Como estimular o debate sobre igualdade de oportunidades de género em todas as fases de vida? Para sensibilizar sobre esta questão, o Movimento LIFE — Liderança no Feminino na Saúde acredita que é fundamental começar logo na infância. É perante esta premissa que lançaram um projeto-piloto no Agrupamento de Escolas de Samora Correia, apresentado na Conferência Movimento LIFE, que decorreu a 14 de maio, nas instalações da Roche, entidade que é uma das fundadoras deste Movimento.
Sob o mote “A próxima geração de líderes: igualdade de oportunidades entre mulheres e homens ao longo do ciclo de vida”, o Movimento LIFE pretende contribuir para mudar estes números: as mulheres são três quartos da força de trabalho no setor da saúde, mas apenas um terço faz parte dos cargos de liderança.
Apesar de 75 em 100 profissionais serem mulheres, pouco mais de 35% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres. Para que se atinja a paridade em termos globais, vão ser necessários mais de 130 anos, dados recordados por Júlia Pinheiro, comunicadora e apresentadora, durante a conversa de abertura da conferência. “As mulheres têm todas as condições, conhecimento e experiência, mas a cultura em que vivem faz com que seja muito difícil assumir cargos de liderança”, refere.
O Movimento LIFE, em parceria com a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, é um projeto que promove a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens. André Vasconcelos, Diretor-Geral da Roche Farmacêutica Portugal, acredita que “ainda há muitos entraves para as mulheres chegarem aos cargos de topo”, mas que “a mudança acontece quando as empresas assumem a responsabilidade de apoiar e abrir portas”.
Maria de Belém Roseira, jurista e embaixadora do Movimento LIFE, sublinha que “todos os indicadores das mulheres na liderança e no mercado de trabalho estão a regredir”, de acordo com o relatório Women in the Workplace 2025. “A regressão está a tomar o lugar do progresso e é preciso atuar tanto nas organizações como nas escolas.”
Na sociedade portuguesa, assiste-se a assimetrias remuneratórias elevadas e a uma precariedade dos vínculos laborais muito associados à mulher, como partilha Sara Falcão Casaca, professora universitária no ISEG, na mesa de debate “Liderança 360: homens e mulheres na construção do futuro”.
Miguel Guimarães, deputado e médico, defende que a solução está nas organizações e na sua cultura, partilhando que “os líderes devem dar o exemplo, tomar decisões justas e mudar culturas”.
Não só na saúde e na comunicação se sente desigualdade de género. Cláudia Cavadas, farmacêutica, investigadora e embaixadora do Movimento LIFE, partilha a sua experiência na área da ciência, considerando “não ser favorável para as mulheres”, desde a avaliação, o reconhecimento até ao número de candidatas a projetos financiados.
“A liderança começa cedo”
A necessidade de debater a igualdade de género em diferentes fases da vida foi um dos temas mais debatidos durante esta conferência. A família e a escola são os principais pilares que influenciam a educação e os valores das crianças e é nesse âmbito que o projeto-piloto nas escolas de Samora Correia pretende fazer a diferença, orientado por Maria do Céu Machado, médica e embaixadora do Movimento LIFE.
Cláudia Ricardo, fundadora do Movimento LIFE, partilha: “Acreditamos que a liderança começa cedo e uma criança que compreende os seus direitos e respeita os direitos dos outros, independentemente do género, origem e capacidade, será certamente um adulto mais empático, justo e mais capaz de liderar comunidades e equipas no futuro.”
Não só nas escolas o Movimento LIFE está a fazer a diferença. Através do programa de mentoria Horizonte LIFE, 20 mulheres na área da saúde foram acompanhadas na entrada no mercado de trabalho ou na transição profissional. Para partilhar os seus testemunhos, estiveram presentes Márcia Martins Feitor, Ana Cláudia Lopes e Diana Pedro Tavares, que mostraram que a liderança começa no autoconhecimento e que a desigualdade de género não é um tema apenas de mulheres, mas sim da humanidade.
Para o próximo Movimento LIFE, fica o desafio: “Precisamos de ter mais vozes masculinas, porque é uma construção de todos nós”, refere Cláudia Ricardo, fundadora do Movimento LIFE.
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