Comida picante: boa para a saúde ou um inimigo?

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São cada vez mais os adeptos do picante, que não passam sem um pouco de ‘quente’ na sua comida. Mas pode o consumo de alimentos e molhos picantes prejudicar a saúde? A resposta é dada por uma especialista.


A capsaicina é o composto químico encontrado nas pimentas, que produz o “calor” que sentimos quando comemos alimentos picantes. Quando os ingerimos, a capsaicina liga-se a uma classe de recetores de dor chamados TRPV1, encontrados na boca, na superfície da língua e em todo o aparelho digestivo.

“Mas a capsaicina na verdade não queima”, refere a nutricionista da University Hospitals Cleveland Medical Center, Jayna Metalonis. “Em vez disso, ela engana o cérebro para pensar que ocorreu uma mudança de temperatura, resultando na sensação de calor e dor.”

Não surpreendentemente, a reação do corpo à capsaicina é de arrefecimento, daí a transpiração que geralmente acompanha a ingestão de alimentos muito picantes. Da mesma forma, os capilares dilatam-se para que o calor possa ser direcionado para longe do corpo através da pele, como se vê nos rostos e mãos corados de quem encharca os seus pratos em molho picante.

Na tentativa de arrefecer, a temperatura do corpo aumentará, pelo que nem todo o calor que a pessoa sente ao ingerir comida picante é imaginário. O corpo vai também tentar livrar-se da capsaicina, aumentando a produção de muco, lágrimas e saliva. Resultado: olhos lacrimejantes e até baba.

A sensação de boca em chamas geralmente desaparece após cerca de 20 minutos, à medida que as moléculas de capsaicina neutralizam e param de se ligar aos recetores da dor. Mas assim que o irritante passa da boca para a garganta, para depois percorrer o comprimento do sistema gastrointestinal, pode causar as seguintes reações:

– sensação de queimar no peito à medida que a capsaicina se liga aos recetores de dor no esófago;
– irritação do nervo frénico, que controla a função motora do diafragma, resultando em soluços;
– inchaço da garganta, dificultando a respiração e/ou causando rouquidão na voz;
– aumento da produção de sucos no estômago e um aumento temporário da taxa metabólica, o que pode causar cólicas e dores no estômago;
– aumento da taxa de digestão nos intestinos, que pode levar a diarreia;
– náuseas e vómitos (por norma apenas se a comida for muito picante);
– movimentos intestinais dolorosos. A capsaicina nunca é totalmente digerida, pelo que uma porção passará pelo intestino e acionará mais recetores de dor TRPV1.

Benefícios do picante para a saúde

Há alguns benefícios para a saúde em ingerir comida picante ao longo do tempo, a começar, de acordo com a especialista, por uma vida útil mais longa: um extenso estudo de base populacional publicado na revista BMJ, em 2015, descobriu que as pessoas que ingeriam alimentos picantes seis ou sete vezes por semana tinham um risco reduzido de mortalidade total quando comparadas com as pessoas que comiam alimentos picantes menos de uma vez por semana.

Diminuir o mau colesterol é outra das vantagens do picante: a ciência revelou que comer pimentos vermelhos pode diminuir os níveis de LDL (lipoproteína de baixa densidade), também conhecido como mau colesterol, devido à sua relação com as doenças cardíacas.

Para quem quer perder peso, o picante pode ajudar, já que a capsaicina tem a capacidade de reduzir o apetite e aumentar o metabolismo, o que pode ajudar as pessoas a queimar mais calorias em repouso e durante a prática de exercício físico.

São ainda vários os estudos que mostram que a capsaicina inibe a produção de ácido no estômago, o que pode ajudar a prevenir úlceras e que os alimentos picantes podem ter um efeito calmante e anti-inflamatório no intestino e melhorar o microbioma.

Finalmente, a capsaicina é um ingrediente-chave em certos medicamentos para o alívio da dor e é usada em vários cremes e adesivos para tratar problemas como: dor nas costas, fibromialgia, gota, dores de cabeça, dor nas articulações, neuropatia, osteoartrite, artrite reumatoide, ciática, tendinite.

Pode ajudar na prevenção do cancro, com vários estudos a mostrarem ser capaz de suprimir o crescimento dos tumores e as metástases e na saúde da pele, ao reduzir a inflamação, vermelhidão e descamação em condições de pele como dermatite atópica e psoríase.

Podem os alimentos picantes causar danos a longo prazo?

Como diz o velho ditado, tudo o que é demais pode ser prejudicial. “A boa notícia”, refere Metalonis, “é que para a maioria das pessoas saudáveis, mesmo aquelas que participam em desafios ‘extremos’ que envolvem o consumo recorde de pimentos, a ingestão de alimentos muito picantes não representa nenhum perigo sério ou duradouro para a sua saúde e geralmente não requer tratamento médico”.

No entanto, há exceções. Para as pessoas com determinados problemas de saúde, pode ser melhor evitar alimentos picantes. A especialista refere doenças como a doença inflamatória intestinal, a doença celíaca, úlceras estomacais, problemas da vesícula biliar, refluxo, síndrome do intestino irritável (INS).

E se não estiver habituado a comidas picantes, comece devagar. É provável que a sua tolerância ao calor – e prazer – aumente com o tempo, enquanto colhe os muitos benefícios para a saúde.