Internistas responsáveis por 23% de todos os doentes saídos dos hospitais do SNS

Por País

Em 2017, os internistas foram responsáveis, só nos hospitais do SNS, pela realização de cerca de 587 mil consultas e pelo atendimento da grande maioria das quatro milhões e 600 mil admissões nas urgências gerais dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Números apresentados no congresso que reúne estes especialistas.

Portugal tem mais de 2.600 internistas inscritos na Ordem dos Médicos, mais de 1.700 dos quais apenas nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O que significa que 8,6% da totalidade dos médicos nestes hospitais são internistas, que dão resposta a milhares de doentes e de consultas: em 2017, saíram dos serviços de Medicina dos hospitais do SNS 188.307 doentes, o que representa mais de 42% dos internamentos médicos (440.188) e 23% de todos os doentes saídos dos hospitais do SNS (802.129).

Estes e outros números foram apresentados esta sexta-feira (1 de junho) na Sessão Solene de Abertura do 24º Congresso Nacional de Medicina Interna, que decorre até ao próximo domingo (dia 3), no Centro de Congressos do Algarve, nos Salgados, por Luís Campos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que cessa agora as suas funções.

O especialista tomou a palavra para mostrar, com recurso aos números, porque é que a Medicina Interna é uma “especialidade nuclear para o sistema de saúde” nacional.

“Em 2017 realizamos, só nos hospitais do SNS, cerca de 587 mil consultas (586.781) e fomos responsáveis pelo atendimento da grande maioria das quatro milhões e 600 mil admissões nas urgências gerais dos hospitais do SNS.”

A estes dados, que confirmam o peso e importância do papel dos internistas, juntam-se vários outros números. “Os serviços de Medicina, nos últimos 10 anos, têm tido uma taxa de ocupação média entre os 102 e os 130%, enquanto a taxa de ocupação média nos hospitais situa-se entre os 80 e os 85%.”

“Os serviços de Medicina Interna foram responsáveis, em 2017, por 85% dos internamentos por pneumonia, 81% dos internamentos por insuficiência cardíaca, 70% dos internamentos por acidente vascular cerebral, 80% dos internamentos por DPOC e 82% dos internamentos por lupus”, apontou Luís Campos, que acredita “que o sistema de saúde e os doentes precisam cada vez mais da Medicina Interna”.

Uma afirmação que justifica socorrendo-se, uma vez mais, de números, que falam bem alto. “A evolução demográfica, particularmente o aumento da esperança de vida, faz com que atualmente tenhamos dois milhões de idosos e que, em 2050, se preveja que tenhamos três milhões e meio. Isto vai fazer aumentar o número de doentes crónicos e particularmente o número de doentes com multimorbilidades.”

Uma ‘peça’ indispensável no SNS

O crescimento do conhecimento é, segundo Luís Campos, outro fator que confirma a necessidade dos internistas e das suas consultas. “Estima-se que o conhecimento em geral duplique a cada treze meses. Isto origina uma fragmentação das especialidades, uma hiperespecialização, gente que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Isto é inexorável, mas os doentes andam ao contrário e precisam que tomem conta deles de uma forma global.”

Finalmente, Luís Campos chamou a atenção para uma “ameaça à sustentabilidade do sistema induzida pela introdução da inovação, particularmente por medicamentos que são cada vez mais caros. A necessidade de maior racionalidade, de escolhas custo-efectivas e o combate ao desperdício vão ser cada vez mais uma prioridade”.

Porque os internistas em Portugal “mantiveram uma capacidade holística, cada vez mais inestimável, são flexíveis, multipotenciais e eficientes e estão preparados para liderar novas modelos de prestação de cuidados mais adaptados aos doentes”, serão eles os protagonistas preferenciais de uma mudança que urge operar.

Uma mudança que, segundo Luís Campos, passa pela “criação de departamentos de medicina geridos por internistas, implementação de unidades diferenciadas, como unidades de AVC, de insuficiência cardíaca, de cuidados intermédios, de geriatria, de doenças autoimunes e outras; de modelos de cogestão dos doentes cirúrgicos, de alternativas aos internamentos, como a hospitalização domiciliária, unidades de diagnóstico rápido e uma melhor utilização dos hospitais de dia”.

Passa ainda por “programas de integração entre os diferentes níveis de cuidados, que garantam a continuidade de cuidados e retirem os doentes crónicos das urgências” e passa ainda por “novos modelos de resposta aos doentes agudos e pela implementação dos cuidados paliativos”.

Os números apresentados são da Administração Central do Sistema de Saúde, tendo sido trabalhados pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Internistas debatem desafios sociais dos serviços de saúde

Por Marque na Agenda

Em tempo de desafios, que nos últimos tempos se têm colocado de forma quase constante aos serviços de saúde, os internistas reúnem-se em congresso para os debater e, dando especial destaque ao “envelhecimento da população e consequentes comorbilidades”, “alternativas ao internamento e a necessidade da redução do número de doentes que acorrem aos serviços de urgência hospitalares”.

Desafios que Estevão de Pape, Presidente do 24.º Congresso Nacional de Medicina Interna, organizado pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, não tem dúvidas “que deverão ser liderados por profissionais de medicina interna, muito pelas qualidades e formação dos seus internistas”.

O encontro servirá também, de acordo com o especialista, como oportunidade para “consolidar conhecimentos” e explicar como “a base holística e a diversidade dos profissionais de medicina interna contribuem para um melhor funcionamento dos serviços de saúde nacionais e, particularmente, dos hospitais”.

De 31 de maio a 3 de junho, o Centro de Congressos do Algarve, nos Salgados, vai ser palco do maior encontro nacional da especialidade, com apresentação de estudos, discussões de temas e apresentações sobre complicações Clínicas em internamentos prolongados por motivo social após alta clínica, caracterização de serviços de medicina, alternativas ao internamento convencional, inovação em saúde ou questões éticas em fim de vida.

Internistas, a “força motriz da vida hospitalar”

Subordinado ao lema ‘Medicina Interna 100 Margens’, o encontro pretende mostrar como “a Medicina Interna não deve ter limites ou margens. Não devemos fechar-nos no hospital sem falar com outras especialidades. Não nos devemos fechar à comunidade e ao doente e aos desafios atuais”, refere Estevão Pape.

“A Medicina Interna é o grande pilar dos hospitais, a força motriz da vida hospitalar, com uma visão global única. Temos de saber liderar mas também ter a responsabilidade da dedicação sem limites, aplicando à doença, e ao doente, todas as áreas da medicina interna e interligando-as para tirar daqui o melhor partido.”

Ver também: Sociedades de Medicina Interna ibéricas unidas na luta pelos sistemas de saúde

Internistas acusam reumatologistas de ataque contra a especialidade

Por Atualidade

À acusação dos reumatologistas, que denunciaram o facto de as doenças do foro reumatológico estarem a ser encaminhadas para as consultas de doenças autoimunes, da alçada da Medicina Interna, a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) responde, acusando os colegas de lançarem um ataque contra os internistas.

Em comunicado feito em conjunto com o Colégio da Especialidade de Medicina Interna da Ordem dos Médicos, a SPMI “lamenta profundamente”, alegando que a Sociedade Portuguesa de Reumatologia, que em carta ao Ministro da Saúde chama a atenção para o assunto, “presta um mau serviço aos doentes, revela um comportamento eticamente reprovável e uma absoluta ausência de escrúpulos na defesa de interesses corporativos, assumindo uma posição que é do foro dos colégios de especialidade da Ordem dos Médicos e na qual, seguramente, muitos reumatologistas não se revêem”.

Mais ainda, alega que “este ataque”, que considera não ter “paralelo na história da relação entre sociedades científicas”, põe em causa “o bom nome, a honorabilidade e a competência profissional dos médicos internistas”, representando “uma grave infração ao código deontológico da Ordem dos Médicos”.

“A SPMI e o CEMI na defesa do bom nome dos médicos que representam e da qualidade dos serviços prestados aos doentes, reservam-se o direito de, por todos os meios ao seu alcance e dentro dos limites das suas competências, exigir a reposição da verdade dos factos. Igualmente serão promovidas as ações necessárias junto do senhor Ministro da Saúde e do Bastonário da Ordem dos Médicos.”

Medicina Interna: uma especialidade “nuclear”

A SPMI e a CEMI salientam que a Medicina Interna “é uma especialidade nuclear no sistema de saúde português, sendo a especialidade mais numerosa nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, assegurando as urgências, o internamento, o apoio aos outros serviços no hospital, as consultas, os hospitais de dia, unidades diferenciadas e programas de integração com os outros níveis de cuidados”.

Abrange, por isso, “enquanto especialidade generalista”, todos os doentes “com doenças médicas de todos os órgãos ou sistemas, estando particularmente vocacionada para os doentes com múltiplas patologias, com doenças sistémicas e sem diagnóstico”.

É o que acontece com as doenças autoimunes, que “têm manifestações sistémicas frequentes, largo espectro de gravidade e, por vezes, complicações graves relacionadas com os medicamentos usados”, sendo situações “para as quais os internistas, especialmente aqueles que asseguram as consultas ou unidades de doenças autoimunes, possuem a formação necessária”. 

“Em Portugal, os Serviços de Medicina Interna asseguram consultas de doenças autoimunes em todos os hospitais do SNS e é graças a estas consultas que milhares de doentes têm acesso a uma abordagem diferenciada e a terapêuticas inovadoras. A Medicina Interna tem um registo de doenças autoimunes, faz formação, tem investigação publicada nas melhores revistas internacionais e tem vários doutorados nesta área”, lê-se no comunicado. 

Nestas e noutras áreas, como a diabetes, AVC, insuficiência cardíaca ou cuidados paliativos. “Pôr em causa a possibilidade de Medicina Interna ter consultas temáticas na sua área é pôr em causa as consultas temáticas de todas as especialidades, o que é um absurdo à luz da prática de uma medicina moderna”, defendem os internistas.

 

SPMI solidária com especialistas do Hospital de Faro

Por Atualidade

A direção da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), através de uma declaração pública, mostra-se solidária com os diretores dos três serviços de Medicina Interna do Hospital de Faro que, há poucos dias, colocaram o seu lugar à disposição na sequência de acusações do diretor de departamento de que os internistas viam mal os doentes, pediam exames a mais e não davam altas atempadas.

“Portugal tem a sorte de poder contar com internistas competentes e eficientes”, refere Luis Campos, presidente da SPMI, salientando que estes “põem os doentes no centro das suas preocupações, estão na vanguarda das inovações organizacionais, suportam nas urgências o acréscimo sazonal de doentes, assistem doentes internados que excedem em muito a lotação dos seus serviços, passam muito do seu tempo a tentar resolver os problemas sociais dos doentes, garantem também as urgências internas, estão nas unidades de cuidados intermédios, de Acidente Vascular Cerebral, de Insuficiência Cardíaca, nos hospitais de dia e nas consultas”.

Segundo Luis Campos, “os especialistas de Medicina Interna conseguem tudo isto à custa de muito trabalho realizado para lá dos seus horários, muitas noites passadas no hospital e sem qualquer tipo de incentivo por produção adicional”.

E isto apesar de a “visibilidade mediática das urgências e a incapacidade dos hospitais adaptarem o seu modelo organizacional à evolução demográfica dos doentes a quem têm de dar resposta” colocarem “os internistas no olho do furacão e debaixo de uma pressão repetida das administrações”.

Acusações “profundamente injustas”

O especialista salienta que “os colegas de hospital de Faro fazem parte desta gesta de internistas que tudo tem feito para que as consequências da crise económica, que ainda não terminaram no sector da saúde, não recaiam sobre os doentes”.

E avança alguns números: “os serviços de Medicina deste hospital estão atualmente com uma taxa de ocupação de cerca de 150%. Mais de 20% destes doentes já teve alta clínica, mas permanecem internados por motivos sociais ou a aguardar vaga na Rede de Cuidados Continuados, inscrevendo-se a sua demora média na média nacional”.

Números que, garante, “são semelhantes aos da grande maioria dos serviços de Medicina dos hospitais do SNS”, assim como são semelhantes também “as suas angústias pela impotência sentida perante as disfunções e as carências do sistema”.

“A atividade, a competência e a dedicação dos internistas do hospital de Faro, como a de todos os internistas em todos os hospitais do SNS é digna de reconhecimento, de estímulo e de incentivo, e é por isso que consideramos profundamente injustas as acusações feitas a estes colegas e é por isso que as sentimos como se tivessem sido feitas a todos os internistas portugueses”, refere.

“Esta atitude não pode ser desvalorizada por quem tem a responsabilidade pelo bom desempenho dos hospitais do SNS. Estas atitudes têm um efeito desmotivador e a motivação é uma das principais armas que restam a quem tem de gerir equipas. Estas atitudes empurram os melhores para fora do SNS. É crucial dar sinais concretos de apoio, incentivo e recompensa à Medicina Interna portuguesa, porque os nossos doentes vão precisar cada vez mais de internistas competentes e motivados.”