Os sobreviventes de AVC que se sentem desconfortáveis em partilhar os seus pensamentos e sentimentos sobre a sua doença e o futuro apresentam uma recuperação física e cognitiva mais lenta após o AVC, mostra um estudo apresentado na Conferência Internacional de AVC de 2026 da American Stroke Association.
“Ao lidar com o stress e o trauma intenso, muitas pessoas beneficiam de um ambiente social acolhedor onde podem conversar sobre o que estão a viver”, explica a autora principal do estudo, E. Alison Holman, professora de enfermagem na Escola de Enfermagem Sue & Bill Gross da Universidade da Califórnia, nos EUA.
“No entanto, quando os sobreviventes de AVC se sentem desconfortáveis em partilhar os seus pensamentos/sentimentos porque acreditam que falar sobre o assunto deixará os outros desconfortáveis, ou que os outros não vão querer ouvir as suas preocupações, estas restrições à partilha podem ser prejudiciais para a sua saúde.”
Os investigadores quiseram perceber se as restrições sociais à partilha de sentimentos e emoções previam a solidão e a incapacidade funcional e cognitiva um ano após um AVC.
A análise incluiu mais de 700 participantes do estudo STRONG, realizado em 28 locais nos EUA, que já tinha revelado que a recuperação um ano após um AVC é pior se na vida da pessoa antes do AVC tiver havido um nível mais elevado de stress e trauma, se apresentou sintomas de stress pós-traumático enquanto ainda estava hospitalizada após o AVC ou se possuía determinadas variações genéticas.
No estudo atual, os investigadores avaliaram a perceção dos participantes sobre as restrições sociais três meses após o AVC, após o período inicial de recuperação. Os sobreviventes de AVC identificaram uma pessoa de quem dependem regularmente, geralmente um familiar que atua como cuidador, e responderam a duas perguntas sobre as suas interações com essa pessoa:
- “Na última semana, com que frequência teve a sensação de que ele ou ela não queria ouvir sobre os seus sentimentos em relação ao AVC ou os seus receios sobre futuros problemas de saúde?”; e
- “Com que frequência sentiu que precisava de guardar para si os seus sentimentos sobre o AVC ou os seus medos sobre futuros problemas de saúde porque o(a) deixavam desconfortável ou perturbado(a)?”
A análise constatou que, um ano após o AVC, as pessoas que se sentiam menos capazes de partilhar abertamente os seus sentimentos aos 90 dias tinham maior probabilidade de enfrentar diversos desafios:
– Sentiam-se mais sós, relatando que se sentiam mais excluídas, isoladas ou sem companhia na última semana.
– Tinham mais dificuldade nas atividades diárias, como alimentar-se ou tomar banho (precisavam de mais ajuda no geral).
– Apresentavam maiores problemas com as capacidades cognitivas, incluindo a memória, a atenção e a linguagem.
Para os cuidadores, Holman recomenda: “criar um espaço seguro para que as pessoas falem sobre o AVC, deixem-nas falar sobre os seus sentimentos e sobre o que estão a passar, para que possam processar o que aconteceu e o que está a acontecer. No entanto, não tentem forçar, porque nem todos têm de verbalizar as suas emoções. Oferecer um espaço seguro para que partilhem, se necessário, é fundamental”.
Novas formas de ajudar
Os investigadores observaram que, se estes resultados forem confirmados em estudos futuros, poderão ser desenvolvidas intervenções para ajudar os sobreviventes a enfrentar menos desafios sociais.
Amytis Towfighi, médica e membro da Academia Americana de Hemorragia, especialista da American Stroke Association, considera que, “embora o apoio social seja cada vez mais reconhecido como benéfico após um AVC, pouco se sabe sobre como as restrições sociais afetam a recuperação. Este estudo é um dos primeiros a avaliar a sua influência nos resultados psicológicos, cognitivos e funcionais a longo prazo. As descobertas oferecem informações valiosas que podem orientar as intervenções para melhorar a recuperação.”
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