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Doença hemorroidária na gravidez: 4 mitos que fazem as mulheres sofrer em silêncio

doença hemorroidária na gravidez

Há temas que, durante a gravidez, muitas mulheres preferem não mencionar. É o que acontece com as hemorroidas, um silêncio que alimenta ideias erradas sobre a doença hemorroidária. Uns acham que é inevitável; outros, que não tem tratamento e há ainda quem pense que basta escolher cesariana para a evitar. Nenhuma destas ideias é totalmente verdadeira, e é hora de deitar por terra estes mitos.

Dor, comichão, desconforto ou sangramento anal são sinais e sintomas comuns durante a gravidez, sobretudo a partir do segundo trimestre e com maior frequência no terceiro, estimando-se que, em Portugal, a doença hemorroidária afete 30% a 40% das grávidas, embora os especialistas admitam que estes números possam estar subestimados devido ao constrangimento que muitas mulheres ainda sentem em falar sobre o tema.

O crescimento do útero, as alterações hormonais, o aumento do volume sanguíneo e, sobretudo, a obstipação e o esforço durante a evacuação podem contribuir para o aparecimento ou agravamento da doença. “Não existe uma única causa. É uma combinação de alterações hormonais, circulatórias e mecânicas”, explica Óscar Rebelo, Assistente Hospitalar Especialista em Ginecologia e Obstetrícia e Coordenador da Consulta de Patologia Obstétrica do Hospital do Divino Espírito Santo, nos Açores.

4 mitos que importa esclarecer sobre doença hemorroidária

“A doença hemorroidária é causada pelo esforço do parto.”

O parto vaginal pode agravar ou desencadear os sinais e sintomas devido ao aumento da pressão abdominal, mas a doença hemorroidária começa muitas vezes a desenvolver-se antes do momento do parto.

“Uma cesariana evita a doença hemorroidária.”

Não propriamente. Embora elimine o esforço expulsivo associado ao parto vaginal, não elimina os restantes fatores de risco associados à gravidez, nem a obstipação que pode surgir no pós-parto. A possibilidade de vir a desenvolver doença hemorroidária, por si só, não é motivo para optar por uma cesariana.

“Se há sangramento anal, é certamente hemoroidas.”

Nem sempre. O sangramento anal pode estar associado a este problema, mas também a outras patologias que requerem avaliação médica. Por esse motivo, a presença de sangue proveniente da região anal deve ser sempre valorizada e discutida com um profissional de saúde, de forma a confirmar a sua causa e excluir outras situações clínicas.

“Na gravidez, não se pode tratar este problema.”

É possível aliviar e tratar os sinais e sintomas da doença hemorroidária durante a gravidez e a amamentação, através de medidas adequadas à situação de cada mulher. Uma alimentação rica em fibra, uma boa hidratação e a prática de atividade física adaptada podem ajudar na prevenção. Quando existem manifestações de inflamação das hemorroidas, algumas medidas simples podem também contribuir para o alívio da dor, como a aplicação de compressas frias durante alguns minutos ou a utilização de compressas ou toalhetes húmidos, sem perfumes ou álcool, em alternativa ao papel higiénico. A aplicação de um creme calmante pode também ajudar a aliviar os sinais e sintomas, devendo este ou qualquer outro tratamento farmacológico ser sempre recomendado por um profissional de saúde, tendo em conta a situação específica de cada mulher.

Também no período pós-parto, a evolução tende a ser favorável. Na maioria dos casos, os sinais e sintomas diminuem progressivamente nas primeiras semanas após o nascimento do bebé, embora possam persistir por mais tempo em mulheres que já apresentavam doença hemorroidária antes da gravidez.

Para Carina Francisco, Especialista em Medicina Geral e Familiar, o principal desafio passa por quebrar o silêncio em torno desta condição: “Cada vez mais, é importante retirar o tabu desta temática e mostrar às mulheres que é um tema sobre o qual devem procurar ajuda. Porque é efetivamente possível o controlo sintomático e até alguma prevenção da doença hemorroidária, através de medidas farmacológicas e não farmacológicas, totalmente seguras durante a gravidez.”

TambémÓscar Rebelo reforça a importância de desmistificar a vergonha associada a esta condição: “Não existe qualquer motivo para sentir vergonha. Para nós, médicos, é uma situação clínica absolutamente normal e extremamente frequente na gravidez e no pós-parto. Muitas mulheres sofrem em silêncio porque acham que é um assunto embaraçoso ou que faz simplesmente parte da gravidez e têm de aguentar. Não tem de ser assim.”

A mensagem dos especialistas é, por isso, clara: os sinais e sintomas podem surgir ou agravar-se durante a gravidez e no pós-parto, mas não devem ser encarados como algo que a mulher tem simplesmente de suportar. Falar sobre os sinais e sintomas e procurar aconselhamento médico permite confirmar o diagnóstico, excluir outras causas e encontrar a abordagem mais adequada a cada situação.

Crédito imagem: Unsplash

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