Uma camisola inteligente que mede a função pulmonar através da deteção de movimentos no peito e no abdómen: parece coisa do futuro, mas é real e funciona, revelam os dados apresentados no Congresso Internacional da Sociedade Respiratória Europeia, que defendem o seu uso nas doenças pulmonares. 

À peça de roupa junta-se uma aplicação móvel, para medir com segurança a respiração das pessoas saudáveis ​​enquanto realizam uma série de atividades quotidianas.

Uma inovação que pode agora ser testada em pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). E se for bem-sucedido, irá permitir aos médicos monitorizarem remotamente os doentes em busca de sinais precoces de que a sua doença está a piorar.

A investigação foi apresentada por Denise Mannée, médica no Radboud University Medical Center, na Holanda, segundo a qual “a DPOC é um problema crescente, com cerca de 64 milhões de pessoas a sofrer com a doença em todo o mundo”.

Quando os doentes sofrem um aumento dos seus sintomas, como tosse e falta de ar, precisam de ser monitorizados mais de perto. “Os sintomas ocorrem primeiro durante as atividades diárias, como subir escadas e trabalhos domésticos, mas é difícil monitorizar a respiração nessas condições. Tradicionalmente, isso é feito na clínica com equipamentos como bicicleta ergométrica, máscara facial e computador, que não são muito práticos para medir a atividade quotidiana”, acrescenta.

“As camisolas inteligentes já estão disponíveis, mas tendem a ser usadas por desportistas. Queríamos ver se pode fornecer uma alternativa mais precisa e prática para medir a função pulmonar.”

Teste com resultados positivos

Conhecida como Hexoskin, deteta como o tecido estica quando o peito do utilizador se expande e se contrai e usa essas medidas para medir o volume de ar inspirado e expirado, registando ainda a frequência cardíaca e os movimentos.

Mannée e os colegas pediram a um grupo de 15 voluntários saudáveis ​​que usassem a camisola enquanto realizavam atividades diárias, incluindo estar deitado, sentado, em pé, subir escadas e aspirar.

Ao mesmo tempo, os voluntários usavam o equipamento que tradicionalmente mede a respiração, que inclui uma máscara facial e uma mochila volumosa. E repetiam as tarefas usando os dois equipamentos, para gerar um segundo conjunto de dados.

Quanto aos resultados, “indicam que a camisola inteligente pode ser usada pelos doentes durante o dia a dia, para medir com precisão a função pulmonar”.

Monitorizar doenças pulmonares

Os investigadores planeiam agora repetir os testes em doentes com DPOC, mas acreditam que a tecnologia também pode ajudar noutras doenças pulmonares, como asma, fibrose quística ou após o transplante.

“Em última análise, queremos melhorar a qualidade de vida dos doentes. Se conseguirmos monitorizar com precisão os sintomas enquanto realizam as suas atividades normais, podemos detetar problemas e tratá-los mais cedo, e isso, por sua vez, pode significar menos tempo no hospital.”

Thierry Troosters, professor dos Hospitais Universitários de Lovaina, na Bélgica, presidente eleito da Sociedade Respiratória Europeia, refere que “a DPOC é uma doença crónica e tem um grande impacto na vida quotidiana. Pode ser tratado, mas não curado. A monitorização pode ajudar alguns doentes, como aqueles que apresentam sintomas frequentes, a prever uma pioria da doença, para que possam intensificar o tratamento mais cedo”.

“A tecnologia da camisola inteligente oferece uma ferramenta promissora, embora relativamente cara, para monitorizar o estado de saúde respiratória dos doentes durante as atividades normais, de uma maneira que não interfere muito nas suas vidas diárias”, acrescenta.