Muito do que se diz sobre fertilidade chega em forma de factos, números e estatísticas: taxas de sucesso, protocolos, probabilidades. Mas quem enfrenta problemas de infertilidade raramente precisa de mais um número, mas sim de alguém que já fez aquele caminho e que partilha, sem filtros, o que sentiu ao longo dele. Foi este o princípio orientador por detrás de ‘O Lado Beta’, um podcast de histórias reais, contadas por quem as viveu e orientado por quem acompanha estes processos todos os dias. E porque nem todas as histórias de infertilidade terminam com um final feliz, este é um espaço onde se partilham sucessos, mas também os insucessos e tudo o que fica por dizer entre os dois.
Criado por Filipa Rafael, ginecologista especializada em fertilidade, e por Daniela Silva, psicóloga dedicada à saúde reprodutiva, com o apoio da Gedeon Richter Portugal e de outros parceiros, o projeto junta duas perspetivas que se cruzam no mesmo espaço: a clínica e a emocional.
O nome inspira‑se na hormona beta‑hCG, pedida após os tratamentos de fertilidade para confirmar, ou não, uma gravidez. Mas remete também para o “lado beta” da infertilidade, o lado menos visível e, por vezes, mais sombrio deste percurso. É precisamente essa dimensão que o podcast procura trazer à luz: os medos, as perdas, as dúvidas, a culpa, a frustração e todas as emoções que existem para lá dos números, dos protocolos e dos resultados dos tratamentos. Dar palco ao que habitualmente fica por contar é, na verdade, um dos pilares centrais do projeto.
“O objetivo deste podcast é, acima de tudo, falar mais sobre fertilidade e infertilidade, isto porque há não só um desconhecimento muito grande sobre aquilo que é a fertilidade do homem e da mulher, mas um desconhecimento ainda maior sobre tudo o que envolve os processos de infertilidade”, explica Daniela Silva. Algo que Filipa Rafael identifica na sua prática diária: “As pessoas andam perdidas, durante anos, sem saber a quem recorrer, sem identificarem erros que estão a cometer.”
A jornada de quem procura ajuda continua repleta de obstáculos, como confirmam os testemunhos partilhados em cada um dos episódios. “Há travões, erros e perdas de tempo que vão acontecendo ao longo do percurso e que poderiam ser otimizados. Não falo exclusivamente de uma lista de espera, mas dos atrasos no diagnóstico. Porque, efetivamente, os travões são a falta de apoio da sociedade, a falta de conhecimento de todas as pessoas à volta de quem enfrenta estes processos. A grande maioria tem isso como constante: a necessidade de recorrer a vários profissionais para finalmente obter respostas”, confirma Filipa Rafael.
Apesar de existirem várias fontes de informação sobre o tema, a especialista considera que tendem a ser “muito clínicas, muito teóricas e às vezes deixam os doentes ainda mais perdidos. O que é preciso é normalizar esta discussão. E é totalmente diferente para alguém que está a passar por isto ouvir o médico a dizer-lhe que a taxa de sucesso é 30% por transferência de embrião, ou conhecer histórias de outros doentes que fizeram três, quatro, cinco transferências e só a décima é que funcionou. Com esta mudança de perspetiva, as pessoas percebem que não são os únicos a ter estes altos e baixos, o que pode ser uma verdadeira mais-valia”.
Daniela Silva confirma que, “muitas das vezes, os próprios tratamentos de fertilidade são extremamente desafiantes e difíceis, ao qual se junta o sofrimento psicológico associado, que é elevadíssimo. E uma coisa é termos um artigo científico que diz que homens ou mulheres que passam por processos de infertilidade têm maior risco de depressão, outra coisa é ouvir o que uma pessoa sente perante este processo, o que é que fez e quais eram os seus pensamentos”.
O tabu à volta da infertilidade
O tabu persiste, confirma Daniela Silva, que salienta que “a partilha por parte do indivíduo ou do casal é muito restrita porque, normalmente, as outras pessoas são olhadas com pena. E a verdade é que é tão normal ser fértil como infértil, não é algo que acontece só a uma pessoa. Há, por isso, a necessidade de se normalizar e quebrar alguns tabus, assim como alguns mitos associados”.
A primeira temporada conta com 17 episódios, todos com convidados reais que partilham as suas histórias na primeira pessoa, e está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no YouTube e no Instagram. O objetivo das criadoras vai além do entretenimento: posicionar o Lado Beta como uma referência sobre infertilidade junto do público em geral, da comunidade médica e da imprensa, e ajudar a colmatar a falta de informação sobre um tema que continua a ser tratado com silêncio.
O grande objetivo aqui é, confirma Daniela Silva, “que entidades, empresas, escolas falem mais sobre saúde reprodutiva, que as pessoas fiquem mais conscientes, não só a nível médico, como também a nível psicológico, que falem mais sobre a infertilidade, para que quem vive este processo possa libertar um bocadinho as amarras da vergonha em relação ao tema. Porque não é vergonha nenhuma: estamos a falar de uma condição médica como outra qualquer”.
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