O AVC mantém-se como principal causa de morte em Portugal. Mas tem-se registado uma progressiva diminuição da sua incidência, confirma Fernando Pita.

AVC, Dr. Fernando Pita

Fernando Pita, Coordenador da Unidade Funcional de Neurologia, Hospital de Cascais Membro da Sociedade Portuguesa do AVC

O AVC mantém-se como principal causa de morte e morbilidade em Portugal, tendo sido, em 2014 responsável por 11% do total dos óbitos. No entanto, nem tudo são más notícias, tendo-se registado uma progressiva diminuição da incidência do AVC, com redução em termos de mortalidade (menor que 46% numa década) e morbilidade. Esses ganhos são seguramente consequentes de medidas de prevenção de âmbito populacional.

Por fator de risco entende-se um comportamento ou doença que aumenta o risco de um acontecimento ou outra doença. Os fatores de risco demonstram uma associação forte (preditiva) e etiologicamente significativa (causal) com a doença que se pretende evitar.

Por promoção de saúde ou prevenção primordial entende-se medidas visando a população em geral. O objetivo é o desenvolvimento de estratégias que previnam o aparecimento de fatores de risco para AVC, atuando antes das doenças (ou fatores de risco) surgirem, evitando, na medida do possível, que estas apareçam. Destinam-se globalmente à população como um todo (…são para a toda a gente).

Por prevenção primária entende-se estratégias direcionadas para indivíduos presentes na população, já com um ou mais fatores de risco para AVC, visando a deteção e tratamento custo-efetivo dessas doenças (hipertensão arterial, tabagismo, diabetes mellitus, dislipidémia, fibrilhação auricular), antes de acontecer o AVC e tentando evitar que ele ocorra.

Ambas as estratégias são complementares e têm como objetivo a prevenção do AVC (tentam evitar a sua ocorrência).

Relativamente ao AVC sabemos que o principal fator de risco é a idade sendo, obviamente, não modificável (é o preço a pagar por nos irmos mantendo vivos).

Por fator de risco modificável entende-se comportamentos ou doenças, para os quais a sua prevenção ou tratamento irá no futuro reduzir o risco de vir a ter um AVC.

Sabemos que:
– Mais de 90% do risco para AVC é atribuível a fatores de risco modificáveis – comportamentais, metabólicos ou ambientais;
– Sendo que 74,2% do risco do AVC é atribuível a fatores de risco comportamentais, nomeadamente tabagismo, dieta inadequada e inatividade física. Sabemos ainda que escolhas de vida saudáveis permitem uma redução de risco significativa.

Quais são então essas medidas?

Comportamentais – educação para a saúde, escolhendo um estilo de vida saudável:
– Mantendo atividade física regular;
– Valorizando uma dieta saudável (como a dieta mediterrânea), usando produtos frescos, de época, produzidos localmente (diversidade) equilibrando o consumo calórico com a atividade física (frugalidade), parando a epidemia do sal e do açúcar;
– Mantendo um peso adequado, controlando a obesidade;

– Prevenindo o tabagismo e intervindo na cessação tabágica.
Métricas
– Controlar tensão arterial;
– Controlar níveis de colesterol;
– Controlar valores de glicémia.

Assim, mediante educação populacional para a saúde (estilo de vida saudável), com divulgação, prevenção, reconhecimento, deteção e intervenção terapêutica precoce nos principais fatores de risco vascular, podemos, a longo prazo, manter a progressiva redução da incidência e prevalência do AVC em Portugal e evitar as suas trágicas consequências em termos de mortalidade e morbilidade (dependência).