É para já um estudo piloto, mas ainda que seja preciso mais trabalho e investigação, um grupo de investigadores acredita que o cancro da mama pode ser detetado, até cinco anos antes da existência de quaisquer sinais clínicos, através de um exame de sangue que identifica a resposta imunitária do organismo perante substâncias produzidas pelas células dos tumores.

A novidade foi apresentada na Conferência do National Cancer Research Institute 2019, no Reino Unido. 

As células cancerígenas produzem proteínas, os chamados antígenos, que fazem com que, por sua vez, o corpo produza anticorpos contra elas, os autoanticorpos.

Investigadores da Universidade de Nottingham descobriram que estes antígenos, associados a tumores (TAAs), são bons indicadores do cancro. Por isso, desenvolveram painéis de TAAs, que já são conhecidos como estando associados ao cancro da mama, para detetar se existem ou não autoanticorpos em amostras de sangue dos doentes.

Num estudo piloto, foram recolhidas amostras de sangue de 90 doentes com cancro da mama no momento em que foram diagnosticados, às quais se juntaram amostras recolhidas de 90 pessoas sem a doença (o chamado grupo de controlo).

“Os resultados de nosso estudo mostram que o cancro da mama induz autoanticorpos contra paineis de antígenos específicos associados a tumores. Conseguimos detetar o cancro com razoável precisão, identificando esses autoanticorpos no sangue”, refere Daniyah Alfattani, uma das especialistas envolvida no trabalho.

Resultados considerados “encorajadores”

Foram identificados vários painéis de TAAs contra os quais se testaram os autoanticorpos e quanto mais antígenos dispunha, maior a sua fiabilidade. Um dos painéis, composto por cinco TAAs, detetou corretamente o cancro da mama em 29% das amostras e identificou corretamente 84% das amostras de controlo como livres de cancro.

Um painel com sete antígenos identificou corretamente o cancro em 35% das amostras, tendo identificado também de forma correta a inexistência do mesmo em 79% das amostras do grupo de controlo, enquanto o painel com nove identificou corretamente o cancro em 37% das amostras.

“Precisamos de desenvolver e validar ainda mais este teste”, afirma Daniyah Alfattani. “No entanto, estes resultados são encorajadores e indicam que é possível detetar um sinal de cancro da mama precoce.”

“Depois de melhorarmos a precisão do teste, abre-se a possibilidade de usar um simples exame de sangue para melhorar a deteção precoce da doença.”

Forma mais simples de detetar cancro da mama

“Um exame de sangue para deteção precoce do cancro da mama seria rentável e de particular valor nos países de rendimentos médios e baixos. Seria também um método de triagem mais fácil de implementar em comparação com os métodos atuais, como a mamografia”, considera Alfattani.

Os investigadores estimam que, com um programa de desenvolvimento totalmente financiado, o teste poderá tornar-se realidade na prática clínica dentro de cerca de quatro a cinco anos.

Um teste semelhante para o cancro do pulmão está atualmente a ser testado na Escócia, envolvendo 12.000 pessoas com elevado risco de desenvolver a doença por serem fumadores. 

Ao mesmo tempo, os investigadores estão a trabalhar noutros testes para o cancro do pâncreas, colorretal e hepático que, juntamente com o do pulmão e mama, representam cerca de 70% de todos os cancros.

“Um exame de sangue capaz de detetar qualquer um desses cancros em um estágio inicial é o objetivo primordial do nosso trabalho”, concluiu Alfattani.