Os antibióticos salvam vidas, mas também representam uma ameaça global para a saúde. Noëlie Maurin, cientista da SINTEF, uma das maiores organizações de investigação independentes da Europa, tem uma ideia que pode ajudar a resolver o problema: remover os resíduos antes destes serem descartados para o esgoto.
A maioria das pessoas não pensa muito sobre o que acontece aos medicamentos depois de os tomarmos, mas os seus resíduos não desaparecem. “Os antibióticos estão agora omnipresentes na cadeia alimentar. A sobreexposição é, por isso, um grande problema”, afirma a investigadora da SINTEF.
Por ano, estima-se que 8.500 toneladas de antibióticos acabem nos rios do mundo. Isto representa quase um terço do consumo total destes medicamentos pela humanidade. Estas emissões resultam não só em poluição, como também contribuem para o desenvolvimento da resistência, uma das maiores ameaças à saúde global.
Remover os antibióticos na fase da sanita
As tentativas de remover os resíduos de medicamentos ocorrem frequentemente em estações de tratamento de esgotos. No entanto, nessa altura, a concentração de antibióticos na água já foi significativamente reduzida.
Durante um tratamento de dez dias com antibióticos, uma pessoa excreta cerca de 30 gramas de antibióticos que acabam por ir pelo cano abaixo, mas são eliminados em enormes quantidades de água. “A ideia é, em vez disso, tratar esta poluição diretamente na fonte, na urina, onde a concentração é elevada”, escreve a investigadora, que dirige a sua atenção para a casa de banho.
A solução é simples, em princípio: um pequeno recipiente com um filtro com carvão ativado é acoplado à sanita e capta os resíduos de antibióticos antes que sejam eliminados e acabem por ser demasiado diluídos na estação de tratamento.
O carvão ativado é bem conhecido em relação à purificação da água, uma vez que o material se liga eficazmente a compostos orgânicos, incluindo resíduos de medicamentos e purifica a água onde a concentração de resíduos é elevada, o que evita o problema da diluição. “Uma solução como esta na fonte reduziria o efeito de diluição e aumentaria o grau de purificação”, afirma Maurin.
Um dos pontos fortes desta ideia é que não exige grandes investimentos em infraestrutura e pode funcionar onde a purificação avançada não está disponível, como em cidades mais pequenas e em países com recursos limitados, reduzindo significativamente o impacto dos antibióticos a baixo custo e que poderia ser utilizada em qualquer lugar.
Pequenos passos, grande impacto
A resistência aos antibióticos é frequentemente descrita como uma “pandemia silenciosa”. Medidas conhecidas, como a redução do uso de antibióticos, são importantes, mas não são suficientes. As emissões também precisam de ser geridas. A contribuição de Maurin mostra que as soluções não têm de ser complicadas para serem eficazes. Por vezes, podem ser surpreendentemente simples. E, neste caso, um copo de carvão ativado pode ser um pequeno, mas importante passo na luta contra um dos maiores desafios de saúde da atualidade.
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