O diagnóstico tardio é uma realidade no cancro do ovário, confirmam as especialistas presentes na mesa-redonda “Cancro do ovário: uma abordagem multidisciplinar”, uma iniciativa da Associação MOG — Movimento Oncológico Ginecológico, em colaboração com a Unidas para Vencer, que decorreu no Auditório da NOVA Medical School.
Os dados mais recentes do GLOBOCAN dão conta de mais de 682 novos casos de cancro do ovário, com 472 mortes atribuídas à doença por ano, o que a torna a 8.ª causa de mortalidade associada a cancro nas mulheres. Valores que se devem a atrasos no diagnóstico e à baixa literacia da sociedade e dos profissionais de saúde de primeira linha, concluem os especialistas.
Na maioria dos casos, os sintomas são indicativos de doença e, no cancro do ovário, cansaço, dor abdominal, aumento do volume abdominal, alterações urinárias ou intestinais e alterações no peso corporal constituem sinais que importa ter em conta. No entanto, por serem inespecíficos e ambíguos, muitas vezes são subvalorizados.
“Os sintomas do cancro do ovário não são especificamente ginecológicos; são sintomas gastrointestinais e urinários, tornando-se mais lento o processo de associar rapidamente a patologia à ginecologia”, confirma Mariana Araújo, interna da Especialidade de Obstetrícia e Ginecologia.
Esta inespecificidade contribui para o diagnóstico tardio que, segundo a oncologista Mariana Malheiro, se deve também à falta de literacia dos profissionais de saúde de primeira linha, como Medicina Geral e Familiar e urgência, o que impede a deteção desses mesmos sintomas. “Os Cuidados de Saúde Primários têm dificuldade em saber para onde encaminhar estas doentes”, refere a especialista.
Perante esta situação, a oncologista alerta: “Tudo o que se repetir não pode ser desprezado. Se uma doente vier três vezes às Urgências com queixas de dor abdominal, é preciso pedir um exame. Só assim se poderá diagnosticar e tratar corretamente.”
Além disso, quanto mais demorado for o tempo decorrido entre os sintomas, os primeiros exames e o diagnóstico, mais difícil será toda a jornada da doente. Por serem tumores de crescimento muito rápido, qualquer atraso é suficiente para aumentar a dimensão do tumor e piorar o prognóstico, como alertaram as especialistas presentes no encontro.
Para colmatar este desafio, o painel da mesa-redonda defende que “é preciso cinco hospitais com equipas multidisciplinares que saibam diagnosticar e tratar corretamente cancros ginecológicos, que são muito específicos”.
Ouvir o seu corpo
Com as projeções a indicarem um aumento de 42% na taxa de incidência do cancro do ovário, a investigação em inovação e o foco na qualidade de vida devem ser dois pilares fundamentais para o futuro.
Cláudia Fraga, presidente da MOG, partilha uma mensagem para todas as mulheres: “Eu não descurei os meus sintomas, ouvi o meu corpo e, 11 anos depois, ainda cá estou, com qualidade de vida, graças às excelentes equipas médicas que me acompanharam. Gostava que esta pudesse ser a realidade de todas as mulheres com este cancro. As cicatrizes são as marcas da nossa sobrevivência.”
Além de Mariana Malheiro, oncologista, e de Mariana Araújo, interna da Especialidade de Obstetrícia e Ginecologia, a mesa-redonda contou ainda com a participação, da Enfermeira Camala Liladar, de Ana Martins, diretora médica da AbbVie, de Cláudia Fraga, presidente da Associação MOG, e de Joana Matilde, estudante do 4.º ano de Medicina da NOVA Medical School.
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