A saúde cerebral não é determinada apenas pela genética ou pela velhice. Um número crescente de investigações demonstra que diversos fatores, que vão da saúde mental sono ao ambiente, estilo de vida e condições sociais, desempenham um papel fundamental na forma como o cérebro funciona e envelhece. Uma nova declaração científica da Associação Americana de Cardiologia destaca como as experiências que começam cedo na vida e se prolongam ao longo da mesma podem influenciar a saúde cerebral e afetar o risco de acidente vascular cerebral (AVC), declínio cognitivo ou demência na terceira idade.
A nova declaração científica, intitulada “Saúde Cerebral ao Longo da Vida: Uma Estrutura para Estudos Futuros”, destaca as oportunidades de deteção precoce, prevenção e intervenção, visando proteger a saúde cerebral e promover um envelhecimento saudável.
“Com os avanços médicos e científicos que aumentaram a esperança de vida, a saúde cerebral tornou-se cada vez mais importante”, afirma Elisabeth Marsh, professora de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. “O número de pessoas com défice cognitivo associado à idade está a aumentar rapidamente, gerando encargos significativos para o indivíduo, para o sistema de saúde e para a própria sociedade.”
Pesquisas anteriores sobre a saúde cerebral consideraram fatores que danificam os vasos sanguíneos e reduzem o fluxo sanguíneo para o cérebro, o que pode aumentar o risco de AVC, declínio cognitivo e/ou demência. Pesquisas recentes têm-se também centrado no papel dos fatores psicológicos, ambientais, de estilo de vida e sociais que afetam a saúde cerebral ao longo da vida.
“Há muito que nos concentramos no controlo de fatores de risco, como a pressão arterial e o colesterol, que continuam a ser cruciais para a saúde do coração e do cérebro. No entanto, esta declaração destaca a investigação sobre fatores externos, como a qualidade do sono, a microbiota intestinal e as condições sociais, que também estão ligadas à saúde cerebral”, refere Marsh.
“Uma das mensagens mais importantes desta declaração científica é que a saúde cerebral é moldada ao longo de toda a vida. O que acontece no início da vida pode ter consequências décadas depois, o que também significa que existem oportunidades em todas as fases da vida para promover um envelhecimento cerebral mais saudável”, acrescenta.
Que fatores afetam a saúde cerebral?
Pesquisas recentes mostram que inúmeros fatores mentais, físicos, ambientais e sociais influenciam a saúde cerebral ao longo da vida.
Saúde Mental:
Uma declaração científica de 2021 da Associação Americana de Cardiologia sobre a ligação mente-coração-corpo afirmou que os fatores psicológicos negativos e as perturbações de saúde mental podem ter um impacto negativo na saúde cardiovascular. Com o tempo, o stress crónico, a depressão e a ansiedade podem alterar o cérebro de formas que aumentam o risco de perda de memória, demência e AVC. Estas alterações fisiológicas e estruturais podem incluir inflamação, danos relacionados com o stress e perda de células e ligações cerebrais. O stress psicológico prolongado, que mantém as hormonas do stress elevadas, contribui para a aterosclerose (acumulação de placas nas artérias) e para o comprometimento do metabolismo da glicose, ambos com efeitos prejudiciais para a saúde cerebral ao longo do tempo.
Experiências Adversas na Infância:
As crianças que sofrem abusos, negligência, exposição a violência doméstica, separação ou divórcio dos pais, encarceramento ou uso ou dependência de substâncias ilícitas podem apresentar um maior risco de dificuldades de aprendizagem e de atenção na infância, bem como de problemas de saúde mental, declínio cognitivo e demência na idade adulta.
Inflamação Crónica:
A inflamação prolongada pode danificar as células cerebrais e os vasos sanguíneos ao longo do tempo. Quando a inflamação começa precocemente na vida, pode interferir com o desenvolvimento saudável do cérebro. Pode ser desencadeada por infeções durante a gravidez ou por stress contínuo. Com o tempo, isto pode aumentar o risco de dificuldades de aprendizagem, raciocínio e problemas de saúde mental. Na idade adulta, a inflamação persistente está associada à perda de memória e a doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
Microbioma intestinal:
O intestino e o cérebro estão intimamente ligados e comunicam através de nervos, sinais imunitários e hormonas. As bactérias intestinais saudáveis produzem substâncias que ajudam a proteger o cérebro e a regular a inflamação. Quando este equilíbrio é perturbado, a inflamação pode aumentar e sobrecarregar o cérebro. A saúde intestinal pode ser especialmente importante em determinadas fases da vida, incluindo o desenvolvimento precoce, a adolescência e a terceira idade, quando as alterações nas bactérias intestinais podem ter efeitos duradouros na saúde cerebral. Na terceira idade, alterações na microbiota intestinal têm sido associadas a doenças como Alzheimer e Parkinson.
Obesidade:
O excesso de peso corporal pode ser prejudicial para a saúde em geral e é um importante fator de risco para a saúde cerebral ao longo da vida. A obesidade pode aumentar a inflamação, desregular as hormonas e danificar os vasos sanguíneos, o que, com o tempo, pode prejudicar a estrutura cerebral e a função cognitiva em todas as fases da vida.
Sono:
Um sono saudável é essencial para manter o cérebro equilibrado e a funcionar bem em todas as idades. Algumas pesquisas descrevem o sono como um investimento na saúde cerebral, que se vai acumulando ao longo do tempo. Nas crianças, o sono contribui para o crescimento cerebral e para a formação da memória a longo prazo. Nos adolescentes e adultos, um sono consistente e de elevada qualidade beneficia a memória, a atenção, a tomada de decisões, o desempenho no trabalho e a saúde física e mental a longo prazo, tornando-se uma componente essencial para o desenvolvimento e envelhecimento saudáveis. A privação e os distúrbios do sono, como a apneia do sono, podem aumentar a inflamação e o risco de perda de memória e declínio cognitivo.
Fatores sociais que influenciam a saúde:
A investigação atual confirma que um estatuto socioeconómico mais baixo, incluindo menos anos de escolaridade e menores rendimentos, está associado a um maior risco de problemas de saúde como a diabetes tipo 2 e a hipertensão, ambos fatores que podem contribuir para a perda de memória, declínio cognitivo e demência. O acesso limitado a alimentos saudáveis, cuidados de saúde e habitação estável também pode aumentar o risco de declínio cognitivo ao longo do tempo.
Exposições ambientais:
A investigação atual sugere que a exposição à poluição do ar, metais pesados, microplásticos e outros poluentes ambientais, como partículas provenientes de incêndios florestais, pode danificar o cérebro lentamente, desencadeando inflamação, stressando as células cerebrais e prejudicando os vasos sanguíneos que o irrigam. Com o tempo, isto dificulta a reparação de danos e pode aumentar o risco de perda de memória, demência e acidente vascular cerebral.
Quais são as formas de melhorar a saúde do cérebro?
“Em conjunto, as evidências reforçam que a saúde do cérebro é moldada ao longo da vida de uma pessoa e que comportamentos de estilo de vida saudáveis podem fazer a diferença. Abordar fatores modificáveis, como a saúde mental, a exposição ambiental, o sono e as condições sociais, pode apoiar o desenvolvimento cerebral e o envelhecimento saudável”, refere Marsh.
A investigação sugere que hábitos de vida saudáveis podem apoiar a saúde do cérebro. Praticar atividade física regularmente, controlar a pressão arterial e o colesterol, adotar hábitos de sono saudáveis, evitar o tabagismo e controlar o stress têm demonstrado benefícios consistentes. Os padrões alimentares saudáveis são também um fator-chave para moldar a saúde intestinal e cerebral: seguir uma dieta mediterrânica e consumir alimentos ricos em fibras, de origem vegetal e fermentados, como o iogurte e o kefir, apoia as bactérias intestinais benéficas, enquanto as dietas ricas em alimentos processados e açúcares adicionados podem perturbar o microbioma intestinal. Evitar o consumo excessivo de álcool ou outras substâncias, aumentar o apoio social e reduzir o stress financeiro também podem melhorar a saúde mental.
O que devem os profissionais de saúde e outros líderes fazer para apoiar a saúde cerebral?
A declaração encoraja os profissionais de saúde e os decisores políticos a proteger e promover uma saúde cerebral ótima desde antes do nascimento até à idade adulta. Dar prioridade ao rastreio e apoio à saúde mental e expandir o acesso a cuidados de saúde atempados e eficazes pode ajudar a melhorar a saúde cerebral ao longo da vida.
“A saúde cerebral é uma viagem para a vida, influenciada pelo nosso bem-estar mental, ambiente e escolhas de estilo de vida desde a infância até à idade adulta avançada”, refere Mitchell Elkind, Diretor Científico de Saúde Cerebral e Acidente Vascular Cerebral da Associação Americana de Cardiologia. “As empolgantes descobertas científicas nesta área lembram-nos que cada fase da vida oferece uma nova oportunidade para nutrir os nossos cérebros e mentes, promovendo um envelhecimento mais saudável e reduzindo o risco de declínio cognitivo, demência, acidente vascular cerebral, depressão e outros distúrbios cerebrais.”
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