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Saúde renal feminina continua negligenciada, atrasando oportunidades de prevenção e tratamento

saúde renal das mulheres

A doença renal crónica afeta cerca de uma em cada 10 mulheres em todo o mundo, mas o diagnóstico é normalmente tardio e as mulheres têm menos probabilidade de receber tratamentos essenciais, como diálise ou transplante renal, em comparação com os homens, mostra uma nova declaração científica da American Heart Association publicada na revista Circulation, sobre a saúde renal feminina.

A declaração sugere melhorar os cuidados renais femininos, reconhecendo como a biologia e os fatores sociais específicos das mulheres afetam a saúde renal e desenvolvendo investigação que inclua análises da função renal e dos medicamentos para a doença renal crónica específicas para cada sexo.

“Muitos casos não são diagnosticados em mulheres porque os exames e pesquisas comuns nem sempre refletem a biologia e as fases da vida das mulheres”, explica Eman Y. Gohar, coordenadora voluntária do grupo de redação da declaração científica.

“As diferenças biológicas incluem a genética, os cromossomas sexuais, as hormonas, as respostas do sistema imunitário e as diferenças na forma como o corpo processa e responde aos medicamentos”, afirma Gohar. “Também precisamos de reconhecer fatores específicos do sexo feminino que não se aplicam da mesma forma aos doentes do sexo masculino. Isto inclui a saúde menstrual, a gravidez, as alterações pós-parto e a menopausa, bem como fatores socioeconómicos, como barreiras financeiras ou expectativas culturais. Cada um destes fatores cria considerações exclusivas para as mulheres e pode exigir cuidados personalizados”.

A declaração científica “Saúde Renal Feminina em Foco” enumera sete desafios que as mulheres enfrentam no tratamento renal:

  1. Sub-representação em ensaios clínicos
  2. Menor acesso ao tratamento
  3. Encaminhamentos atrasados
  4. Resultados adversos na gravidez
  5. Menopausa
  6. Mais efeitos adversos dos medicamentos para o tratamento renal
  7. Menores taxas de transplante renal
  8. Efeitos dos medicamentos e sub-representação em ensaios clínicos

De acordo com a declaração, as mulheres podem ter respostas diferentes aos medicamentos para o tratamento renal em comparação com os homens, mas continuam a estar sub-representadas nos ensaios clínicos.

“As mulheres não são simplesmente versões mais pequenas dos homens”, alerta Gohar, professora assistente de Medicina no Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville, no Tennessee. “A biologia, as fases da vida reprodutiva e as respostas aos medicamentos podem diferir, e estas diferenças precisam de ser consideradas na prática clínica e na investigação.”

As mulheres e os homens podem responder de forma diferente aos medicamentos devido às diferenças na forma como são absorvidos, distribuídos, metabolizados e eliminados do organismo. De facto, a investigação laboratorial aponta para os recetores de estrogénio como tendo um potencial papel na função renal feminina.

A função renal é comummente estimada através da creatinina, um produto residual gerado pelos músculos. Como as mulheres têm geralmente menos massa muscular e podem produzir menos creatinina, estas estimativas nem sempre refletem com precisão a função renal, fazendo com que a doença renal em algumas mulheres seja classificada incorretamente ou diagnosticada tardiamente.

Saúde renal e saúde reprodutiva

“A saúde renal e a saúde reprodutiva estão interligadas”, refere Gohar. “A gravidez, a saúde menstrual e a menopausa podem fornecer informações importantes sobre a saúde renal atual e futura da mulher.”

A gravidez em mulheres com doença renal crónica pode aumentar o risco de progressão da doença e de complicações na gravidez. Recomenda-se que estas doentes que planeiam engravidar tomem medidas para controlar a pressão arterial, o açúcar no sangue e o peso corporal.

Nas mulheres sem doença renal crónica, as complicações na gravidez, como a pré-eclâmpsia, podem sinalizar um risco aumentado de doença renal, doença cardíaca e acidente vascular cerebral no futuro.

A menopausa natural antes dos 45 anos e a remoção cirúrgica dos ovários antes dos 50 anos estão associadas a um maior risco de doença renal crónica. Outros fatores que também contribuem para a doença após a menopausa incluem o aumento da obesidade, diabetes tipo 2 e colesterol elevado.

A declaração sugere que a inclusão da avaliação da saúde reprodutiva nos cuidados da doença renal crónica é um passo importante para o avanço da medicina renal de precisão.

Além da gravidez e da menopausa, outras condições específicas da mulher afetam o risco de doença renal crónica: são os casos da síndrome dos ovários policísticos, uma doença hormonal comum entre as mulheres, e do lúpus, uma doença autoimune mais comum nas mulheres do que nos homens.

Dificuldades no acesso a cuidados se saúde renal atempados

As mulheres tendem a iniciar a diálise com um nível de função renal inferior ao dos homens, o que indica um atraso no início do tratamento. Têm também menor probabilidade de receber um transplante renal: globalmente, os homens recebem transplantes renais cerca de 30% mais frequentemente do que as mulheres.

A pobreza, o baixo nível de conhecimentos sobre saúde, as responsabilidades de cuidar de outras pessoas, as expectativas culturais, o apoio limitado e os custos do tratamento podem atrasar o diagnóstico ou dificultar o acesso a cuidados especializados. Estas barreiras podem ser especialmente graves em ambientes com poucos recursos, onde o acesso a nefrologistas, diálise ou transplantes é limitado.

Oportunidades para melhorar os cuidados renais para mulheres

A declaração identifica prioridades de investigação que incluem o recrutamento de um número suficiente de mulheres para ensaios clínicos, para determinar se os tratamentos afetam as mulheres e os homens de forma diferente, reportando os resultados por sexo e fatores específicos da saúde reprodutiva. A investigação futura poderá ajudar os profissionais de saúde a detetar a doença renal mais precocemente e a escolher tratamentos mais seguros e eficazes.

Crédito imagem: istock

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