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Vacinação do adulto: conhecimento insuficiente e adesão aquém do necessário

vacinação de adulto

Parece indiscutível a importância do Programa Nacional de Vacinação (PNV), traduzida nos dados do estudo “Perceção do Valor das Vacinas”, promovido pela Apifarma – Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica, que revela um quadro animador no que diz respeito à confiança dos portugueses. Tanto os profissionais de saúde como a população em geral demonstram elevados níveis de satisfação com o PNV, reconhecendo a vacinação como uma estratégia essencial de saúde pública para a prevenção de doenças e para a proteção coletiva. No entanto, o estudo lança também um alerta claro: a vacinação em idade adulta, apesar de reconhecida como importante, continua a necessitar de maior atenção e visibilidade.

Os dados mostram que a população ainda associa a vacinação ao universo infantil e às vacinas do viajante. Esta perceção limitada tem consequências práticas: apenas 51,9% dos portugueses sabe que o PNV se destina a todas as crianças e adultos residentes em Portugal, uma quebra de 5,7 pontos percentuais face a 2023. “Isto representa um retrocesso preocupante em termos de literacia vacinal”, alerta José Albino, coordenador do MOVA – Movimento Doentes pela Vacinação.

A esta lacuna de conhecimento junta-se alguma incerteza na distinção entre vacinas destinadas a crianças e a adultos. Ainda assim, há consenso entre profissionais de saúde e cidadãos de que a vacinação na idade adulta é muito importante e que certas vacinas exigem esquemas de reforço para garantir uma proteção efetiva e duradoura. A pandemia, aliás, veio reforçar esta consciência coletiva.

Adesão dos adultos: boa, mas aquém das crianças

No plano clínico, médicos especialistas (internistas, pneumologistas, ginecologistas) e enfermeiros mantêm o hábito de abordar o PNV nas consultas com os seus doentes adultos. No entanto, a perceção de cumprimento do programa é nitidamente inferior à registada na população pediátrica.

Os médicos estimam que 81,5% dos seus doentes com 18 ou mais anos cumprem totalmente o PNV; os enfermeiros apontam para 76,4%. Valores que contrastam com os mais de 94% estimados para as crianças, evidenciando que a adesão vacinal dos adultos, embora positiva, tem ainda margem de melhoria.

Um PNV que precisa de evoluir

Um dos dados mais expressivos do estudo é o amplo consenso entre os profissionais de saúde quanto à necessidade de rever e atualizar o PNV para responder adequadamente às necessidades da população adulta. Esta posição é partilhada por:

  • 82,9% dos farmacêuticos

  • 75,5% dos médicos (percentagem que sobe aos 95,2% entre os pneumologistas e aos 81,7% entre os internistas)

  • 67,3% dos enfermeiros

“Trata-se de um sinal inequívoco de que os profissionais que acompanham diariamente os doentes adultos sentem a necessidade de um programa mais robusto e adaptado a esta faixa etária”, reforça José Albino.

Quando questionados sobre que grupos específicos beneficiariam de uma extensão do PNV, os profissionais de saúde são quase unânimes: os adultos e doentes crónicos. As vacinas mais referidas para inclusão ou alargamento são a da doença pneumocócica e a do Vírus Sincicial Respiratório (VSR), ambas consideradas prioritárias para os idosos, bem como a vacina contra o Herpes Zoster, recomendada tanto para idosos como para a população adulta em geral. O MOVA considera ainda imperativo o alargamento da comparticipação da vacina da gripe de dose elevada a pessoas a partir dos 65 anos.

“O estudo da Apifarma confirma que Portugal tem um programa de vacinação sólido e com forte aceitação social. Mas sublinha que esse programa precisa de ser adaptado à realidade de uma população que envelhece e cujas necessidades de proteção imunitária não terminam na infância”, refere o coordenador do MOVA. “Dar maior visibilidade à vacinação do adulto é essencial para garantir uma proteção efetiva ao longo de toda a vida. Os profissionais de saúde já têm este conhecimento e os dados existentes confirmam-no. Falta agora que a resposta esteja à altura do desafio.”

Crédito imagem: iStock

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