Insulina em forma de comprimido

Insulina em forma de comprimido, uma promessa mais perto da realidade

Por Investigação & Inovação

Uma picada de agulha uma ou duas vezes ao dia continua a ser, para muitos diabéticos, a única forma de tomar a insulina indispensável para o controlo da doença. E se em vez disso pudessem tomar um comprimido? É para isso que está a trabalhar uma equipa britânica, que promete resultados em breve. 

Se dessem a escolher entre tomar um comprimido ou injetar-se com uma agulha, a maioria de nós optaria pela primeira. Uma escolha que milhões de pessoas com diabetes não podem fazer.

O que os investigadores da Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas John A. Paulson, de Harvard, pretendem é, através de um método oral, transformar a forma como os diabéticos mantêm os níveis de açúcar no sangue dentro dos valores desejados.

Uma mudança que não promete apenas melhorar a qualidade de vida de até 40 milhões de pessoas com diabetes tipo 1 em todo o mundo, mas pode reduzir os efeitos secundários resultantes do facto de os doentes não conseguirem receber as injeções necessárias.

Facilitar a vida aos diabéticos

Publicada na revista científica Proceedings of National Academy of Sciences, a investigação parte do princípio de que o tratamento com insulina injetada consegue manter os níveis de glicose da maioria dos diabéticos sob controlo.

“Mas muitas pessoas não conseguem aderir a este regime devido a dor, fobia de agulhas e interferência com as atividades normais”, refere o autor sénior do estudo, Samir Mitragotri, professor de Bioengenharia da Hiller
e Hansjorg Wyss.

“As consequências de um controlo glicémico deficiente podem levar a problemas de saúde e complicações graves”, acrescenta

Encontrar uma forma de administrar insulina por via oral tem sido difícil, uma vez que a proteína não se dá bem quando encontra o ambiente ácido do estômago e é mal absorvida pelo intestino.

A chave para a nova abordagem é transportar a insulina num líquido iónico, colocado numa cápsula revestida com um ácido resistente ao revestimento dos intestinos.

Insulina por via oral consegue ultrapassar maiores obstáculos

A formulação é biocompatível, fácil de fabricar e pode ser armazenada até dois meses à temperatura ambiente sem degradação, o que é um período mais longo do que aquele de alguns produtos de insulina injetável atualmente no mercado.

“Uma vez ingerida, a insulina deve percorrer uma pista de obstáculos desafiadores antes de ser efetivamente absorvida pela corrente sanguínea”, afirma Mitragotri. “A nossa abordagem funciona como um canivete suíço, onde a pílula tem ferramentas para lidar com cada um dos obstáculos que encontra.”

Ao encapsular a formulação líquida iônica de insulina em um revestimento entérico, a equipe superou o primeiro obstáculo, resistindo à quebra pelos ácidos gástricos no intestino. Este polímero

Mais perto de um comprimido

Mark Prausnitz, especialista do Georgia Institute of Technology, que não esteve envolvido neste trabalho considera que o estudo “mostra resultados notáveis, com a insulina administrada por via oral em combinação com um líquido iónico funciona tão bem como uma injeção convencional”.

“As implicações deste trabalho para a medicina podem ser enormes, se as descobertas puderem ser traduzidas em pílulas que administram de forma segura e eficaz a insulina e outros medicamentos peptídicos aos seres humanos.”

A insulina ingerida oralmente imita mais de perto a forma como o pâncreas de uma pessoa saudável produz insulina. Pode também pode atenuar os efeitos adversos de tomar injeções por um longo período de tempo.

O passo seguinte é a realização de mais testes , assim como estudos de biodisponibilidade. Mas os investigadores estão otimistas e acreditam que, se tudo correr bem, vão conseguir a aprovação para eventuais testes clínicos em humanos.

E se os trabalhos adicionais progredirem como esperado, a abordagem poderá ser usada para entrega oral de outras proteínas. 

a importância da hidratação

Papel das bebidas para desportistas deve ser manter a hidratação ideal

Por Investigação & Inovação

As bebidas destinadas aos praticantes de atividades físicas devem “fornecer hidratos de carbono como fonte essencial de energia” e ser eficazes “na manutenção da hidratação ideal”, defende a Sociedade Espanhola de Medicina do Desporto (SEMED), numa nova declaração sobre o tema.

De acordo com o texto, a ingestão de líquidos com diferentes tipos de hidratos de carbono e eletrólitos “antes, durante e após a prática de exercício prolongado pode prevenir a desidratação, atenuar os efeitos da perda de líquidos na função cardiovascular e no desempenho durante o exercício”.

Pode ainda, acrescenta o mesmo documento, “atrasar e minimizar a fadiga muscular”, juntando-se aqui a capacidade de melhorar o sabor da bebida, favorecerem “o desejo de beber e exercerem um efeito reduzido, se não mesmo nulo, sobre o esvaziamento gástrico em concentrações que se situam entre 4% e 8%”.

Hidratos de carbono, ingrediente essencial

Há muito que as sociedades científicas europeias se debruçam sobre o tema. E, até agora, era consensual que a composição de bebidas para as pessoas que praticam atividade física intensa deviam proporcionar não menos de 80 kcal/l e não mais de 350 kcal/l.

Tinha já sido também definido que 75% destas bebidas deveriam ser provenientes de hidratos de carbono com um alto índice glicémico (glicose, sacarose e maltodextrinas).

O que este documento vem agora acrescentar é que esses hidratos de carbono não devem representar mais de 90 gramas por litro; no caso do sódio, não menos de 460 mg por litro (46 mg por 100 ml/20 mmol/l) e não mais de 1.150 mg por litro (115 mg por 100 ml/50 mmol/l).

As características deste acordo europeu coincidem com as estabelecidas no Regulamento (UE) n.º 432/2012, que estabelece uma lista de alegações de saúde permitidas sobre os alimentos, para além daquelas referentes à redução do risco de doenças e ao desenvolvimento e saúde das crianças.

Estas características baseiam-se nas já referidas pelo Comité Científico de Alimentação Humana da Comissão Europeia no seu relatório de 2001 sobre a composição e especificações de alimentos destinados a satisfazer os gastos de esforço muscular intenso (especialmente para desportistas masculinos e femininos).

Desportistas podem perder mais de três litros de líquidos por hora

A atenção vira-se para os desportistas porque, de acordo com a SEMED, “quando se realiza exercício físico, uma grande percentagem da energia produzida pela contração muscular é libertada em forma de calor, que deve ser eliminado rapidamente para evitar um aumento da temperatura do corpo acima de um nível crítico”.

Por esta razão, “o organismo ativa diferentes mecanismos projetados para dissipar o calor acumulado, dos quais o mais importante é o da transpiração”.

De facto, um atleta bem treinado e com uma preparação adequada, em condições ambientais de calor e humidade, pode perder “mais de três litros por hora de líquidos através da evaporação do suor”.

O documento conclui que “os dois elementos que mais contribuem para o desenvolvimento da fadiga durante o exercício físico são a diminuição dos hidratos de carbono armazenados no organismo na forma de glicogénio e o aparecimento de desidratação pela perda de água e eletrólitos através do suor, cuja reposição é essencial para restabelecer a homeostase”.

Vai de viagem? Cuidado com os medicamentos que leva

Por Investigação & Inovação

Se está a preparar as férias e se estas incluírem uma viagem para fora do país, tenha cuidado com a medicação que leva na bagagem. É que há nações onde os medicamentos, mesmo que justificados no país de origem, podem levar à prisão.

O alerta é dado pela Foreign and Commonwealth Office, uma agência estatal britânica, e destinado aos seus cidadãos, mas que serve de aviso geral. A organização aconselha, antes de mais, que se procure saber qual a política do país de destino em relação a este assunto antes da viagem.

É que há nações que não permitem a entrada de certos tipos de medicamentos, enquanto outras podem ter regulamentos que exijam uma permissão específica para o seu uso, regras também aplicáveis aos medicamentos que, em Portugal, podem ser de venda livre e sem necessidade de receita médica.

Férias sim, mas com cuidados

É o que acontece, por exemplo, no Qatar, onde os medicamentos de venda livre, como aqueles que é costume comprar para combater os sintomas gripais ou a tosse, são considerados substâncias controladas e têm, também estes, que se fazer acompanhar por uma receita do médico.

De resto, o Portal das Comunidades Portuguesas deixa um aviso idêntico para este país, alertando para a “obrigatoriedade de todos os estrangeiros serem portadores de documentos médicos comprovativos da medicação que os acompanha para o tratamento que estão a fazer”, sendo ainda “obrigatória a sua tradução em árabe. Em caso contrário, os medicamentos poderão ser confiscados e, consoante o caso, para além de multas poderão incorrer em procedimento criminal”.

No Japão, existem restrições à entrada de medicamentos, mesmo que para uso pessoal. Por terras do sol nascente, alguns dos mais comuns medicamentos para a gripe, os que contêm pseudoefedrina na sua composição, estão banidos, sendo necessária uma declaração médica sobre o estado de saúde e necessidade do seu uso.

Também em Singapura os comprimidos que ajudam a dormir requerem uma autorização médica.

Outros exemplos chegam de paragens como a Costa Rica ou a China, onde os turistas têm também que se fazer acompanhar pela receita médica se não quiserem deixar em casa a medicação que estão habituados a tomar.

Ou ainda da Indonésia, um país popular entre turistas portugueses, sobretudo para a prática de surf, onde muitos dos remédios que por cá são legais, quando receitados por um especialista, por lá não passam ao crivo das autoridades.

Violar estas regras pode dar direito muitas dores de cabeça e até mesmo a tempo de prisão, avisam as autoridades.

Genéricos geraram poupança de quatro mil milhões em 15 anos

Por Investigação & Inovação

Com a despesa em saúde a aumentar, uma inevitabilidade que resulta do envelhecimento da população e das doenças que o acompanham, conceitos como sustentabilidade e desperdício ganham um novo significado. E protagonismo. É aqui que entram os genéricos, medicamentos que, nos últimos 15 anos, proporcionaram uma poupança nacional de quatro mil milhões de euros.

O número foi avançado por Paulo Lilaia, presidente da Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (APOGEN), na celebração dos 15 anos de vida da organização. Mas não foi o único. O responsável acrescentou ainda que, se tudo correr como esperado, entre 2018 e 2020 o potencial de poupança vai além dos 300 milhões, apenas com os genéricos.

A estes juntam-se os biossimilares, que irão permitir juntar a este valor outros 100 milhões. Ao todo, a poupança estimada ultrapassa os 400 milhões.

“Não há espaço para o supérfluo e para o desperdício”, afirma. “É fundamental ter soluções alternativas, com custos que se possam assumir”, acrescenta, reforçando que os serviços de saúde têm que disponibilizar “mais e melhores serviços”, que podem ser garantidos pelos genéricos e biossimilares.

Mais poupança no futuro

O objetivo para os próximos anos é continuar a promover o uso destes medicamentos, alternativas comprovadamente seguras e muito menos dispendiosas. Embora a quota nacional de medicamentos genéricos , em unidades, tenha atingido um valor recorde no primeiro trimestre deste ano (48,2%), o potencial de crescimento é ainda grande, confirma Paulo Lilaia. 

“Podemos atingir, em Portugal, até 65% de quota máxima, mas nos últimos anos temos assistido a uma tendência de estagnação”, que é preciso combater, reforça o especialista. “Temos razões mais do que suficientes para sermos mais racionais no consumo de medicamentos.”

Custos com medicamentos a subir

Um dos convidados das celebrações dos 15 anos  da APOGEN, António Melo Gouveia, diretor dos Serviços Farmacêuticos do IPO de Lisboa, não escondeu que é defensor dos medicamentos genéricos. E a poupança que estes medicamentos já permitiram e continuam a permitir gerar são motivos que os justificam. 

“Nos últimos 14 anos, os custos com medicamentos no IPO Lisboa aumentaram 80%”, explica, recordando que o investimento em saúde não tem acompanhado este crescimento. “Como resolvemos isto? Como tratamos os doentes? Temos que usar protocolos clínicos adequados, muito rigor na gestão e aproveitar todas as oportunidades.” E os genéricos são uma delas.

“E se não houvesse genéricos”, questiona o especialista, que responde com números e exemplos. Um deles refere-se a um medicamento que, quando não tinha alternativa genérica, custava 70€ por comprimido. “Em 2013, quando apareceu o genérico, o preço desceu de 70 para 1. Literalmente, de 70€ para 1€.”

O especialista não tem dúvidas em relação à segurança e eficácia dos genéricos. “Se a Agência Europeia de Medicamentos diz que são seguros, se se consegue, com dados de vida real, com outros estudos, confirmar isso, sinto-me tranquilo.” E também não tem dúvidas que “se um grupo relevante de medicamentos não tiver genéricos, tornam-se num fator de insustentabilidade”.

‘Apps’ dos SNS conquistam os portugueses

Por Investigação & Inovação

As ‘apps’ do Serviço Nacional de Saúde (SNS) estão a conquistar os portugueses. Da MySNS Carteira, que permite guardar diferentes cartões eletrónicos de saúde no telemóvel, à MySNS Tempos, que informa sobre o tempo médio de espera nas urgências, já foram feitos mais de 380 mil downloads.

Até ao dia 28 de maio, 386.275 mil downloads das ‘apps’, tanto nos sistemas operativos iOS como Android, tinham sido feitos pelos portugueses, que não escondem a preferência pela MySNS Carteira, utilizada por cidadãos de todas as faixas etárias e que chegou aos 166.335 mil downloads até ao dia 28 de maio.

A MySNS, a aplicação oficial do SNS que faculta o acesso à informação e aos serviços digitais da saúde, alcançou 166.312 mil downloads, enquanto a MySNS Tempos foi descarregada 53.628 vezes.

Modernização e evolução do SNS

“Inserindo-se no Registo de Saúde Eletrónico, e como ferramentas comunicacionais dinâmicas, as aplicações móveis do SNS, desenvolvidas pela Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, estão em constante processo de evolução e crescimento”, lê-se no comunicado sobre o tema.

“Pautam-se por princípios de transparência, inovação, qualidade e promovem o acesso à melhor informação em saúde, tornando o SNS mais interativo, atual e cumprindo serviço de cidadania.”

Responsabilizar cada vez mais o cidadão na gestão da sua saúde e fomentar a literacia digital são os objetivos principais da aposta nesta forma de interação com os utentes, que se integram num processo de evolução dos sistemas de saúde nacionais.

“Com todas estas aplicações móveis, o SNS está mais inovador, interativo, atual e próximo do cidadão.”

Inteligência artificial deteta mais cancro de pele que os médicos

Por Investigação & Inovação

Podem as máquinas ser melhores do que os humanos? A questão está na ordem do dia, com o advento da inteligência artificial. E podem as máquinas ser melhores do que médicos? O teste foi feito para o diagnóstico do cancro de pele, e a máquina conseguiu melhores resultados. 

Num estudo, publicado na revista Annals of Oncology, investigadores alemães, norte-americanos e franceses treinaram uma rede neuronal convolucional de aprendizagem profunda (CNN), ou seja, uma forma de inteligência artificial, para que identificasse casos de cancro de pele. Isto através da amostra de mais de 100.000 imagens de melanomas malignos (a forma mais grave de cancro de pele) e sinais benignos.

Compararam, depois, o seu desempenho com o de 58 dermatologistas internacionais e verificaram que a CNN identificou mais melanomas, tendo distinguido mais vezes de forma correta a diferença entre sinais benignos e malignos.

Inteligência Artificial capaz de aprender

A CNN é uma rede neuronal artificial, inspirada nos processos biológicos que ocorrem quando as células nervosas (neurónios) do cérebro estão conectadas entre si e respondem ao que o olho vê. A CNN é capaz de aprender rapidamente a partir de imagens que ‘vê’ e de melhorar o seu desempenjo, a partir do que aprendeu, um processo conhecido como aprendizagem de máquina.

O primeiro autor do estudo, Holger Haenssle, responsável pelo Departamento de Dermatologia da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, explica que “a CNN funciona como o cérebro de uma criança. Para treiná-lo, mostramos à CNN mais de 100.000 imagens de sinais de pele malignos e benignos e indicamos o diagnóstico para cada imagem. Apenas foram usadas imagens dermatoscópicas, ou seja, lesões que foram ampliadas 10 vezes. A cada imagem de treino, a CNN melhorou a sua capacidade de diferenciar entre lesões benignas e malignas”.

“Depois de terminado o treino, criamos dois conjuntos de imagens de teste da biblioteca de Heidelberg que nunca tinham sido usados e que, portanto, eram desconhecidos da CNN. Foi construído um conjunto de 300 imagens para testar somente o desempenho da CNN. Antes disso, 100 das lesões mais difíceis foram selecionadas para testar verdadeiros dermatologistas, em comparação com os resultados da CNN.”

Desempenho da máquina supera o dos médicos

Foram convidados a participar dermatologistas de todo o mundo. Ao todo, 58, de 17 países, aceitarem o desafio. Destes, 17 (29%) indicaram ter menos de dois anos de experiência em dermatoscopia, 11 (19%) afirmaram ter entre dois e cinco anos de experiência e 30 (52%) eram especialistas com mais de cinco anos de experiência.

Pediu-se aos dermatologistas que primeiro fizessem um diagnóstico de melanoma maligno ou sinal benigno apenas a partir das imagens dermatoscópicas (nível I) e decidissem como gerir a situação (cirurgia, acompanhamento a curto prazo ou nenhuma ação necessária).

Quatro semanas depois, receberam informações clínicas sobre o doente (incluindo idade, sexo e posição da lesão) e imagens aproximadas dos mesmos 100 casos (nível II), tendo sido solicitados novamente diagnósticos e linhas de ação.

No nível I, os dermatologistas detetaram com precisão uma média de 86,6% de melanomas e identificaram corretamente uma média de 71,3% de lesões que não eram malignas.

No entanto, quando a CNN foi sintonizada no mesmo nível dos médicos para identificar corretamente os sinais benignos, esta detetou 95% dos melanomas. No nível II, os dermatologistas melhoraram o seu desempenho, diagnosticando com precisão 88,9% dos melanomas malignos e 75,7% dos não cancerígenos.

Tecnologias alvo de estudos

“A CNN ‘perdeu’ menos melanomas, o que significa que tinha uma sensibilidade maior do que a dos dermatologistas, e diagnosticou erroneamente menos sinais benignos, o que significa que tinha uma maior especificidade, resultando em menos cirurgias desnecessárias”, afirma Holger Haenssle.

Ainda de acordo com o especialista, “quando os dermatologistas receberam mais informações clínicas e imagens de nível II, o seu desempenho ao nível do diagnóstico melhorou. No entanto, a CNN, que ainda estava a trabalhar apenas a partir das imagens dermatoscópicas sem informações clínicas adicionais, continuou a superar as habilidades diagnósticas dos médicos”.

Os dermatologistas especialistas tiveram melhor desempenho no nível I do que os dermatologistas menos experientes e foram melhores na deteção de melanomas malignos. No entanto, a sua capacidade média para fazer o diagnóstico correto era ainda inferior à da CNN em ambos os níveis.

“Estas descobertas mostram que as redes neurais convolucionais de aprendizagem profunda são capazes de superar os dermatologistas, incluindo os especialistas extensivamente treinados na tarefa de detetar melanomas.”

Há quase 20 anos que Haenssle tem estado envolvido em projetos de investigação que visam melhorar a deteção precoce do melanoma. “O meu grupo e eu estamos concentrados em tecnologias não invasivas que podem ajudar os médicos a deixar passar melanomas, por exemplo, enquanto realizam exames de cancro de pele.”

Por isso, quando encontrou relatórios recentes sobre algoritmos de aprendizagem profunda que superam os especialistas humanos em tarefas específicas, soube de imediato “que precisávamos de explorar esses algoritmos de inteligência artificial para diagnosticar o melanoma”.

Máquinas ajudam os especialistas

Os investigadores não preveem que a CNN substitua os dermatologistas no diagnóstico do cancro de pele, mas defendem que poderia ser usada como uma ajuda adicional.

“Esta CNN pode servir aos médicos envolvidos na triagem do cancro de pele, como auxílio na decisão de fazer uma biopsia ou não de uma lesão. A maioria dos dermatologistas já usa sistemas de dermatoscopia digital para visualizar e armazenar lesões para documentação e acompanhamento”, explica.

“A CNN pode então avaliar rápida e facilmente a imagem armazenada para uma ‘opinião especializada’ sobre a probabilidade de ser melanoma. Atualmente, estamos a planear estudos prospetivos para avaliar o impacto na vida real da CNN para médicos e doentes.”

O estudo tem algumas limitações, que incluem o facto de os dermatologistas terem sido colocados num ambiente artificial, onde sabiam que não estavam a tomar decisões de “vida ou morte” e ainda de não terem acedido a conjuntos de teste com toda a gama de lesões da pele, havendo menos imagens validadas de tipos de pele não caucasiana e de origem genética.

Por isso, vários especialistas destacam uma série de questões que precisariam de ser abordadas antes de a inteligência artificial se poder tornar padrão nas clínicas, incluindo a dificuldade de visualizar alguns melanomas em locais como dedos e couro cabeludo ou melanomas atípicos. 

Chip ingerido pelos doentes quer ajudar no diagnóstico

Por Investigação & Inovação

São “bactérias-num-chip”, um sensor pequeno o suficiente para ser engolido e que promete revolucionar o diagnóstico e tratamento de doenças gastrointestinais. É pelo menos nisso que acreditam os cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT), de onde chega a novidade.

Equipado com bactérias geneticamente modificadas, este chip combina sensores feitos com células vivas e componentes eletrónicos de baixa potência, capazes de converter a resposta bacteriana num sinal sem fios. Ou seja, estas bactérias, envoltas em uma membrana semipermeável, emitem luz quando detectam um biomarcador de doença, que por sua vez desencadeia uma corrente elétrica e transmite um sinal para um smartphone.

Uma combinação que, afirma Timothy Lu, professor associado de Engenharia Elétrica do MIT torna possível “a deteção de sinais biológicos do corpo, quase em tempo real, permitindo novas capacidades de diagnóstico para aplicações na saúde humana”.

Diagnosticar as doenças a partir de dentro

Atualmente, a suspeita de hemorragia por úlcera gástrica exige a realização de uma endoscopia, para a qual é necessário sedar os doentes. Testado para já em porcos, o pequeno sensor, que os cientistas acreditam poder ser usado uma única vez ou projetado para permanecer no trato digestivo durante vários dias ou semanas, foi usada para determinada a presença de hemorragia gástrica, tendo, de facto, conseguido confirmar a existência de sangue no estômago. 

“O objetivo com este sensor é ser capaz de contornar a realização de um procedimento desnecessário. Basta apenas ingerir a cápsula e, num período relativamente curto de tempo, conseguimos saber se havia ou não uma situação de hemorragia”, explica Mark Mimee, um dos autores do trabalho.

Para ajudar a levar esta tecnologia do laboratório até ao uso clínico, os investigadores têm planeado reduzir o tamanho do sensor e verificar quanto tempo as células das bactérias podem sobreviver no trato digestivo, prevendo ainda desenvolver sensores para problemas gastrointestinais para além da hemorragia.

“A maior parte do trabalho que fizemos estava relacionado com sangue, mas é possível desenvolver bactérias para detectar qualquer outra coisa e fazer com que produziam luz em resposta a isso”, confirma Mimee. 

Dos robots à detetação de células cancerígenas: a tecnologia ao serviço da medicina

Por Investigação & Inovação

Quando se fala na NASA, o que de imediato vem à ideia é a exploração espacial e a descoberta de novos mundos. Mas é da NASA, mais especificamente do Jet Propulsion Laboratory (JPL), que chegam grandes novidades na área da medicina, em forma de tecnologia. Foi sobre elas que falou Leon Alkalai, um dos oradores do 3º ASPIC International Congress.

Na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o investigador do laboratório norte-americano onde trabalham 6.200 pessoas e que, todos os anos, tem um orçamento de qualquer coisa como 2.4 mil milhões de dólares, falou sobre um futuro cada vez mais presente e sobre a inovação que, do espaço, ‘desce’ à Terra para melhorar o diagnóstico e o tratamento de várias doenças.

“Há toda uma nova geração de tecnologia de visualização, de realidade aumentada, que estamos a desenvolver no JPL. E há um esforço para aplicar a tecnologia espacial ao campo médico”, referiu, numa conversa que decorreu entre Lisboa e o JPL, na Califórnia.

Leon Alkalai é um dos investigadores da NASA e o seu nome está associado a algumas das mais impressionantes missões espaciais já levadas a cabo pela mão humana. A mais recente foi há pouco mais de uma semana, quando foi lançada para o espaço a missão InSight (Interior Exploration Using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport), que vai instalar-se no planeta vermelho.

“Marte será analisado como quem observa um doente e aquilo que vamos fazer é analisar o seu interior.”

Mas a ligação entre a investigação espacial e a medicina vai muito além desta analogia. A aplicação de todo o conhecimento usado para lançar missões como esta ao campo do diagnóstico e tratamento de doenças, muitas delas oncológicas, concretiza-se de outras formas.

Uma dela é a microcirurgia assistida por robot. “Fomos nós que inventamos a tecnologia por detrás do Da Vinci, um braço robotizado muito usado nos blocos operatórios”, explicou.

Tecnologia espacial ao serviço da medicina

A tecnologia na área da imagem é outra das apostas do laboratório da NASA, ‘emprestada’ à área da medicina, nomeadamente à oncologia. “Somos muito fortes no campo da tecnologia que proporciona a recolha de imagens do universo, com recurso aos infravermelhos. E esta tecnologia permite também que se visualizem as células cancerígenas, uma vez que existem diferenças no calor emitido por estas células, que pode ser detetado”, acrescentou.

O especialista referiu ainda o trabalho feito na área dos dados, que as missões realizadas pela NASA recolhem em grandes quantidades e que a tecnologia permite analisar, tecnologia essa “aplicável na ciência médica. Trabalhamos na área do diagnóstico preditivo, com base nos dados clínicos, dados socioeconómicos, tudo isto baseado na tecnologia criada para o espaço”.

Na área da esterilização, os avanços têm sido também relevantes, tanto mais que tudo o que vai para o espaço tem que ser totalmente esterilizado. Por isso, a tecnologia desenvolvida deteta todos os agentes exteriores. “Os rovers que vão para Marte não podem levar germes ou esporos para o espaço. Temos que os esterilizar, de forma a proteger os outros planetas da nossa contaminação.”

Uma inovação que, segundo Leon Alkalai, poderá vir a estar disponível nos hospitais dentro de um ano. “É importante porque vai permitir aos hospitais usar os equipamentos de forma mais rápida, reduzindo o risco de infeção.”

O 3º ASPIC International Congress teve como grande objetivo “motivar as pessoas para o conhecimento”, explicou Luís Costa, presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro (ASPIC) e diretor do Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria.

Reações adversas a medicamentos custaram 4,8 mil milhões de euros

Por Investigação & Inovação

Entre 2000 e 2015 foram registadas mais de 220 mil reações adversas a medicamentos nos hospitais portugueses, revelam os dados do Infarmed – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde. Eventos que custam qualquer coisa como 4,8 mil milhões de euros.

Publicado na revista científica Journal of Medical Systems, o estudo resulta de uma análise da base de dados dos Grupos de Diagnósticos Homogéneos (sistema de classificação de doentes) e procurara estimar a frequência e o impacto dos eventos adversos nos hospitais públicos.

Foram, ao todo, contabilizadas 15 milhões de hospitalizações nos 15 anos em análise, constatando-se que 5,8% dessas hospitalizações (860 mil) tinham no mínimo um evento adverso associado, e que 1,5% (220 mil) estavam associadas a pelo menos uma reação adversa a medicamento.

Efeitos que, de acordo com os autores, Bernardo Sousa-Pinto, Bernardo Marques, Fernando Lopes e Alberto Freitas, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, do Porto, custam caro. As estimativas referem que o impacto financeiro do total de eventos adversos e dos custos que lhe estão associados chega aos 4,8 mil milhões de euros para o total do período em análise.

Um número seis vezes superior às notificações registadas no âmbito do Sistema Nacional de Farmacovigilância para igual período (34 mil notificações).

Apesar de haver algumas limitações metodológicas, confirma-se indiretamente que a subnotificação de reações adversas a medicamentos em Portugal é uma realidade significativa.

‘Apps’ sobre cancro da mama: fiáveis ou nem por isso?

Por Investigação & Inovação

É o tumor maligno mais frequente nas mulheres, afetando 1,5 milhões todos os anos. Não é por isso de estranhar que se multipliquem as aplicações que têm como tema o cancro da mama. Mas terá esta quantidade o equivalente de qualidade? São as ‘apps’ sobre esta doença fiáveis ou nem por isso?

Esta foi a questão a que um grupo de investigadores espanhóis quis dar resposta, publicada em forma de estudo na revista International Journal of Medical Informatics, que resultou de uma análise de 599 aplicações disponíveis nas lojas dos sistemas iOS e Android.

Revela o trabalho que a maioria das ‘apps’, ou seja, 471 (78,6%), é gratuita, sendo o tipo mais comum as que oferecem informação sobre a doença e os seus tratamentos (29,2%), a gestão do cancro da mama (19,03%) e a sensibilização para esta temática (15%), sendo a maioria destinada a doentes (75,7%).

Até aqui tudo bem. No entanto, ainda de acordo com a mesma fonte, apenas um quarto de todas aplicações (24,5%) apresentava aviso sobre a sua utilização e menos de um quinto (19,7%) indicava as referências ou a origem do material apresentado, ou seja, a fonte de onde foi retirada a informação apresentada, o que torna difícil a validação da mesma.

A estas questões junta-se talvez a mais importante, a ausência de uma base de evidência, alertam os especialistas, que chamam também a atenção para a necessidade de um maior envolvimento por parte do pessoal médico especializado na criação deste tipo de ‘apps’.

Especialistas deixam alerta sobre ‘apps’

Em declarações à Agência Sinc, Guido Giunti, um dos autores do estudo, dá conta da existência de “diferentes níveis de desinformação nestas aplicações de saúde, desde material duvidoso, que inclui dados sobre a doença sem uma fonte, até indicações perigosas, como jejum prolongado ou sessões de auto-hipnose para neutralizar o cancro”.

Reforça, por isso, a necessidade de uma maior exigência subjacente à criação e desenvolvimento deste tipo de ‘apps’ de saúde.