Sabe-se que o consumo de frutas e legumes é essencial, sobretudo para as crianças, para garantir um crescimento e desenvolvimento físico e mental saudáveis. Da mesma forma, sabe-se que o consumo de peixe é fundamental para o desenvolvimento adequado do cérebro infantil, melhorando a estrutura neuronal e influenciando o desempenho académico, além de promover o crescimento e desenvolvimento ósseo e muscular. Mas será que o consumo destes dois grupos alimentares pode influenciar o bem-estar emocional das crianças?
Foi exatamente isso que um grupo de investigadores da Faculdade de Ciências da Atividade Física e do Desporto (INEF) da Universidade Politécnica de Madrid analisou, e a resposta pode surpreendê-lo. Os resultados do estudo mostram que o consumo frequente de frutas, legumes e peixe entre as crianças reduz significativamente o risco de problemas no bem-estar emocional.
“O principal objetivo foi analisar se dois hábitos alimentares simples e fáceis de comunicar — consumir vegetais pelo menos duas vezes por dia e peixe duas ou três vezes por semana — estão associados a um menor risco de baixa qualidade de vida relacionada com a saúde em crianças em idade escolar”, explica Alicia Portals-Riomao, investigadora do grupo ImFINE e uma das autoras do estudo, que integra o projeto ASOMAD (Atividade Física, Comportamento Sedentário e Obesidade na Cidade de Madrid). Este estudo longitudinal examina múltiplas dimensões da saúde infantil — alimentação, atividade física, bem-estar emocional e fatores socioeconómicos — no contexto pós-pandemia de COVID-19.
Como objetivos secundários, os investigadores mediram o efeito combinado dos dois hábitos, a sua independência de outros fatores como a atividade física, o tempo de ecrã e o nível socioeconómico, e a robustez dos resultados considerando a qualidade geral da dieta e vários modelos estatísticos.
Para isso, utilizaram dados de uma grande coorte urbana, que permitiu analisar a evolução da saúde infantil após a pandemia e considerar fatores sociais, comportamentais e ambientais de forma integrada.
“Os resultados mostram que tanto o consumo frequente de vegetais como o de peixe estão associados, de forma independente, a uma menor probabilidade de baixo bem-estar emocional em crianças em idade escolar. Especificamente, as crianças que consumiam vegetais pelo menos duas vezes por dia ou peixe duas a três vezes por semana apresentaram um menor risco de baixa qualidade de vida relacionada com a saúde”, acrescenta Augusto G. Zapico, professor do Departamento de Saúde e Desempenho Humano e investigador principal do estudo. “O efeito combinado do peixe e dos vegetais foi positivo, embora não estritamente aditivo, sugerindo a influência de múltiplos fatores na saúde emocional das crianças.”
E quanto ao desporto?
O estudo demonstra também a influência da atividade física regular, que teve um efeito protetor, enquanto o aumento do tempo passado em frente aos ecrãs esteve associado a uma pior perceção de bem-estar emocional.
Para os investigadores, a principal vantagem deste estudo, recentemente publicado na revista internacional Children, reside nas suas descobertas, que identificam metas alimentares específicas, alcançáveis e facilmente transferíveis para os ambientes escolar e doméstico. Estas metas podem contribuir para a melhoria do bem-estar emocional das crianças, além de promover a atividade física e reduzir o comportamento sedentário digital.
“A investigação fornece evidências úteis para o desenvolvimento de programas de saúde pública, políticas educativas e estratégias para promover hábitos saudáveis nas crianças, especialmente numa perspetiva de equidade social”, concluem.
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