Um quarto dos adolescentes (25,8%) que, no último ano letivo, participaram no programa de promoção da saúde mental e prevenção de comportamentos suicidários em meio escolar, Mais Contigo, apresentaram, no início da intervenção, sintomatologia depressiva moderada ou grave. Se somarmos aqueles que evidenciaram sinais de depressão considerados ligeiros (14,5%), o número de jovens com sintomas como tristeza permanente, baixa autoestima, perda de interesse ou prazer, e até mesmo pensamentos negativos (por exemplo), sobe para 40,3%.
Estes são alguns resultados da intervenção feita, em 2025-2026, por profissionais de saúde e agentes educativos um pouco por todo o País, divulgados pela Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), instituição copromotora do programa de implantação nacional, que tem a Direção-Geral da Saúde (DGS) como entidade parceira.
No último ano letivo, o Mais Contigo abrangeu o maior número de adolescentes desde o início do programa: foram 18.651 alunos (com 17.952 questionários validados) do 7.º ao 12.º ano de escolaridade, embora maioritariamente do 8.º ano (57%).
De acordo com os dados apresentados pela equipa coordenadora nacional do Mais Contigo, 2.179 adolescentes encontravam-se em maior risco de adotar um comportamento suicidário, sendo 65,9% raparigas. Segundo o coordenador do programa, José Carlos Santos, à semelhança dos resultados obtidos em anos anteriores, a sintomatologia depressiva moderada ou grave surge, “mais uma vez, com maiores repercussões nas jovens, quando comparadas com os rapazes”.
“No final da intervenção, foi possível diminuir a sintomatologia depressiva, aumentar o coping (estratégias para lidar com a adversidade) e o bem-estar em ambos os grupos (de controlo e experimental)”, observa o professor da ESEUC, ao dar nota do “encaminhamento de 344 adolescentes para os cuidados de saúde primários e 141 para os cuidados diferenciados”.
Dados que representam “um aumento significativo relativamente a anos anteriores”, segundo o especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, ao intervir na sessão de abertura do XV Encontro Mais Contigo. As sessões chegaram a 2.002 encarregados de educação e a 3.091 docentes e assistentes operacionais. “Cumprimos, reforçamos dimensões protetores para o comportamento suicidário e reduzimos as de maior risco: estigma e sintomatologia depressiva”, realça o também coordenador clínico da Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico – 1411.
No ano letivo de 2025-2026, os dinamizadores do programa estiveram em todas as regiões de Portugal, em todas as áreas pertencentes às antigas administrações regionais de Saúde e na Região Autónoma da Madeira. Neste período, o Mais Contigo foi implementado num total de 259 instituições de ensino (entre agrupamentos de escolas, estabelecimentos não agrupados e colégios). Foram formados mais 281 dinamizadores, realizadas sessões de sensibilização com 2.002 encarregados de educação e 3.091 docentes e assistentes operacionais.
O coordenador do Mais Contigo assinala, ainda, o funcionamento ininterrupto, desde 2008 “até este ano letivo”, do Mais Contigo, que até ao momento envolveu mais de 100 mil adolescentes. Para este responsável, a recente legislação sobre a organização dos serviços de saúde mental (DecretoLei 113/2021, de 14 de dezembro), com mais proximidade e recursos comunitários, é motivo para ter esperança. Porém, segundo enumerou, mantêm-se alguns desafios, como “a conquista de um lugar para a saúde mental, transversal, sem perder a sua especificidade, na formação dos nossos adolescentes, um reforço no financiamento adequando o mesmo à carga epidemiológica” e “o diálogo entre instituições”.
José Carlos Santos entende que “a complementaridade entre equipas de saúde mental comunitária de crianças e adolescentes e os cuidados de saúde primários, nomeadamente na saúde escolar, necessita de ser aprofundada. A disponibilidade dos auxiliares de educação, pertencentes às autarquias e os tempos de formação necessários ao longo do ano escolar”, mas também “a instabilidade das equipas de cuidados de saúde primários, mobilizadas para outras funções, talvez também necessárias, mas pondo em risco, por vezes a saúde escolar, e obviamente a prevenção, necessitando de um maior reforço de recursos e compensações nas UCC”, foram outros desafios enunciados pelo coordenador do Mais Contigo.
Financiado desde 2013 pela Direção-Geral da Saúde e, atualmente, pela Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, o Mais Contigo trabalha aspetos como o estigma em saúde mental, o autoconceito e a capacidade de resolução de problemas, devidamente enquadrados na fase da adolescência.
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