Os erros médicos continuam a ser uma das principais causas de morte no mundo, rivalizando com as doenças cardíacas e o cancro. E embora a medicina tenha feito progressos notáveis no tratamento de doenças, avançou muito menos na prevenção de danos evitáveis. Um novo artigo, realizado por Mayer Brezis, da Universidade Hebraica de Jerusalém, examina qual a razão pela qual os esforços para reduzir os erros médicos falham frequentemente e o que é necessário mudar para proteger os doentes.
O artigo defende que as maiores barreiras à segurança do doente não são tecnológicas ou científicas, mas culturais. O medo das consequências legais, a postura defensiva institucional e uma relutância generalizada em assumir responsabilidades levam frequentemente as organizações de saúde a negar ou ocultar os erros em vez de aprender com eles. Esta abordagem de “negar e defender”, explica Brezis, impede correções significativas e permite que os mesmos erros se repitam.
Brezis baseia-se em décadas de trabalho em matéria de qualidade e segurança na área da saúde, bem como numa tragédia familiar pessoal, para ilustrar como a resistência à transparência pode atrasar reformas que salvam vidas. Destaca as falhas de comunicação como uma das principais causas de erros médicos, referindo que muitos profissionais de saúde hesitam em falar quando algo parece errado, por medo de serem culpados ou de sofrerem represálias. As evidências dos sistemas de saúde e de outras áreas de alto risco mostram que os ambientes que carecem de segurança psicológica são muito mais propensos a falhas catastróficas.
“Os erros tornam-se fatais quando os sistemas se recusam a aprender com eles”, afirma Brezis. “Reconhecer a falha e assumir a responsabilidade não significa atribuir culpas. Significa prevenir a próxima tragédia e dar sentido ao sofrimento que já ocorreu. Aprendi isto na primeira pessoa após a morte do meu neto, cujo complexo defeito cardíaco não foi detetado numa ecografia durante a gravidez. Após a tragédia, o rastreio universal por oximetria de pulso foi implementado em todo o país, uma medida que provavelmente salva dezenas de crianças todos os anos do mesmo destino”.
O artigo defende uma mudança para uma cultura de abertura, humildade e escuta respeitosa, na qual os erros são revelados, discutidos e abordados de forma construtiva. O especialista sublinha que a liderança desempenha um papel essencial na promoção da segurança psicológica, incentivando os colaboradores a expressarem as suas opiniões e transformando o fracasso em melhoria, em vez de silêncio.
Em última análise, esta perspetiva defende que a redução dos erros médicos exige repensar a forma como os sistemas de saúde respondem quando as coisas correm mal. A transparência, a responsabilidade e a aprendizagem organizacional não são ideais opcionais, conclui Brezis, mas ferramentas essenciais para salvar vidas e restaurar a confiança na área da saúde.
O principal desafio é conceptual: reconhecer que o fracasso é essencial para o progresso. Os erros médicos podem ser reduzidos ao compreendermos as suas valiosas oportunidades de aprendizagem e ao assumirmos a responsabilidade de melhorar, garante.
Crédito imagem: Unsplash















