Os investigadores da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), na Austrália, descobriram uma forma de matar à fome as células do cancro do pâncreas e “desativar” as células que impedem o tratamento de funcionar eficazmente.

Depois de uma década de trabalho feito em laboratório, os resultados estão prestes a ser testados num ensaio clínico em humanos e foram publicadas na revista Cancer Research.

“Nas últimas quatro décadas, assistiu-se a uma melhoria mínima na sobrevida dos doentes com cancro do pâncreas e, sem uma ação imediata, prevê-se que este venha a ser o segundo maior assassino em forma de cancro, em todo o mundo, em 2025″, refere a autora sénior do estudo, Phoebe Phillips, da UNSW Medicine & Health.

“Mas o nosso último avanço significa que hoje estou mais otimista e esperançosa do que já estive na minha carreira.”

O cancro do pâncreas é notoriamente difícil de tratar devido à densa cicatriz que envolve os tumores – o tecido age como uma fortaleza que bloqueia a aplicação da quimioterapia.

“Este tecido cicatricial é produzido por ‘células auxiliares’ críticas, também chamadas de fibroblastos associados ao cancro, que as células cancerígenas recrutam para apoiar o seu crescimento e disseminação. No entanto, essas células auxiliares foram ignoradas nas estratégias de tratamento atuais”, refere a especialista.

“A nossa abordagem atinge as células tumorais e as células auxiliares, por isso, é ideal para superar a agressividade e a resistência da doença aos medicamentos.”

Novo alvo para o cancro do pâncreas

No artigo agora publicado, a equipa demonstra a sua nova forma de voltar a ligar, metabolicamente, as células auxiliares, visando uma proteína específica (SLC7A11) que, por sua vez, desliga nas células a atividade de promoção do tumor e reduz o tecido cicatricial que estas produzem.

“Descobrimos que desligar a SLC7A11 em ratos de laboratório com tumores pancreáticos matou diretamente as células do cancro do pâncreas, reduziu a disseminação das células tumorais por todo o corpo e diminuiu a fortaleza do tecido cicatricial”, explica George Sharbeen, investigador que liderou o trabalho experimental.

A SLC7A11 já foi estudada em células do cancro do pâncreas, mas esta é a primeira pesquisa a mostrar que também desempenha um papel essencial nas células auxiliares não tumorais.

“Por outras palavras, identificamos um novo alvo terapêutico de ‘célula dupla’, que ataca tanto as células tumorais como as suas auxiliares, superando as limitações atuais da quimioterapia padrão.”

Ensaio clínico prestes a começar

As descobertas da equipa serviram de base para um ensaio clínico, em que se irá aproveitar um medicamento usado para tratar a artrite, que se sabe ser capaz de inibir a SLC7A11, para tratar as pessoas com cancro do pâncreas.

“Usar um medicamento já aprovado permitiu-nos ir para a clínica muito mais rapidamente do que seria o caso se também começássemos do zero com o desenvolvimento do medicamento”, refere Phillips, esperando-se que o primeiro conjunto de resultados do ensaio seja publicado dentro de três anos.

O cancro do pâncreas é uma doença altamente letal, com apenas uma em cada 10 pessoas a sobreviverem durante mais de cinco anos.

“É evidente que precisamos de tratamentos melhorados para reverter estas estatísticas sombrias e esperamos que a tradução clínica das nossas descobertas acabe por aumentar o número de sobreviventes.”