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Atrasos no diagnóstico do cancro ginecológico custam milhões ao SNS e agravam mortalidade

atrasos no diagnóstico dos cancros ginecológicos

Atrasos no diagnóstico e no acesso ao tratamento do cancro do ovário e do endométrio estão a conduzir o Serviço Nacional de Saúde (SNS) a maior despesa com piores resultados em saúde, segundo as conclusões do projeto OncoGyn PT – Diagnóstico, Tratamento e Acesso no Cancro Ginecológico, desenvolvido pela Nova Medical School Scientific Services e apoiado pela GSK. A análise indica que tratar estas doenças em estádio avançado pode ser até três vezes mais caro do que intervir precocemente, penalizando simultaneamente a sustentabilidade do sistema e a sobrevivência das doentes.

O projeto culminou com a apresentação de um White Paper, que elenca um conjunto de recomendações, cruzando revisão científica internacional com contributos de especialistas nacionais, partindo do ponto que os atrasos no diagnóstico e no acesso ao tratamento do cancro do ovário e do endométrio continuam a custar vidas em Portugal, apesar de existir conhecimento clínico, sinais de alerta identificados e soluções organizacionais já testadas noutros países europeus.

Segundo os autores, o impacto dos atrasos é particularmente grave no cancro do ovário, responsável por 472 mortes por ano em Portugal, apesar de representar menos de 1% dos diagnósticos oncológicos femininos. Cerca de 75% dos casos são diagnosticados em fases avançadas, quando a probabilidade de sobrevivência é significativamente menor. No caso do cancro do endométrio, que apresenta maior incidência e taxas de sobrevivência entre 80% e 90% quando detetado precocemente, o Paper alerta que, em estádio IV, a sobrevivência cai para 15 a 17%, evidenciando o peso crítico do tempo no prognóstico.

Os especialistas chamam ainda a atenção para o impacto económico dos atrasos, referindo que a evidência internacional demonstra que tratar doença em estádio avançado pode custar duas a três vezes mais do que uma intervenção precoce, devido a tratamentos mais prolongados, maior risco de complicações e internamentos repetidos, além dos custos sociais associados à perda de produtividade e incapacidade laboral.

De acordo com as conclusões, o problema não reside na ausência de inovação terapêutica, mas sim em falhas estruturais na organização dos cuidados, incluindo percursos fragmentados entre cuidados de saúde primários e cuidados hospitalares, desigualdades regionais no acesso a equipas especializadas e ausência de métricas que acompanhem a jornada completa da doente.

Via Verde para cancros ginecológicos

Entre as principais recomendações está a necessidade de centralizar o tratamento em centros de referência acreditados pela Sociedade Europeia de Oncologia Ginecológica (ESGO), uma certificação atribuída às instituições que cumprem padrões europeus rigorosos no tratamento e na formação em ginecologia oncológica. A razão é simples: sem estes centros, a sobrevivência de uma mulher continua a depender, em parte, da zona do país onde reside. A acreditação ESGO implica a concentração de casos em equipas com alto volume cirúrgico, o que se traduz, na prática, em menos recidivas, menos custos e, acima de tudo, mais vidas. Países que avançaram com este modelo registaram melhorias imediatas na sobrevivência.

O documento defende, igualmente, a criação da Via Verde OncoGyn com Symptom Index, considerada a medida com maior impacto no diagnóstico precoce e com o menor custo tecnológico. Porquê? Dá ao Médico de Família uma ferramenta de triagem e um canal direto de referenciação, capaz de eliminar os meses de espera por uma consulta de especialidade. Isto, por sua vez, irá traduzir-se no diagnóstico mais precoce, onde os tratamentos podem ter melhores resultados e com menos custos.

Outras das recomendações principais é a criação de um Registo Oncológico Interoperável, que permita medir não apenas as listas de espera hospitalares, mas o tempo real desde o primeiro contacto da mulher com o sistema de saúde até ao início da terapêutica, tornando visíveis atrasos que atualmente não são monitorizados. Um registo que permitiria identificar onde estão a ser desperdiçados mais recursos, substituindo o indicador “tempo em lista de espera cirúrgica” pelo “tempo desde o primeiro contacto com o sistema de saúde até ao início da terapêutica”, em nome de uma transparência total e otimização do financiamento público.

De acordo com a análise, a jornada da utente com cancro do ovário e do endométrio é complexa e fragmentada, marcada por lacunas ao nível da literacia e diagnóstico precoce, barreiras estruturais e logísticas em todos os níveis de cuidados, défices de diferenciação e desigualdades regionais, assim como uma ausência de evidência de mundo real nacional. Uma realidade com custos humanos óbvios, aos quais se juntam o desperdício financeiro, num sistema de saúde já de si muito pressionado. Assiste-se a uma duplicação de exames, a um uso ineficiente de recursos e tratamento deste tipo de tumores em estádios avançados, o que é mais oneroso do que a intervenção precoce.

Os dados divulgados reforçam a urgência de políticas públicas centradas no tempo, na equidade e no valor em saúde, em linha com o Plano Europeu de Combate ao Cancro e a Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro 2030. Sem mudanças organizacionais concretas, Portugal continuará a diagnosticar tarde doenças potencialmente tratáveis, com custos mais elevados e piores resultados clínicos. “Em oncologia ginecológica, o tempo perdido não é neutro: traduz-se diretamente em vidas perdidas”, sublinham os especialistas.

Crédito imagem: iStock

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