Scroll Top

Estudo aponta falhas na denúncia de maus-tratos a pessoas mais velhas

maus-tratos a idosos

Dois terços dos médicos dos centros de saúde não suspeitam de pelo menos um caso de maus-tratos a pessoas mais velhas ao longo de um ano. Entre os que suspeitam deste tipo de violência (32%), menos de metade reporta essa suspeita às autoridades competentes e 16,9% optam por não denunciar o caso, a pedido das próprias vítimas ou dos seus cuidadores.

Estas são algumas das conclusões de um estudo desenvolvido por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e publicado pela revista científica BMC Public Health, especializada em temas de Saúde Pública.

“O número de casos suspeitos e reportados pelos cuidados de saúde primários está muito abaixo da prevalência estimada de vítimas”, afirmam Sofia Frazão e Teresa Magalhães, professoras da FMUP e coautoras deste trabalho, intitulado “Reading between the lines. Older people’s maltreatment – from detection to reporting in primary healthcare”.

Os investigadores realizaram um questionário a médicos de família para avaliar as suas perceções, experiências e desafios na deteção e notificação de casos de maus-tratos contra pessoas mais velhas (a partir dos 65 anos), incluindo violência física e/ou psicológica, abuso sexual, abuso financeiro e negligência.

A amostra foi composta por 356 clínicos da região Norte, nomeadamente de unidades do Alto Minho, Trás-os-Montes, Douro, Tâmega e Sousa e Área Metropolitana do Porto. O questionário abrangia 13 itens, desde a perceção da responsabilidade na deteção de casos de violência contra pessoas mais velhas até ao conhecimento dos procedimentos a adotar.

“Embora 94% dos participantes concordem que o médico tem a responsabilidade de detetar maus-tratos a pessoas mais velhas, dois terços não desconfiaram de qualquer caso nos 12 meses anteriores ao estudo”, informam as professoras da FMUP.

De acordo com os resultados, cerca de 55% dos médicos revelam confiança em identificar sinais de abuso físico ou negligência. Para metade dos médicos auscultados, “o maior desafio é a ambiguidade dos sintomas psicológicos”.

O que precisa de mudar

As autoras apontam várias explicações para a dificuldade em lidar com este tema. O risco de confundir uma lesão não intencional com um sinal de violência é uma delas. Mas há outras, como o medo de ofender os doentes, de “quebrar” a confidencialidade ou de agravar o nível de violência, bem como a falta de protocolos e a falta de tempo para abordar a questão durante a consulta.

Outra conclusão preocupante é que apenas 36,5% dos médicos de família sabiam como reportar os casos suspeitos de maus-tratos. “A informação é crucial na preparação dos profissionais para lidarem com estas situações. A ênfase deve ser colocada no treino e em mecanismos integrados de resposta que garantam um apoio efetivo às vítimas”, afirmam.

Entre as principais necessidades dos profissionais neste âmbito estão “uma melhor colaboração com assistentes sociais, o reforço do treino, a clarificação dos critérios de diagnóstico e a implementação de protocolos que simplifiquem o processo de notificação”.

“Os profissionais de saúde desempenham um papel fundamental. Temos de aumentar os nossos esforços com estratégias multidisciplinares e pluridisciplinares essenciais para proteger e cuidar melhor das pessoas mais velhas”, concluem.

Estima-se que 12,3% dos portugueses mais velhos já tenham experimentado pelo menos uma situação de violência nos 12 meses anteriores, como indica um estudo prévio de prevalência publicado em 2015. Os maus-tratos têm consequências graves, a curto e a longo prazo, sobre a saúde das vítimas, como, por exemplo, maior risco de ferimentos traumáticos, de intoxicação e de uma série de doenças somáticas e mentais, em comparação com a população geral, sendo cada vez mais considerados um problema de saúde pública a nível mundial.

Crédito imagem: Pexels

Posts relacionados