Investigadores da Universidade de Lund, na Suécia, descobriram uma nova forma de tratar o vírus do herpes humano. A novidade abre caminho para o combate a infeções virais até aqui incuráveis

As infeções por vírus do herpes repetem-se ao longo da vida, por entre períodos de latência e reativações recorrentes, o que dificulta o tratamento.

O grande desafio está no facto de todos os medicamentos antivirais existentes para tratar o vírus do herpes levarem ao rápido desenvolvimento de resistência nos doentes com sistema imunitário comprometido, onde a necessidade de tratamento é maior (por exemplo, recém-nascidos, pessoas com VIH, cancro ou transplantados).

As propriedades moleculares e físicas de um vírus determinam o curso da infeção. No entanto, as propriedades físicas deste vírus foram, até agora, alvo de pouca atenção, segundo o investigador Alex Evilevitch, professor associado da Universidade de Lund que, juntamente com a sua equipa, publicou as novas descobertas na revista PLOS Pathogenes.

“Temos uma abordagem nova e exclusiva para estudar vírus com base nas suas propriedades físicas específicas”, explica. “A nossa descoberta marca um avanço no desenvolvimento de medicamentos antivirais, pois não visa proteínas virais específicas que podem sofrer mutações rapidamente, causando o desenvolvimento de resistência a medicamentos – algo que permanece não resolvido pelos medicamentos antivirais atuais contra herpes e outros vírus. Esperamos que a nossa pesquisa contribua para a luta contra infeções virais até agora incuráveis”, acrescenta.

Eliminar resistências

O vírus consiste numa fina camada proteica, um capsídeo e, dentro dele, está o seu genoma, os genes. Alex Evilevitch já tinha descoberto que o vírus do herpes tem uma alta pressão interna porque é fortemente compactado com material genético.

A pressão, que o especialista diz ser “quatro vezes maior do que aquela que existe numa garrafa de champanhe, permite que o vírus do herpes infete uma célula ao ejetar os seus genes em alta velocidade no núcleo da mesma, após a entrada no seu interior. A célula é então levada a tornar-se uma pequena fábrica de vírus, que produz novos vírus que podem infetar e matar outras células do tecido, levando a diferentes estadios de doença”.

Com a ajuda de vários outros estudos, foi agora possível identificar pequenas moléculas capazes de penetrar no vírus e “desligar” a pressão no genoma, sem danificar a célula. Estas moléculas revelaram ter um forte efeito antiviral, várias vezes superior ao tratamento padrão contra certos tipos de herpes, bem como contra estirpes resistentes.

Como todos os tipos de vírus do herpes têm estrutura e propriedades físicas semelhantes, este tratamento antiviral funciona em todos os tipos de vírus desta família.

“Os medicamentos disponíveis hoje para combater infeções virais são altamente especializados contra as proteínas virais e, se o vírus sofrer mutações, o que ocorre regularmente, o medicamento será ineficaz”, refere.

“No entanto, se for possível desenvolver um tratamento que ataca as propriedades físicas de um vírus, como diminuir a pressão dentro do invólucro do vírus, torna-se possível combater muitos tipos diferentes de infeções virais dentro da mesma família de vírus usando o mesmo medicamento. Além disso, funcionaria mesmo com mutação, porque as mutações não afetam a pressão interna do vírus do herpes.”

Este é, segundo o especialista, “um primeiro passo em direção ao objetivo de desenvolver um medicamento”, existindo já “dados preliminares positivos que mostram que uma infeção por herpes pode ser interrompida para todos os tipos de vírus, incluindo as estirpes resistentes”.