Um estudo da Universidade de Barcelona identificou quase 20 genes que podem contribuir para que algumas pessoas sejam mais suscetíveis à depressão, ansiedade e características como irritabilidade e neuroticismo (tendência para comportamentos neuróticos). Estes genes são regulados por um gene (RBFOX1) que atua como o centro de uma rede genética ligada a vários processos-chave na função cerebral. De acordo com os investigadores, esta sobreposição genética entre diferentes perturbações e características pode ajudar a explicar porque é que surgem frequentemente na mesma pessoa.
“Estes resultados fornecem uma nova visão sobre os mecanismos biológicos partilhados pela depressão e por várias perturbações associadas e podem contribuir no futuro para o desenvolvimento de biomarcadores e tratamentos mais personalizados”, explicam os investigadores que coordenaram o estudo.
Um “maestro” genético
O papel do gene RBFOX1 como regulador-chave de uma rede genética implica que este gene não age sozinho nem tem um único efeito, mas funciona “como uma espécie de maestro, ajudando a coordenar quando e como muitos outros genes envolvidos na função cerebral são ativados ou processados”, explicam os investigadores.
Esta descoberta é particularmente relevante em perturbações psiquiátricas complexas, porque condições como a depressão, a ansiedade ou o neuroticismo geralmente não dependem de um único gene, mas dos pequenos efeitos cumulativos de centenas ou mesmo milhares de genes.
“Se um regulador central como o RBFOX1 for alterado, isto pode desencadear uma reação em cadeia em múltiplos processos simultaneamente, como o desenvolvimento neuronal, a comunicação entre neurónios e a regulação da neurotransmissão, o que explicaria porque é que estes distúrbios ocorrem frequentemente em conjunto”, sublinham Bru Cormand e Noèlia Fernández, autores do estudo.
Esta análise abrangente identificou 19 genes regulados pelo RBFOX1 que parecem ser particularmente relevantes para a depressão e outras características frequentemente observadas nos doentes. Entre estes, os investigadores destacam três genes que também regulam a expressão de outros genes. “Além de estarem associados à depressão, estes genes também têm sido relacionados com outras perturbações”, explicam Cormand e Fernández.
Melhorar os tratamentos personalizados
Estes resultados melhoram a compreensão sobre os mecanismos biológicos envolvidos na depressão e nas perturbações relacionadas e, no futuro, poderão ajudar a identificar biomarcadores de risco, melhorar a estratificação dos doentes e facilitar o desenvolvimento de tratamentos direcionados para vias moleculares específicas. Neste sentido, os investigadores salientam que “intervir em mecanismos partilhados poderá beneficiar simultaneamente vários distúrbios que frequentemente coexistem nos doentes”.
Apesar da relevância destas descobertas, os investigadores salientam que estas necessitarão de ser validadas noutras amostras e que as diferenças entre homens e mulheres devem ser exploradas, dada a maior prevalência de depressão entre as mulheres.
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