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A nova fronteira da prevenção cardiovascular passa pela vacinação contra o VSR

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Primeiro, foi a Declaração de Consenso Clínico da Sociedade Europeia de Cardiologia a apresentar dados sobre o risco de complicações cardiovasculares após infeções respiratórias, entre as quais as causadas pelo vírus sincicial respiratório (VSR), apontando as evidências do efeito benéfico da vacinação na redução dos eventos cardiovasculares. Mais recentemente, o Safe Hearts Plan, o Plano de Saúde Cardiovascular da União Europeia (UE), veio reforçar esta mensagem, destacando a vacinação contra o VSR como uma das estratégias mais “eficazes para prevenir complicações cardiovasculares em grupos de alto risco”.

A Declaração de Consenso Clínico da ESC já tinha apresentado dados sobre o risco de complicações cardiovasculares após infeções como o VSR, descrevendo os mecanismos inflamatórios que podem ser responsáveis e apresentando as evidências dos efeitos benéficos das vacinas na redução dos eventos cardiovasculares, sobretudo nos grupos de doentes de alto risco: de acordo com a evidência científica, pessoas de idade avançada com problemas cardíacos, como doença arterial coronariana, têm sete vezes maior risco de internamento no caso de infeção por VSR e, no caso de pessoas com insuficiência cardíaca, esse risco pode ser até cerca de 33 vezes superior, comparativamente a indivíduos sem condição cardíaca prévia.

O plano apresentado pela Comissão Europeia confirma que a vacinação contra a gripe, SARS-CoV-2 (COVID-19), VSR, doença pneumocócica e/ou herpes zoster “em pessoas com 65 anos ou mais, bem como naquelas com doenças cardiovasculares, reduz o risco de ataques cardíacos, AVC e outros eventos agudos”, pelo que a Comissão se compromete a apoiar os esforços nacionais para aumentar a cobertura vacinal.

A associação entre infeções respiratórias e complicações cardiovasculares já era reconhecida pela comunidade científica e o VSR surge cada vez mais no centro dessa discussão. Trata-se de um dos agentes mais comuns de infeções respiratórias, sobretudo nos meses de outono e inverno, sendo uma das principais causas de pneumonia e insuficiência respiratória em adultos mais velhos, podendo agravar doenças crónicas como a DPOC, insuficiência cardíaca, asma e diabetes.

“A evidência acumulada demonstra de forma inequívoca que as infeções respiratórias – incluindo as causadas pelo vírus sincicial respiratório – constituem um fator major de descompensação cardiovascular em populações de risco. A resposta inflamatória sistémica desencadeada por estas infeções aumenta a probabilidade de eventos agudos, desde agravamento de insuficiência cardíaca a episódios isquémicos.

Por isso, a vacinação dos adultos mais velhos e das pessoas com doença cardiovascular não é apenas uma recomendação clínica: é uma prioridade estratégica de saúde pública. Reforçar a cobertura vacinal deste grupo representa um investimento na redução de internamentos evitáveis, na mitigação de custos para o sistema de saúde e, sobretudo, na proteção de vidas”, defende a professora Cristina Gavina, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Em Portugal, o impacto da doença na população adulta é grande e sobrestimado, como confirma o único estudo feito sobre o tema, realizado em contexto hospitalar, que concluiu que o impacto neste grupo supera o da gripe em vários aspetos: está associado a pessoas com mais comorbilidades, a mortalidade associada é maior e os custos de saúde são significativamente superiores.

Realizado entre abril de 2018 e março de 2024, com a participação dos doentes adultos internados com queixas compatíveis com infeções respiratórias agudas no Hospital de Matosinhos, o estudo concluiu que, apesar de a prevalência do VSR ter sido inferior à da gripe nas épocas avaliadas, a mortalidade hospitalar foi superior para estes doentes (20% face a 13% para doentes com Influenza), assim como os custos diretos por hospitalização (€4.757 para doentes com VSR e €3.537 para doentes com Influenza) e as complicações, com percentagens mais altas no grupo das pessoas com VSR face ao vírus que provoca a gripe.

A estes dados juntam-se os de um estudo de impacto económico da vacinação, desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA), que revelou que a vacinação de adultos com 60 ou mais anos contra o VSR em Portugal poderia prevenir dezenas de milhares de infeções respiratórias, evitar centenas de episódios de urgência, hospitalizações e salvar vidas.

O trabalho não deixa dúvidas: proteger os adultos com 60 ou mais anos contra o VSR reduziria de forma significativa a carga da doença, ao diminuir o número de infeções graves e mortes associadas. A vacinação de cerca de 1,5 milhões de adultos com 60 ou mais anos teria o potencial de evitar, aproximadamente, 153 mil casos de infeção respiratória aguda causada pelo VSR, cerca de 87 mil episódios de doença associada às vias respiratórias inferiores, 2.489 hospitalizações e 2.346 episódios de urgência.

Crédito imagem: Pexels

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