Mortes por insuficiência cardíaca

Desfecho fatal para maioria dos doentes com insuficiência cardíaca

Por País

É por muitos considerada a epidemia do século XXI, um problema de saúde que continua a desafiar médicos e doentes. E os dados sobre a insuficiência cardíaca são a prova disso mesmo. “Verificamos, em Portugal e no resto do mundo Ocidental, que apesar das evoluções terapêuticas, a mortalidade por insuficiência cardíaca (IC) no médio e longo prazo é muito elevada”, confirma Paulo Bettencourt, especialista em Medicina Interna.

“Para se ter uma ideia, ao fim de cinco anos, cerca de 70% dos doentes que estiveram internados por episódio de IC aguda tiveram um desfecho fatal. Estes números espelham bem a ‘malignidade’ desta condição”, acrescenta o presidente de um encontro que vai ter a IC como protagonista, a 1ª Reunião do Núcleo de Estudos de Insuficiência Cardíaca (NEIC) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que se realiza a 29 de setembro, no Porto.

“Atualmente, cerca de 20% dos internamentos em medicina interna são por episódios de IC aguda”, refere, reforçando que “todos estes números são factos que nos levam a refletir na necessidade de termos abordagens que modifiquem adicionalmente o percurso sombrio destes doentes”.

Esse é, de resto, um dos motes da reunião do NEIC, onde se vão falar sobre “os avanços muito significativos nesta condição, quer em termos do seu conhecimento, quer de terapêuticas que melhoram a sua sobrevida”, assim como da organização dos cuidados de saúde, “um dos aspetos relevantes na abordagem destes doentes”.

São múltiplos os benefícios conhecidos pelos programas de IC. Este aspeto, assim como as experiências nacionais e de Espanha em programas de IC, serão partilhados e debatidos na reunião. “Pretendemos, com esta partilha, poder gerar e fazer crescer programas de IC no âmbito da medicina interna, adaptadas a cada realidade local.”  

Dificuldades no diagnóstico

O diagnóstico é outra das questões em destaque no encontro, uma vez que, refere Paulo Bettencourt, “em cerca de um terço das situações, o diagnóstico pode ser complexo. De facto, os sintomas e sinais de insuficiência cardíaca são partilhados por outras doenças, como a doença respiratória crónica, factos que podem dificultar a sua identificação”.

Esta torna-se, por isso, defende o especialista, “o primeiro passo que necessita de ser robusto, para que possamos desenvolver as estratégias de abordagem para identificar a causa e planear o tratamento”.

O facto de cerca de um terço dos doentes com IC também também sofrerem com doença respiratória crónica é outros dos constrangimentos que complica a situação, sendo “absolutamente necessário sensibilizar os médicos para um diagnóstico ’positivo’ de IC. Ou seja, para que possamos realizar o diagnóstico é necessário um conjunto de características clínicas e de demonstração de alterações de estrutura e/ou função cardíaca. A relevância destes aspetos é fulcral para que a estratégia terapêutica seja a mais adequada”.

Até porque, acrescenta, “desde os anos noventa que acumulamos evidência de que podemos aumentar a longevidade e melhorar a qualidade de vida dos doentes com IC. Sendo  a IC uma condição que se autoperpetua e se agrava ao longo da sua evolução, a intervenção em fases precoces e com menos tempo de evolução proporciona ganhos em saúde para os doentes, daí a sua extrema importância”.   

O desafio dos doentes idosos

Tendo em conta que são cada vez mais os doentes com vários problemas em simultâneo, este torna-se “um aspeto desafiante na IC”.

Aqui, os doentes são sobretudo pessoas com mais idade, explica o médico, “padecendo de diversas outras patologias, como DPOC, diabetes, insuficiência renal, anemia, sendo que a maioria tem mais de duas comorbilidades associadas. Estes aspetos levantam problemas específicos a cada doente na sua abordagem, quer no que concerne ao seu percurso, quer na estratégia terapêutica”.

medicina personalizada nas doenças respiratórias

Medicina Personalizada nas doenças respiratórias melhora a eficácia e reduz efeitos indesejados

Por Investigação & Inovação

A definição de doença até pode ser só uma, mas o impacto que esta tem é diferente consoante os doentes. E é essa especificidade a que a medicina personalizada quer dar resposta, chegando a cada vez mais áreas, como é o caso das doenças respiratórias.

“Quando falamos, aqui, de medicina personalizada, falamos sobre o que de facto é uma determinada doença respiratória numa pessoa específica”, refere Alfredo Martins, coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Respiratórias (NEDResp) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

O que significa que a asma pode não ser apenas uma doença mas várias, “com sintomas clínicos semelhantes e com diferenças significativas ao nível molecular. Se assim for, estas diferentes asmas tratam-se da mesma forma?”

Este tema, e as questões que suscita, vai ser alvo de um debate na 1ª Reunião do NEDResp, que escolheu o tema da Medicina Personalizada nas Doenças Respiratórias.

“Tratar mais ‘doentes’ e menos ‘doenças'”

Um assunto que está na ordem do dia e que, explica Alfredo Martins, significa falar “de diagnósticos e tratamentos que pretendemos o mais personalizados possível. Para isso, podemos ter que pensar fora dos diagnósticos clássicos. Definir a doença num determinado doente pela sua expressão clínica, que pode não se limitar a sintomas respiratórios, pelas suas características moleculares, pela sua relação com outras doenças”.

Por cá, o especialista não tem dúvidas que o tratamento dos doentes sempre foi personalizado. “Os diagnósticos e tratamentos são efetuados e planeados para o doente em causa. O médico trabalhava com um determinado doente, procurando critérios para fixar um diagnóstico (rótulo) a esse doente. Depois, planeava o tratamento de acordo com o diagnóstico”.

No entanto, o conceito evoluiu “no sentido de dar prioridade à definição dum plano de tratamento mais específico, procurando em cada doente ‘características tratáveis’. Assim, trataremos mais ‘doentes’ e menos ‘doenças’ e, ajustando a intervenção terapêutica às necessidades clínicas do doente específico, melhoramos a eficácia e reduzimos os efeitos indesejáveis do tratamento”.

No caso das doenças respiratórias, o especialista considera que se estão “a dar os primeiros passos neste sentido, não só em Portugal mas no mundo em geral”.

literacia dos portugueses

Menos tempo de consultas impede médicos de esclarecer doentes

Por País

Em Portugal, os dados mais recentes confirmam que 38% da população portuguesa apresenta um nível de literacia “problemático” e 11% “inadequado” no que diz respeito à área da saúde. Cabe ao médico esclarecer o doente, mas sendo “cada vez é mais reduzido o tempo concedido pelos administradores para a realização das consultas, isso compromete a possibilidade do doente esclarecer todas as suas dúvidas”.

O alerta é da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) que, nas vésperas do Dia Mundial da Literacia, que se assinala no próximo dia 8, confirma que “cabe ao médico corrigir as anomalias, dando tempo ao doente para expor tudo o que aprendeu na Internet e tem como certo, explicando, sem sobranceria, como é a leitura correta da informação obtida”.

Até porque, acrescenta João Araújo Correia, presidente da SPMI, “ambos são atores e têm de participar em todas as decisões de diagnóstico e terapêutica”.

Iliteracia pode pôr em risco o diagnóstico e terapêutica 

A literacia em saúde é fundamental para evitar alguns constrangimentos nos serviços de saúde, especialmente no que respeita às urgências, garante o especialista. A falta desta leva a que se confiem em dados menos fiáveis que, de acordo com a mesma fonte, podem pôr “em causa o diagnóstico e a terapêutica”.

Por isso, João Araújo Correia reforça que é preciso que estes conhecimentos sejam adquiridos nos locais adequados, devendo ser corrigidos pelo médico quando provêm da opinião pública ou de uma pesquisa na Internet, que nunca têm em conta a especificidade individual. 

Números da iliteracia em saúde não surpreendem

De acordo com os dados do estudo da Fundação Calouste Gulbenkien sobre Literacia em Saúde, entre os grupos com menor conhecimento em saúde estão os idosos, indivíduos com baixos rendimentos e baixos níveis de escolaridade, doentes crónicos ou com doença prolongada e ainda grandes usuários dos serviços de saúde.

Nestes grupos, os níveis de literacia considerados limitados chegam mesmo a ultrapassar os 60%. Para João Araújo Correia, “nada disto é surpreendente e apenas reforça a necessidade de haver um tratamento integrado do doente crónico complexo, com uma grande entreajuda entre a Medicina Interna no hospital e a Medicina Geral e Familiar no ambulatório”.

“Estes doentes, são idosos, têm de ser vistos com frequência, muitas vezes no domicílio, onde estão sós e com grandes dificuldades de mobilidade”, reforça o especialista.

Refere ainda o mesmo estudo que o recurso a familiares e amigos surge de forma destacada como meio de obtenção de informações de saúde. Mas “tomar o medicamento que fez bem ao vizinho e acreditar no diagnóstico do familiar conhecedor, foram sempre ‘travessuras’ dos doentes, muitas vezes não confessadas aos médicos”, refere João Araújo Correia.

O ‘Dr. Google’ é também um meio utilizado para obtenção de esclarecimentos. “A internet é como se fosse uma enorme vizinhança, cheia de opiniões e mitos, com pouca evidência científica”. O que, para o presidente da SPMI, pode “constituir um risco, caso o doente se julgue autónomo e suficientemente sabedor, considerando o médico dispensável”.

A importância da relação médico-doente 

Como podemos, então, reforçar a relação médico-doente, consolidando a posição dos profissionais de saúde como o meio privilegiado de obtenção de informação em saúde? Para João Araújo Correia, a solução está no tempo que o médico deverá conceder ao doente para que este exponha todas as suas dúvidas.

“Saber ouvir é absolutamente essencial para a criação da empatia entre o médico e o doente, que gera a confiança e a abertura de espírito, para a obtenção dos melhores resultados em saúde.”

Lúpus e gravidez: “É preciso acabar com uma série de tabus”

Por Marque na Agenda

Por ser uma doença autoimune que atinge oito a dez vezes mais as mulheres em idade fértil, o lúpus continua a ser motivo para levar muitas a colocar de lado a gravidez. “Acabar com uma série de tabus” associados a este assunto é um dos objetivos da Conferência Internacional “Madeira Lupus Clinic”, que reserva um debate sobre o tema.

Não existe uma causa conhecida para o surgimento da doença, exceto aquelas que raramente estão associadas à ingestão de determinados fármacos específicos. Ainda assim, é possível afirmar que existem fatores de ordem genética, hormonal e ambiental que contribuem para o aparecimento do lúpus, embora também estes sejam ainda uma questão pouco esclarecida. 

Para Jorge Martins, presidente da Conferência, que decorre de 21 a 23 de junho, na Madeira, a questão principal quando uma mulher com lúpus quer engravidar é, desde logo, o período de anticonceção.

“Uma gravidez no lupus é possível e desejável se for programada.”

“E, para ser programada, a pessoa tem de estar protegida, ou seja, tem de saber quais os métodos anticoncecionais que pode e deve usar, para que, depois de estabilizada a doença, então sim, possa engravidar. Caso contrário, numa situação de doença em atividade, poderão ser vários e gravíssimos os problemas para a mãe e para o feto”, explica.

Assim, no momento da conceção, a mulher deve ter a doença estabilizada há seis meses, para garantir uma gravidez mais segura. Contudo, Jorge Martins afirma que “será sempre uma gravidez de risco, mas nestas condições, felizmente, a maioria dos casos são de sucesso e sem complicações para a mãe e sem complicações para o bebé”.

Doença autoimune em destaque

Entre os dias 21 e 23 de junho, o lúpus vai estar em debate na ilha da Madeira, numa conferência internacional destinada não só a profissionais de saúde, mas também aos doentes.

Para Jorge Martins, o envolvimento dos doentes é fundamental, pois acredita que “quanto melhor informado o doente está, melhor tratado ele será, ou seja, quanto mais o doente souber da sua doença e daquilo que nós (médicos) estamos a tentar fazer para que ele melhore, melhor tratado ele ficará”.

O internista destaca, assim, um dos principais pontos deste evento, sublinhando que “é este envolvimento entre nós (médicos) e o doente que queremos criar, sendo esta a primeira parte do programa do Madeira Lupus Clinic”.

A conferência contará com oradores internacionais, entre os quais, Yehuda Shoenfeld, que regressa ao nosso país para falar sobre Lupus Eritematoso Sistémico no último dia do evento.

O programa conta ainda com um curso para jovens médicos de todas as especialidades sobre os sinais e sintomas de alerta que um médico deverá ter em conta para referenciar um doente com uma possível doença autoimune.

Internamento domiciliário, uma alternativa cada vez mais viável

Por Marque na Agenda

O envolvimento do internista na gestão hospitalar, as inovações em saúde e a preocupação com a questão social foram temas em destaque do 24º Congresso Nacional de Medicina Interna, assim como as alternativas ao internamento convencional, uma forma de contornar as limitações dos sistemas de saúde.

Com direito a mesa redonda, foram dadas a conhecer as experiências desenvolvidas no Hospital Garcia de Orta, com um projeto de hospitalização domiciliária, e na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano, alternativas que, considera Estevão de Pape, são já uma aposta de futuro.

Tendo em conta que as limitações ao internamento são um problema da maioria dos sistemas de saúde públicos, resultado do aumento do número de doentes crónicos e com multimorbilidades, o especialista partilha que o Hospital Garcia de Orta foi o primeiro, no País, a ter um internamento domiciliário inserido no serviço de Medicina Interna.

Uma experiência “muito positiva e bem-sucedida”. E que pode, no futuro, servir de exemplo para outras. “Se tivermos 100 camas neste sistema, temos um hospital inteiro em casa”, salienta, reforçando tratar-se de uma alternativa aos sistemas de saúde “que não é só para o doente agudo, mas também para o doente pós-cirurgia”, mas que apenas é concretizável “com uma ligação à Medicina Geral e Familiar”.

Medicina de precisão: que futuro?

A Medicina de Precisão foi outro dos temas em destaque, pela voz de Francisco Araújo, que deixou antever as possibilidades que este conceito permite, mas também os desafios a ele associados.

O co-coordenador do serviço de Medicina Interna do Hospital Beatriz Ângelo realçou que a assinatura genética de cada indivíduo possibilita que se escolha a terapêutica mais eficaz para cada doente e se mitiguem os efeitos secundários, mesmo já na área cardiovascular ou da diabetes.

Segundo Francisco Araújo, a genética é um dos pilares deste conceito, permitindo a simplificação de técnicas de diagnóstico e tratamento. Mas acrescenta que é também a partir deste campo que se levantam as principais dúvidas e dilemas quanto a este admirável Mundo Novo.

A necessidade gigantesca de armazenamento de dados que comporta, que tornam possível estudar populações e aspetos nunca antes analisados, com vantagens incalculáveis, tem custos. “Como é que isto vai ser feito? Quem vai pagá-lo? Tenho hoje mais dúvidas do que certezas… é muita informação e não sei o que podemos fazer a esta onda de dados”, ressalva.

Um congresso “100 margens”

“Este foi um evento de elevado nível científico e um sucesso”, não só em quantidade, mas sobretudo na qualidade do que foi debatido, garante Estevão de Pape, presidente do encontro, que salienta um dos temas em destaque: as alternativas ao internamento convencional.

“Pretendemos colocar na agenda a questão do envelhecimento da população, os idosos, as comorbilidades e o que tudo isso acarreta. Esta tem sido uma grande preocupação da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e foi uma questão abordada no congresso, que conseguiu cumprir os seus objetivos: não ter margens da discussão.”

Um congresso “100 margens”, que mereceu um cumprimento por parte do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa não teve oportunidade de estar presente mas, em vídeo, agradeceu o papel e a missão dos médicos e salientou a importância do tema. Porque, como disse, “não há margens para a reflexão”.

Internistas responsáveis por 23% de todos os doentes saídos dos hospitais do SNS

Por País

Em 2017, os internistas foram responsáveis, só nos hospitais do SNS, pela realização de cerca de 587 mil consultas e pelo atendimento da grande maioria das quatro milhões e 600 mil admissões nas urgências gerais dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Números apresentados no congresso que reúne estes especialistas.

Portugal tem mais de 2.600 internistas inscritos na Ordem dos Médicos, mais de 1.700 dos quais apenas nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O que significa que 8,6% da totalidade dos médicos nestes hospitais são internistas, que dão resposta a milhares de doentes e de consultas: em 2017, saíram dos serviços de Medicina dos hospitais do SNS 188.307 doentes, o que representa mais de 42% dos internamentos médicos (440.188) e 23% de todos os doentes saídos dos hospitais do SNS (802.129).

Estes e outros números foram apresentados esta sexta-feira (1 de junho) na Sessão Solene de Abertura do 24º Congresso Nacional de Medicina Interna, que decorre até ao próximo domingo (dia 3), no Centro de Congressos do Algarve, nos Salgados, por Luís Campos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que cessa agora as suas funções.

O especialista tomou a palavra para mostrar, com recurso aos números, porque é que a Medicina Interna é uma “especialidade nuclear para o sistema de saúde” nacional.

“Em 2017 realizamos, só nos hospitais do SNS, cerca de 587 mil consultas (586.781) e fomos responsáveis pelo atendimento da grande maioria das quatro milhões e 600 mil admissões nas urgências gerais dos hospitais do SNS.”

A estes dados, que confirmam o peso e importância do papel dos internistas, juntam-se vários outros números. “Os serviços de Medicina, nos últimos 10 anos, têm tido uma taxa de ocupação média entre os 102 e os 130%, enquanto a taxa de ocupação média nos hospitais situa-se entre os 80 e os 85%.”

“Os serviços de Medicina Interna foram responsáveis, em 2017, por 85% dos internamentos por pneumonia, 81% dos internamentos por insuficiência cardíaca, 70% dos internamentos por acidente vascular cerebral, 80% dos internamentos por DPOC e 82% dos internamentos por lupus”, apontou Luís Campos, que acredita “que o sistema de saúde e os doentes precisam cada vez mais da Medicina Interna”.

Uma afirmação que justifica socorrendo-se, uma vez mais, de números, que falam bem alto. “A evolução demográfica, particularmente o aumento da esperança de vida, faz com que atualmente tenhamos dois milhões de idosos e que, em 2050, se preveja que tenhamos três milhões e meio. Isto vai fazer aumentar o número de doentes crónicos e particularmente o número de doentes com multimorbilidades.”

Uma ‘peça’ indispensável no SNS

O crescimento do conhecimento é, segundo Luís Campos, outro fator que confirma a necessidade dos internistas e das suas consultas. “Estima-se que o conhecimento em geral duplique a cada treze meses. Isto origina uma fragmentação das especialidades, uma hiperespecialização, gente que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Isto é inexorável, mas os doentes andam ao contrário e precisam que tomem conta deles de uma forma global.”

Finalmente, Luís Campos chamou a atenção para uma “ameaça à sustentabilidade do sistema induzida pela introdução da inovação, particularmente por medicamentos que são cada vez mais caros. A necessidade de maior racionalidade, de escolhas custo-efectivas e o combate ao desperdício vão ser cada vez mais uma prioridade”.

Porque os internistas em Portugal “mantiveram uma capacidade holística, cada vez mais inestimável, são flexíveis, multipotenciais e eficientes e estão preparados para liderar novas modelos de prestação de cuidados mais adaptados aos doentes”, serão eles os protagonistas preferenciais de uma mudança que urge operar.

Uma mudança que, segundo Luís Campos, passa pela “criação de departamentos de medicina geridos por internistas, implementação de unidades diferenciadas, como unidades de AVC, de insuficiência cardíaca, de cuidados intermédios, de geriatria, de doenças autoimunes e outras; de modelos de cogestão dos doentes cirúrgicos, de alternativas aos internamentos, como a hospitalização domiciliária, unidades de diagnóstico rápido e uma melhor utilização dos hospitais de dia”.

Passa ainda por “programas de integração entre os diferentes níveis de cuidados, que garantam a continuidade de cuidados e retirem os doentes crónicos das urgências” e passa ainda por “novos modelos de resposta aos doentes agudos e pela implementação dos cuidados paliativos”.

Os números apresentados são da Administração Central do Sistema de Saúde, tendo sido trabalhados pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Internistas debatem desafios sociais dos serviços de saúde

Por Marque na Agenda

Em tempo de desafios, que nos últimos tempos se têm colocado de forma quase constante aos serviços de saúde, os internistas reúnem-se em congresso para os debater e, dando especial destaque ao “envelhecimento da população e consequentes comorbilidades”, “alternativas ao internamento e a necessidade da redução do número de doentes que acorrem aos serviços de urgência hospitalares”.

Desafios que Estevão de Pape, Presidente do 24.º Congresso Nacional de Medicina Interna, organizado pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, não tem dúvidas “que deverão ser liderados por profissionais de medicina interna, muito pelas qualidades e formação dos seus internistas”.

O encontro servirá também, de acordo com o especialista, como oportunidade para “consolidar conhecimentos” e explicar como “a base holística e a diversidade dos profissionais de medicina interna contribuem para um melhor funcionamento dos serviços de saúde nacionais e, particularmente, dos hospitais”.

De 31 de maio a 3 de junho, o Centro de Congressos do Algarve, nos Salgados, vai ser palco do maior encontro nacional da especialidade, com apresentação de estudos, discussões de temas e apresentações sobre complicações Clínicas em internamentos prolongados por motivo social após alta clínica, caracterização de serviços de medicina, alternativas ao internamento convencional, inovação em saúde ou questões éticas em fim de vida.

Internistas, a “força motriz da vida hospitalar”

Subordinado ao lema ‘Medicina Interna 100 Margens’, o encontro pretende mostrar como “a Medicina Interna não deve ter limites ou margens. Não devemos fechar-nos no hospital sem falar com outras especialidades. Não nos devemos fechar à comunidade e ao doente e aos desafios atuais”, refere Estevão Pape.

“A Medicina Interna é o grande pilar dos hospitais, a força motriz da vida hospitalar, com uma visão global única. Temos de saber liderar mas também ter a responsabilidade da dedicação sem limites, aplicando à doença, e ao doente, todas as áreas da medicina interna e interligando-as para tirar daqui o melhor partido.”

Ver também: Sociedades de Medicina Interna ibéricas unidas na luta pelos sistemas de saúde

Hipertensão arterial é responsável por uma em cada cinco mortes nas mulheres

Por Atualidade

É responsável por uma em cada cinco mortes entre as mulheres, sendo mais pesada a carga da doença no feminino. Falamos sobre a hipertensão arterial, um problema que “pode afetar as mulheres em todas as fases da vida, com características específicas e singulares em cada uma delas”.

A propósito do Dia Mundial da Hipertensão, que se assinala a 17 de maio, Pedro Marques da Silva, coordenador do Núcleo de Estudos de Risco e Prevenção Cardiovascular (NERPC) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), reforça que a hipertensão “é um companheiro para vida, numa relação intempestiva, trespassada por afeções diversas, mas sempre presente, sempre atenta, tanto na prevenção como no tratamento”.

É também o coordenador do NERPC que cita os dados do Global Burden of Disease. Estes dão conta que, em Portugal, “cerca de 41% do total de anos de vida saudável perdidos por morte prematura poderiam ter sido evitados se fossem suprimidos os principais fatores de risco modificáveis”.

E no segundo lugar da lista, logo seguido dos hábitos alimentares inadequados (16%), está a hipertensão arterial (13%). A estes dados juntam-se outros: “em 2015, as doenças cardiovasculares e vasculares cerebrais foram responsáveis por quase 30% das mortes ocorridas em Portugal, com um acréscimo de 0,5% relativamente a 2014, que nos deve obrigar a meditar”.

Ainda assim, Pedro Marques da Silva defende que, “mais ponderadas, as mulheres estão mais conscientes de que têm HTA, ao contrário dos homens, o que, juntamente com a sua singular relação com instituições de saúde desde a saúde materno-infantil, explica, possivelmente, o melhor controlo tensional nas mulheres”.

Apesar de tudo isto, “a taxa bruta de mortalidade foi de 313,2 por 100 mil habitantes, mais elevada para as mulheres (330,6) do que para os homens (293,9). E ainda dizem que as mulheres não morrem de doenças cardiovasculares!…”

Alerta para a doença no feminino

Consciente de que “a presença e a combinação de diversos fatores de risco favorecem o advento, o estabelecimento e a progressão da hipertensão arterial, com afetação do coração, artérias, cérebro e rins e o consequente aumento do risco cardiovascular”, o especialista considera “crucial uma abordagem multifacetada e multifatorial da doença nas mulheres (mas também nos homens!)”.

E isto é conseguido “evitando e controlando o peso, favorecendo uma dieta variada, equilibrada e nutricionalmente adequada (com um aporte adequado de ácido fólico), restringindo o sal, alguns tipos – mais nefastos – de gorduras e o excesso de açúcares de absorção rápida, promovendo o exercício físico regular e a limitação de álcool e restringindo – em tantos casos! – os analgésicos anti-inflamatórios”.

Por isso, a propósito deste Dia Mundial de Hipertensão, deixa um conselho simples:

“Não omita a hipertensão arterial, uma circunstância cardiovascular que é capaz de afetar as mulheres – e é delas que hoje estamos a falar! – em todas as fases da sua vida, concorrendo, de forma impressiva, para uma parte importante da morbilidade e mortalidade do sexo feminino. O tratamento, farmacológico ou não, é eficaz, com redução significativa da doença cardiovascular e melhoria da qualidade de vida.”

Internistas acusam reumatologistas de ataque contra a especialidade

Por Atualidade

À acusação dos reumatologistas, que denunciaram o facto de as doenças do foro reumatológico estarem a ser encaminhadas para as consultas de doenças autoimunes, da alçada da Medicina Interna, a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) responde, acusando os colegas de lançarem um ataque contra os internistas.

Em comunicado feito em conjunto com o Colégio da Especialidade de Medicina Interna da Ordem dos Médicos, a SPMI “lamenta profundamente”, alegando que a Sociedade Portuguesa de Reumatologia, que em carta ao Ministro da Saúde chama a atenção para o assunto, “presta um mau serviço aos doentes, revela um comportamento eticamente reprovável e uma absoluta ausência de escrúpulos na defesa de interesses corporativos, assumindo uma posição que é do foro dos colégios de especialidade da Ordem dos Médicos e na qual, seguramente, muitos reumatologistas não se revêem”.

Mais ainda, alega que “este ataque”, que considera não ter “paralelo na história da relação entre sociedades científicas”, põe em causa “o bom nome, a honorabilidade e a competência profissional dos médicos internistas”, representando “uma grave infração ao código deontológico da Ordem dos Médicos”.

“A SPMI e o CEMI na defesa do bom nome dos médicos que representam e da qualidade dos serviços prestados aos doentes, reservam-se o direito de, por todos os meios ao seu alcance e dentro dos limites das suas competências, exigir a reposição da verdade dos factos. Igualmente serão promovidas as ações necessárias junto do senhor Ministro da Saúde e do Bastonário da Ordem dos Médicos.”

Medicina Interna: uma especialidade “nuclear”

A SPMI e a CEMI salientam que a Medicina Interna “é uma especialidade nuclear no sistema de saúde português, sendo a especialidade mais numerosa nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, assegurando as urgências, o internamento, o apoio aos outros serviços no hospital, as consultas, os hospitais de dia, unidades diferenciadas e programas de integração com os outros níveis de cuidados”.

Abrange, por isso, “enquanto especialidade generalista”, todos os doentes “com doenças médicas de todos os órgãos ou sistemas, estando particularmente vocacionada para os doentes com múltiplas patologias, com doenças sistémicas e sem diagnóstico”.

É o que acontece com as doenças autoimunes, que “têm manifestações sistémicas frequentes, largo espectro de gravidade e, por vezes, complicações graves relacionadas com os medicamentos usados”, sendo situações “para as quais os internistas, especialmente aqueles que asseguram as consultas ou unidades de doenças autoimunes, possuem a formação necessária”. 

“Em Portugal, os Serviços de Medicina Interna asseguram consultas de doenças autoimunes em todos os hospitais do SNS e é graças a estas consultas que milhares de doentes têm acesso a uma abordagem diferenciada e a terapêuticas inovadoras. A Medicina Interna tem um registo de doenças autoimunes, faz formação, tem investigação publicada nas melhores revistas internacionais e tem vários doutorados nesta área”, lê-se no comunicado. 

Nestas e noutras áreas, como a diabetes, AVC, insuficiência cardíaca ou cuidados paliativos. “Pôr em causa a possibilidade de Medicina Interna ter consultas temáticas na sua área é pôr em causa as consultas temáticas de todas as especialidades, o que é um absurdo à luz da prática de uma medicina moderna”, defendem os internistas.

 

Doenças autoimunes afetam três vezes mais mulheres do que homens

Por Marque na Agenda

Não há estatísticas nacionais capazes de fazer o retrato das doenças autoimunes em Portugal, mas no seu conjunto, estima-se que estas doenças afetem três vezes mais mulheres do que homens. De resto, os dados revelam que são uma das principais causas de morte entre as mulheres com menos de 65 anos.

“São doenças que surgem em idades jovens, doenças que podem ser muito agressivas e afetar órgãos nobres, com elevada morbilidade e aumento da mortalidade. Estima-se, por exemplo, que a artrite reumatoide diminua em 10 anos a sobrevida média”, confirma Elisa Serradeiro, presidente da XXIV Reunião Anual do Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes (NEDAI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que este ano discute os problemas que se levantam no dia-a-dia de quem trata estes doentes.

As estimativas do NEDAI, datadas de 2012, apontavam para a existência de cerca de 100.000 pessoas com doenças autoimunes em Portugal.

“Neste momento serão certamente mais, pois há mais casos diagnosticados e um aumento da prevalência, dado o aumento da sobrevida verificado ao longo das últimas décadas”, refere a especialista.

Um diagnóstico tardio, “mas também, e sobretudo, a agressividade da doença”, justificam que estes problemas integrem a lista das que mais matam no feminino. Para a especialista, é necessário “fazer mais intervenções junto dos médicos de família, nos centros de saúde, promover sessões de formação, de forma a alertar para sintomas e sinais sugestivos de doença autoimune, como aliás temos feito, com eficácia, na nossa área de influência”.

Uma sensibilização que ajuda a que os sintomas, muitas vezes vagos, das mulheres mais jovens, sejam levados a sério. “Sendo doenças multissistémicas, podem ter sintomas de diferentes órgãos/sistemas. Podem confundir e simular outras doenças; podem ser inespecíficos e passar despercebidos.”

Cada vez mais respostas

Ao nível dos tratamentos, são cada vez mais as respostas disponíveis. “Um exemplo são os biológicos, que mudaram de forma muito positiva a evolução de algumas doenças autoimunes. Esta é uma das áreas da medicina em maior expansão e ainda alvo de muita investigação, quer básica, quer clínica. Todos os anos saem novos fármacos, todos os anos saem novas classificações, novas escalas, novos princípios fisiopatológicos. Na década de 50 a mortalidade associada ao Lúpus Eritematoso Sistémico era de cerca de 50% aos 5 anos e atualmente é inferior a 10% aos 5 anos”.

Para os médicos, o desafio começa no diagnóstico, refere Elisa Serradeiro. “Muitas vezes os sintomas ou sinais são insidiosos e vão-se somando até ao diagnóstico definitivo. Pode também surgir associação de várias doenças autoimunes. Em doentes diferentes, a mesma doença pode ter apresentações diversas. Acresce o problema das comorbilidades associadas e os efeitos laterais dos fármacos usados, a complicar o seguimento dos doentes.”

Doentes que vão marcar presença na XXIV Reunião Anual do NEDAI, que arranca esta quinta-feira (12 de abril), em Vila Real e que decorre até a 14 de abril, e onde será feito um ponto de situação de diversas doenças autoimunes sistémicas, como miopatias inflamatórias, vasculites, esclerose sistémica, síndrome de Sjögren e  artrite reumatóide.

“É importante os doentes saberem o que têm, colaborarem e partilharem experiências. Cada vez mais os doentes devem ser envolvidos nas decisões terapêuticas, cada vez mais os doentes têm acesso a informação sobre as suas doenças e por isso deve haver uma aproximação de todos os participantes nestas decisões.”