semanas, não estarão provavelmente totalmente recuperadas mesmo ao fim de três meses. Isso pode também acontecer com outras infeções e é o que chamamos de síndrome pós-cuidados intensivos. Certamente que algumas das pessoas que têm Covid há muito tempo enquadram-se nessa categoria.”

No entanto, a especialista considera que a coisa mais interessante sobre a Covid de longo prazo é que uma grande proporção de pessoas que sofreram apenas doença ligeira, não foram hospitalizadas, não tiveram pneumonia ou foram para a Unidade de Cuidados Intensivos não melhoraram 12 semanas após a infeção.

“A questão é: porque é que estas pessoas não estão melhores? Porque é que não recuperaram, como deviam, e como acontece quando têm gripe ou outra doença viral?”, questiona Gail Matthews.

“Sabemos, pelo estudo ADAPT, que 30% do nosso grupo não melhorou ao fim de 12 semanas. O que nos preocupa é que, nesta fase, mais pessoas já deveriam ter recuperado, porque já passaram seis meses após a infeção.”

De acordo com a especialista, este problema não se limita a idosos, uma vez que os participantes no estudo que lidera têm entre 18 a 80 anos, com a média de idades a rondar os 40.

“Realmente não entendemos porque é que os jovens adultos ainda não estão bem. Em alguns casos, apresentam evidências de miocardite, que é uma inflamação do coração. Noutros casos, não podemos encontrar evidências de danos em órgãos específicos, mas continuam a sentir fadiga intensa, quase como uma síndrome do tipo fadiga crónica”, explica a investigadora.

Mulheres duas vezes mais afetadas

São várias as teorias sobre o motivo que leva algumas pessoas a serem mais afetadas pela Covid de longo prazo. Uma delas tem a var com o facto de o vírus SARS-CoV-2, que causa a doença, ser muito bom a desencadear uma resposta imunológica e, em alguns indivíduos, essa resposta acaba por ser desencadeada de forma errada.

“É quase como se a resposta imunológica tivesse aumentado, mas não se desligasse. Então, a pessoa tem essa resposta crónica e aberrante, com o corpo a tentar reagir contra alguma coisa. E é por isso que as pessoas têm fadiga contínua e sintomas do tipo viral.”

Outra teoria refere um fenómeno autoimune, onde o vírus da Covid-19 desencadeia a autoimunidade, o que também pode explicar porque é que o vírus tem predomínio feminino, já que as mulheres tendem a ser duas vezes mais afetadas do que os homens.

“Sabemos que as mulheres têm tendência a sofrer mais de doenças autoimunes, talvez seja, por isso, que este problema é comum nas mulheres. Pode ser um processo autoimune, que é estimulado pelo vírus”, explica. “Também existe a teoria de que o vírus ainda está no corpo, mas lá no fundo – não é um vírus infeccioso ativo – e isso está a desencadear uma reação contínua em termos de resposta imunológica”, acrescenta.

Qual o papel da vacina nestes casos?

Casos recentes sugeriram que as vacinas ajudaram a reduzir os sintomas de Covid de longo prazo. Matthews considera a teoria interessante, mas sem fundamento.

“Certamente, todos concordamos que as pessoas que tiveram Covid-19 devem ser vacinadas porque, embora tenham anticorpos, eles começam a diminuir. Biologicamente, a teoria diz que, se ainda houver algum vírus escondido no corpo e nós ativarmos o sistema imunológico com outra dose de vacina, talvez isso ajude a desligar aquele sistema imunológico aberrante, mas não acredito que tenhamos qualquer evidência para sugerir que é esse o caso.”