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Bactéria presente na boca associada a incapacidade mais grave na esclerose múltipla

doença da gengiva e esclerose múltipla

São cada vez maiores as evidências que sugerem que a periodontite, uma doença das gengivas, pode contribuir para distúrbios do sistema nervoso central através da inflamação crónica. Agora, uma equipa de investigação realizou um estudo com resultados que sugerem uma possível associação entre a abundância de uma bactéria encontrada na boca, e a gravidade da doença em pessoas com esclerose múltipla.

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória desmielinizante do sistema nervoso central que atinge a camada protetora que envolve algumas células nervosas. Embora a causa específica da doença permaneça desconhecida, as infeções virais, o tabagismo, as deficiências vitamínicas e as predisposições genéticas são considerados possíveis fatores contribuintes.

Os cientistas têm estudado as alterações no microbioma intestinal relacionadas com a doença e, recentemente, a atenção mudou e passou a incluir o possível papel da microbiota oral, juntamente com a microbiota intestinal, nas doenças do sistema nervoso central.

A doença periodontal é uma infeção bacteriana crónica que desencadeia uma inflamação persistente nos tecidos periodontais, podendo mesmo ter como resultado a perda de dentes. É um problema comum e os investigadores sabem que aumenta o risco de doenças como a aterosclerose, a diabetes e a artrite reumatoide.

Potencial eixo ‘boca-cérebro’ na esclerose múltipla

No seu estudo, publicado na revista Scientific Reports, a equipa de investigação da universidade japonesa de Hiroshima quantificou a carga bacteriana periodontal em amostras de revestimento da língua recolhidas de pessoas com doenças inflamatórias desmielinizantes do sistema nervoso central, como esclerose múltipla. A elevada abundância relativa foi determinada com base na proporção de um tipo de espécie bacteriana nas suas amostras orais, que se encontrava nos 25% superiores (alta) ou nos 75% inferiores (baixa) em comparação com todos os doentes estudados.

A equipa procurou determinar se os agentes patogénicos periodontais específicos da boca estão associados à gravidade clínica da esclerose múltipla. “Embora o microbioma intestinal tenha sido amplamente investigado na esclerose múltipla, o possível envolvimento do microbioma oral permanece em grande parte inexplorado”, refere Masahiro Nakamori, professor associado e orador no Hospital Universitário de Hiroshima. “Uma vez que a cavidade oral é uma importante fonte de inflamação crónica e representa um fator potencialmente modificável, o esclarecimento da sua relação com a gravidade da esclerose múltipla é fundamental para a compreensão dos mecanismos da doença e para o desenvolvimento de novas estratégias preventivas.”

Os resultados mostram que os doentes com esclerose múltipla que apresentavam uma maior abundância relativa de um determinado tipo (Fusobacterium nucleatum) de bactérias periodontais demonstraram uma incapacidade significativamente maior.

Uma ‘bactéria-ponte’?

A equipa observou que quase dois terços (61,5%) dos doentes com esclerose múltipla com elevada abundância relativa de Fusobacterium nucleatum apresentavam incapacidade moderada a grave, em comparação com aproximadamente um quinto (18,6%) dos que tinham doença mais ligeira.

“O Fusobacterium nucleatum pode atuar como uma ‘bactéria-ponte’ oculta, não só ligando comunidades bacterianas em biofilmes dentários, mas também potencialmente ligando a inflamação oral à incapacidade neurológica”, refere Nakamori.

Olhando para o futuro, a equipa espera realizar estudos de maior dimensão para validar a associação entre as bactérias orais e a gravidade da esclerose múltipla.

Crédito imagem: Pexels

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