“É preciso fazer mais para atrair e reter os enfermeiros de diálise, que são cada vez menos e sem os quais não é possível realizar os tratamentos, e é preciso também ter em conta os problemas financeiros crescentes, que se traduzem numa “asfixia das unidades, o que é já hoje uma realidade e impossível de ignorar”, afirma Paulo Dinis, presidente da Direção da Associação Nacional de Centros de Diálise (ANADIAL), no evento anual subordinado ao tema “Sustentabilidade Estratégica da Diálise: Agenda para 2040”, que discutiu o futuro da diálise em Portugal.
“Os centros de diálise que a ANADIAL agrega, cerca de 90% dos centros privados do País, funcionam perfeitamente integrados com o sistema de saúde e satisfazemos, de forma profissional e eficiente, as necessidades em Portugal. Contudo, o valor do preço compreensivo não era aumentado há 18 anos e o aumento recente não reflete a necessidade de recuperação nem as necessidades dos centros, ao passo que os tratamentos continuam a ser de topo, mesmo com todos os custos e fatores de produção a subir ano após ano. Esta é uma equação insustentável que ameaça, no curto e médio prazo, toda a rede de proximidade que demoramos 40 anos a construir”, refere.
“Estamos na presença de um caso de sucesso inegável na saúde em Portugal, uma parceria ímpar entre o Sistema Nacional de Saúde e os centros de diálise, que estão sempre abertos, sempre disponíveis e sempre eficientes”, conclui.
A esta questão junta-se outra que preocupa de igual forma o setor: os problemas em termos de recursos humanos, sobretudo no que diz respeito à dificuldade em atrair e reter enfermeiros. Os especialistas presentes no evento confirmam que o grande problema começa e acaba com a saída dos jovens recém-formados do país: “Portugal tem deixado de ser atrativo para os enfermeiros. Cerca de 20% dos enfermeiros que saem da academia vão diretamente para o exterior. Estamos a falar de cerca de 600 a 700 enfermeiros por ano”, refere Abílio Silva, da Ordem dos Enfermeiros.
A questão não passa pelas competências, como esclarece João Fazendeiro Matos, Responsável de Qualidade e Cuidados e Chefe da Equipa de Crise Local em Portugal e Coordenador de Enfermagem para EMEA na Fresenius Medical Care. “O nosso problema não é a formação, mas a retenção. É parar a sangria de enfermeiros. Estamos a pagar, com os nossos impostos, esta formação para depois um terço se ir embora.”
Ana Filipa Ramos, professora Adjunta da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa, considera que existe uma assimetria entre as expectativas dos jovens estudantes e o que encontram na prática clínica, salientando ainda outro tipo de problemas. “Temos percebido que, a nível do ensino superior, também os nossos estudantes têm alguns níveis de ansiedade e de depressão que são superiores ao que tínhamos antes”, o que aumenta a preocupação com o bem-estar e tem levado à criação “de alguns programas com inclusão da inteligência artificial e da tecnologia, para inovar naquilo que é educação para a saúde”.
Clemente Neves Sousa, presidente da Direção da APEDT – Associação Portuguesa de Enfermeiros de Diálise e Transplantação, chama a atenção para a questão dos dados: para atrair estes profissionais é primeiro essencial “identificar os perfis dos profissionais que trabalham em diálise e perceber porque é que saem do país ou desistem a formação, uma vez que sem saber não é possível atrair”. Ainda assim, todos concordam que a resposta passará por menos horas de trabalho e sobretudo pela valorização dos enfermeiros.
Ambiente, sustentabilidade e boa gestão
Quando se trata de definir a estratégia da diálise para os próximos anos, a questão ambiental destaca-se. Luís Campos, presidente da Direção do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, alerta para o impacto das alterações climáticas na saúde e para o do setor da saúde no ambiente, nomeadamente no que diz respeito à hemodiálise, “uma das áreas com maior impacto ambiental”, responsável por um consumo de milhões de litros de água, muitos quilowatts de energia e milhões de quilos de desperdício.
“A diálise é uma das áreas com maior pegada ambiental”, confirma Ivo Laranjinha, médico nefrologista. “É um tratamento recorrente, crónico, repetido e cuja pegada se mantém, ao contrário de outras intervenções”.
Tecnologia e políticas de saúde
O encontro contou ainda com a intervenção de Paulo Urbano, presidente da Direção da APIR – Associação Portuguesa de Insuficientes Renais, que partilhou o impacto de viver com uma doença renal crónica e de fazer diálise. E porque falar do futuro é, inevitavelmente, falar dos avanços tecnológicos e de como vão integrar esse futuro, Sérgio Laranjo, Diretor Académico do Centro de Conhecimento NOVA AI-MED e Investigador Principal e Subdiretor do D³@NOVA, abordou o tema da tecnologia para um melhor cuidado, reforçando que o seu objetivo “é ser um vetor de otimização de todos os processos. É uma das formas de garantir sustentabilidade”.
Uma intervenção em que se discutiu a importância dos dados, da sua recolha e de os trabalhar, “para permitir melhores cuidados, a descentralização e a eficiência operacional”, e se abordaram também os avanços permitidos pela Inteligência Artificial e as vantagens que a tecnologia pode trazer ao tratamento e gestão da doença renal crónica.
Houve ainda tempo para mais uma mesa-redonda, sobre os Modelos de diálise e políticas de saúde: o caminho para 2040, que abordou a importância da integração dos cuidados, a necessidade de ter o doente no centro e a atualização do preço compreensivo. E para o anúncio da abertura de candidaturas para a 5.ª edição do Prémio de Investigação ANADIAL, no valor de 10 mil euros, que premeia os melhores estudos clínicos e avaliações epidemiológicas na área da insuficiência renal crónica, sobretudo ao nível da prevenção e da melhoria de cuidados da doença renal crónica.
A ANADIAL convidou, para o seu evento anual, representantes do Ministério da Saúde, Secretaria de Estado da Saúde, Administração Central do Sistema de Saúde, Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde e Comissão de Implementação e Monitorização da Estratégia Nacional para a Doença Renal Crónica (CIMEN-DRC), mas estes optaram por não participar na discussão.
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