Os investigadores do Sinai Health, no Canadá, demonstraram que um teste sanguíneo pode prever a doença de Crohn anos antes do aparecimento dos sintomas, abrindo caminho para o diagnóstico precoce e, potencialmente, para a prevenção.
O exame mede a resposta imunitária de uma pessoa à flagelina, uma proteína presente nas bactérias intestinais. Esta resposta encontra-se elevada muito antes do desenvolvimento da doença de Crohn, segundo uma equipa liderada por Ken Croitoru, médico-cientista do Instituto de Investigação Lunenfeld-Tanenbaum, que integra o Sinai Health.
A doença de Crohn é um problema inflamatório crónico gastrointestinal que causa sintomas digestivos persistentes, dor e fadiga, afetando significativamente a qualidade de vida.
A presença de anticorpos contra a flagelina muito antes do aparecimento de quaisquer sintomas sugere que esta reação imunitária pode contribuir para o desencadeamento da doença, em vez de ser uma consequência da mesma, explica Croitoru, que acredita que uma melhor compreensão deste processo inicial pode abrir caminho a novas abordagens para prever, prevenir e tratar a doença.
“Com toda a terapêutica biológica avançada que temos hoje, as respostas dos doentes são, na melhor das hipóteses, parciais. Ainda não curámos ninguém e precisamos de melhorar”, afirma o especialista.
Descoberta potencia vacina para Doença de Crohn
Esta investigação faz parte do Projeto Genético, Ambiental e Microbiano, que integra mais de 5.000 familiares de primeiro grau saudáveis de pessoas com doença de Crohn e que, desde 2008, recolhe dados genéticos, biológicos e ambientais para melhor compreender como a doença se desenvolve. Até à data, 130 participantes desenvolveram a doença de Crohn, proporcionando aos investigadores uma oportunidade rara de estudar as fases iniciais da pré-doença.
Anteriormente, a equipa descobriu que, muito antes do desenvolvimento da doença de Crohn, pode surgir uma resposta imunitária inflamatória dirigida às bactérias intestinais. Em indivíduos saudáveis, as bactérias coexistem pacificamente no intestino e desempenham um papel essencial na manutenção da saúde digestiva. Na doença de Crohn, no entanto, o sistema imunitário parece desencadear uma resposta anormal contra micróbios normalmente benéficos.
Colaboradores da Universidade do Alabama, liderados por Charles Elson, já tinham desenvolvido um teste para detetar anticorpos contra a flagelina e demonstraram que os indivíduos com doença de Crohn apresentam níveis elevados de anticorpos dirigidos à flagelina provenientes de bactérias da família Lachnospiraceae.
Os especialistas queriam agora determinar se esta resposta imunitária pode também ser detetada em indivíduos saudáveis com risco de desenvolver a doença. “Será que as pessoas saudáveis que estão em risco de desenvolver a doença têm estes anticorpos contra a flagelina?”, questiona Croitoru. “Investigamos, medimos e, sim, pelo menos algumas delas possuem.”
Este estudo acompanhou 381 familiares de primeiro grau de doentes com doença de Crohn, 77 dos quais que desenvolveram a doença posteriormente, e 28 pessoas, mais de um terço, apresentaram níveis elevados de anticorpos. As respostas foram mais fortes em irmãos, destacando o papel da exposição ambiental partilhada, como demonstrado anteriormente por Croitoru.
Os investigadores confirmaram também que esta resposta pré-doença à flagelina da Lachnospiraceae estava associada à inflamação intestinal e à disfunção da barreira intestinal, ambas características da doença de Crohn. O período típico entre a colheita da amostra de sangue e o diagnóstico da doença de Crohn nos indivíduos pré-doença foi de quase dois anos e meio.
“Confirmando o nosso estudo anterior: a resposta imunitária contra as flagelinas bacterianas apresenta uma forte associação com o risco futuro de doença de Crohn em familiares saudáveis de primeiro grau”, afirma Lee. “Descobrimos que esta resposta imunitária é impulsionada por um domínio conservado da proteína flagelina. Isto aumenta o potencial para o desenvolvimento de uma vacina dirigida à flagelina em indivíduos selecionados de alto risco para a prevenção da doença. Estão a decorrer estudos adicionais de validação e elucidação dos mecanismos.”
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