Internistas acusam reumatologistas de ataque contra a especialidade

Por Atualidade

À acusação dos reumatologistas, que denunciaram o facto de as doenças do foro reumatológico estarem a ser encaminhadas para as consultas de doenças autoimunes, da alçada da Medicina Interna, a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) responde, acusando os colegas de lançarem um ataque contra os internistas.

Em comunicado feito em conjunto com o Colégio da Especialidade de Medicina Interna da Ordem dos Médicos, a SPMI “lamenta profundamente”, alegando que a Sociedade Portuguesa de Reumatologia, que em carta ao Ministro da Saúde chama a atenção para o assunto, “presta um mau serviço aos doentes, revela um comportamento eticamente reprovável e uma absoluta ausência de escrúpulos na defesa de interesses corporativos, assumindo uma posição que é do foro dos colégios de especialidade da Ordem dos Médicos e na qual, seguramente, muitos reumatologistas não se revêem”.

Mais ainda, alega que “este ataque”, que considera não ter “paralelo na história da relação entre sociedades científicas”, põe em causa “o bom nome, a honorabilidade e a competência profissional dos médicos internistas”, representando “uma grave infração ao código deontológico da Ordem dos Médicos”.

“A SPMI e o CEMI na defesa do bom nome dos médicos que representam e da qualidade dos serviços prestados aos doentes, reservam-se o direito de, por todos os meios ao seu alcance e dentro dos limites das suas competências, exigir a reposição da verdade dos factos. Igualmente serão promovidas as ações necessárias junto do senhor Ministro da Saúde e do Bastonário da Ordem dos Médicos.”

Medicina Interna: uma especialidade “nuclear”

A SPMI e a CEMI salientam que a Medicina Interna “é uma especialidade nuclear no sistema de saúde português, sendo a especialidade mais numerosa nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, assegurando as urgências, o internamento, o apoio aos outros serviços no hospital, as consultas, os hospitais de dia, unidades diferenciadas e programas de integração com os outros níveis de cuidados”.

Abrange, por isso, “enquanto especialidade generalista”, todos os doentes “com doenças médicas de todos os órgãos ou sistemas, estando particularmente vocacionada para os doentes com múltiplas patologias, com doenças sistémicas e sem diagnóstico”.

É o que acontece com as doenças autoimunes, que “têm manifestações sistémicas frequentes, largo espectro de gravidade e, por vezes, complicações graves relacionadas com os medicamentos usados”, sendo situações “para as quais os internistas, especialmente aqueles que asseguram as consultas ou unidades de doenças autoimunes, possuem a formação necessária”. 

“Em Portugal, os Serviços de Medicina Interna asseguram consultas de doenças autoimunes em todos os hospitais do SNS e é graças a estas consultas que milhares de doentes têm acesso a uma abordagem diferenciada e a terapêuticas inovadoras. A Medicina Interna tem um registo de doenças autoimunes, faz formação, tem investigação publicada nas melhores revistas internacionais e tem vários doutorados nesta área”, lê-se no comunicado. 

Nestas e noutras áreas, como a diabetes, AVC, insuficiência cardíaca ou cuidados paliativos. “Pôr em causa a possibilidade de Medicina Interna ter consultas temáticas na sua área é pôr em causa as consultas temáticas de todas as especialidades, o que é um absurdo à luz da prática de uma medicina moderna”, defendem os internistas.

 

Doenças autoimunes afetam três vezes mais mulheres do que homens

Por Marque na Agenda

Não há estatísticas nacionais capazes de fazer o retrato das doenças autoimunes em Portugal, mas no seu conjunto, estima-se que estas doenças afetem três vezes mais mulheres do que homens. De resto, os dados revelam que são uma das principais causas de morte entre as mulheres com menos de 65 anos.

“São doenças que surgem em idades jovens, doenças que podem ser muito agressivas e afetar órgãos nobres, com elevada morbilidade e aumento da mortalidade. Estima-se, por exemplo, que a artrite reumatoide diminua em 10 anos a sobrevida média”, confirma Elisa Serradeiro, presidente da XXIV Reunião Anual do Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes (NEDAI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que este ano discute os problemas que se levantam no dia-a-dia de quem trata estes doentes.

As estimativas do NEDAI, datadas de 2012, apontavam para a existência de cerca de 100.000 pessoas com doenças autoimunes em Portugal.

“Neste momento serão certamente mais, pois há mais casos diagnosticados e um aumento da prevalência, dado o aumento da sobrevida verificado ao longo das últimas décadas”, refere a especialista.

Um diagnóstico tardio, “mas também, e sobretudo, a agressividade da doença”, justificam que estes problemas integrem a lista das que mais matam no feminino. Para a especialista, é necessário “fazer mais intervenções junto dos médicos de família, nos centros de saúde, promover sessões de formação, de forma a alertar para sintomas e sinais sugestivos de doença autoimune, como aliás temos feito, com eficácia, na nossa área de influência”.

Uma sensibilização que ajuda a que os sintomas, muitas vezes vagos, das mulheres mais jovens, sejam levados a sério. “Sendo doenças multissistémicas, podem ter sintomas de diferentes órgãos/sistemas. Podem confundir e simular outras doenças; podem ser inespecíficos e passar despercebidos.”

Cada vez mais respostas

Ao nível dos tratamentos, são cada vez mais as respostas disponíveis. “Um exemplo são os biológicos, que mudaram de forma muito positiva a evolução de algumas doenças autoimunes. Esta é uma das áreas da medicina em maior expansão e ainda alvo de muita investigação, quer básica, quer clínica. Todos os anos saem novos fármacos, todos os anos saem novas classificações, novas escalas, novos princípios fisiopatológicos. Na década de 50 a mortalidade associada ao Lúpus Eritematoso Sistémico era de cerca de 50% aos 5 anos e atualmente é inferior a 10% aos 5 anos”.

Para os médicos, o desafio começa no diagnóstico, refere Elisa Serradeiro. “Muitas vezes os sintomas ou sinais são insidiosos e vão-se somando até ao diagnóstico definitivo. Pode também surgir associação de várias doenças autoimunes. Em doentes diferentes, a mesma doença pode ter apresentações diversas. Acresce o problema das comorbilidades associadas e os efeitos laterais dos fármacos usados, a complicar o seguimento dos doentes.”

Doentes que vão marcar presença na XXIV Reunião Anual do NEDAI, que arranca esta quinta-feira (12 de abril), em Vila Real e que decorre até a 14 de abril, e onde será feito um ponto de situação de diversas doenças autoimunes sistémicas, como miopatias inflamatórias, vasculites, esclerose sistémica, síndrome de Sjögren e  artrite reumatóide.

“É importante os doentes saberem o que têm, colaborarem e partilharem experiências. Cada vez mais os doentes devem ser envolvidos nas decisões terapêuticas, cada vez mais os doentes têm acesso a informação sobre as suas doenças e por isso deve haver uma aproximação de todos os participantes nestas decisões.”