Consultar o mesmo médico evita mortes

Consultar sempre o mesmo médico pode salvar vidas

Por Atualidade, Investigação & Inovação

Costuma mudar muitas vezes de médico? Se sim, talvez seja melhor repensar essa estratégia. É que, de acordo com um estudo inovador, os doentes que consultam o mesmo médico ao longo do tempo têm menores taxas de mortalidade.

A garantia é dada pelos especialistas da Clínica de St Leonard em Exeter e da University of Exeter Medical School, no Reino Unido que, num trabalho publicado na revista BMJ Open, fazem a primeira revisão sistemática da relação entre as taxas de mortalidade e a continuidade dos cuidados de saúde.

“Há muito que os doentes sabem que importa qual o médico que veem e como podem comunicar com ele. Até agora, permitir que consultem o médico da sua escolha tem sido considerada uma questão de conveniência ou cortesia: mas é claro que se trata da qualidade da prática médica e é literalmente ‘uma questão de vida ou morte'”, esclarece Denis Pereira Gray, um dos autores do trabalho.

“A continuidade do cuidado acontece quando um doente e um médico se veem repetidamente e se conhecem. Isso leva a uma melhor comunicação, satisfação do paciente, adesão ao aconselhamento médico e muito menor uso de serviços hospitalares”, garante Philip Evans, da da University of Exeter Medical School.

“Como a tecnologia médica e os novos tratamentos dominam as notícias médicas, o aspeto humano da prática médica tem sido negligenciado. O nosso estudo mostra que pode potencialmente salvar vidas e deve ser priorizado.”

Redução confirmada da mortalidade

De acordo com o estudo, o contacto repetido entre médico e doente está relacionado com um menor número de mortes. O efeito encontra-se em diferentes culturas e verificou-se não apenas para médicos de família, mas também para especialistas, incluindo psiquiatras e cirurgiões.

A revisão feita analisou os resultados de 22 estudos, de nove países com culturas e sistemas de saúde muito diferentes. Destes, 18 (82%) verificaram que o contacto repetido com o mesmo médico ao longo do tempo representava menos mortes ao longo dos períodos de estudo, comparando com aqueles sem continuidade.

fadiga associada à endometriose

Fadiga, sintoma comum mas subestimado na endometriose

Por Atualidade, Investigação & Inovação

A fadiga é um sintoma comum, mas subestimado na endometriose, revelam os resultados de um estudo internacional realizado com mais de 1.100 mulheres.

Publicado na Human Reproduction, uma das principais revistas de medicina reprodutiva do mundo, o trabalho concluiu que a prevalência da fadiga foi mais do dobro em mulheres diagnosticadas com endometriose, comparando com as que não foram afetadas por esta doença, e manteve-se significativa mesmo depois de ajudada a outros fatores, como dor, insónia, stress ou depressão.

“Estes resultados sugerem que a endometriose tem um efeito sobre a fadiga que é independente de outros fatores e que não pode ser atribuída a sintomas da doença”, explica Brigitte Leeners, especialista do Departamento de Endocrinologia Reprodutiva do Hospital Universitário de Zurique, na Suíça, e líder da investigação.

“Embora a fadiga crónica seja conhecida como um dos sintomas mais debilitantes da endometriose, não é amplamente discutida e poucos são os grandes estudos que a investigaram”, acrescenta.

“Acreditamos que, para melhorar a qualidade de vida das mulheres com esta doença, os médicos devem investigar e abordar este problema quando estiverem a discutir com os seus doentes as melhores formas de administrar e tratar o problema.”

Prevalência elevada

A endometriose é um problema no qual as células endometriais que formam o interior do útero crescem também noutras áreas da região pélvica, como os ovários e a cavidade abdominal, sendo os principais sintomas a dor e infertilidade.

Não se sabe o que causa a doença, mas trata-se de um problema comum, com uma prevalência global entre 6-10%, que pode ser tratado com medicamentos e com cirurgia.

Um sintoma com grande impacto

Para o estudo, os investigadores recrutaram 1.120 mulheres, 560 das quais com endometriose e outras tantas sem a doença, de hospitais e consultórios particulares na Suíça, Alemanha e Áustria, entre 2010 e 2016.

As mulheres completaram um questionário que as inquiriu sobre vários fatores relacionados com a qualidade de vida e endometriose, como bem como histórias médicas e familiares, estilo de vida e transtornos mentais. Fadiga e insónia foram categorizadas em cinco níveis diferentes, variando de 1 (nunca) a 5 (com muita frequência).

A análise permitiu verificar que 50,7% das mulheres diagnosticadas com endometriose sofriam de fadiga frequente, comparando com 22,4% das que não tinham a doença. Fadiga e endometriose foi também associada a um aumento em sete vezes das insónias, quatro vezes da depressão, duas vezes da dor e quase 1,5 vezes do stress ocupacional. 

plataforma para autistas

LEMA quer ajudar as crianças com autismo a aprender Matemática

Por Investigação & Inovação

Chama-se LEMA e é o primeiro site português nascido para ajudar na Matemática as crianças com perturbação do espectro do autismo. Mas mais do que os números, esta iniciativa quer ainda auxiliar os mais pequenos nas áreas da linguagem, leitura, planeamento ou gestão de emoções.

A ideia é de Isabel Santos, desenvolvida no Doutoramento em Multimédia em Educação na Universidade de Aveiro. E é ela que explica, em comunicado, que “os resultados obtidos nas sessões de aferição com crianças e com professores e educadores da Educação Especial permitem assumir o LEMA como um importante instrumento de apoio à promoção do desenvolvimento do raciocínio matemático em crianças com PEA”.

O LEMA, das iniciais em inglês de Learning Environment on Mathematics for Autistic children, é facilmente acessível a partir do link http://lema.cidma-ua.org e é também “um auxiliar aos desenvolvimentos da linguagem e leitura, do planeamento, da memorização, da gestão de emoções, da atenção e concentração e da interação entre pares”.

Desta forma, considera Isabel Santos, o ambiente digital “poderá constituir-se como um instrumento pedagógico relevante para a premissa de uma escola inclusiva, garantindo o acesso e equidade de crianças com perturbação do espectro do autismo ao processo de ensino e de aprendizagem, preparando a sua transição para uma vida ativa em sociedade”.

Mais de 30 classes de atividades

Destinado a crianças entre os 6 e os 12 anos diagnosticadas com perturbação do espectro do autismo, o LEMA contém dois perfis de utilizadores: um para o educador e outro para a criança. Integra 32 classes de atividades de matemática, cada uma delas subdividida em cinco subclasses, de acordo com níveis de dificuldade.

A plataforma permite não só a seleção personalizada de uma até dez classes e subclasses de atividades tendo em conta o perfil funcional do utilizador-aluno, como ainda a visualização do registo de desempenho de cada aluno na realização das atividades propostas por parte do utilizador-educador.

Número de crianças com autismo a aumentar

“O layout das atividades/desafios satisfaz os requisitos identificados por vários investigadores da área das tecnologias digitais para crianças com perturbação do espectro do autismo, nomeadamente a presença de poucos itens no ecrã, a utilização de linguagem visual e textual simples e direta e a integração de informações em múltiplas representações, como texto, vídeo, áudio e imagem, fornecendo instruções e orientações claras”, explica Isabel Santos.

O número de alunos diagnosticados com esta perturbação tem aumentado nas últimas décadas em Portugal. O estudo mais recente, realizado pela Federação Portuguesa de Autismo, refere-se a 2011 e 2012 e dá conta de uma prevalência de 15,3 crianças/jovens diagnosticadas em cada 10 mil.

“Apesar das tecnologias digitais terem sido identificadas, pela comunidade científica, como um recurso de grande interesse para indivíduos com esta perturbação são escassas as pesquisas que exploram a sua efetiva utilização no sentido do desenvolvimento de capacidades matemáticas de crianças com autismo.”

Por isso, o LEMA de Isabel Santos quer também chamar a atenção para a necessidade de se desenvolverem mais ambientes digitais promotores do desenvolvimento de capacidades destas crianças.

Preparado para ser utilizado pelos mais variados dispositivos tecnológicos (computador, tablet, smartphone, etc) e nos mais variados contextos (sala de aula, casa, gabinetes psicoeducativos, etc), o trabalho de Isabel Santos foi orientado pelas professoras Ana Breda, do Departamento de Matemática, e Ana Margarida Almeida, do Departamento de Comunicação e Arte.

O LEMA foi desenvolvido pela Linha Temática Geometrix, do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações, emergindo de uma colaboração frutífera entre esta unidade de investigação e a Digital Media and Interaction (DigiMedia) da Universidade de Aveiro.

Insulina em forma de comprimido

Insulina em forma de comprimido, uma promessa mais perto da realidade

Por Investigação & Inovação

Uma picada de agulha uma ou duas vezes ao dia continua a ser, para muitos diabéticos, a única forma de tomar a insulina indispensável para o controlo da doença. E se em vez disso pudessem tomar um comprimido? É para isso que está a trabalhar uma equipa britânica, que promete resultados em breve. 

Se dessem a escolher entre tomar um comprimido ou injetar-se com uma agulha, a maioria de nós optaria pela primeira. Uma escolha que milhões de pessoas com diabetes não podem fazer.

O que os investigadores da Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas John A. Paulson, de Harvard, pretendem é, através de um método oral, transformar a forma como os diabéticos mantêm os níveis de açúcar no sangue dentro dos valores desejados.

Uma mudança que não promete apenas melhorar a qualidade de vida de até 40 milhões de pessoas com diabetes tipo 1 em todo o mundo, mas pode reduzir os efeitos secundários resultantes do facto de os doentes não conseguirem receber as injeções necessárias.

Facilitar a vida aos diabéticos

Publicada na revista científica Proceedings of National Academy of Sciences, a investigação parte do princípio de que o tratamento com insulina injetada consegue manter os níveis de glicose da maioria dos diabéticos sob controlo.

“Mas muitas pessoas não conseguem aderir a este regime devido a dor, fobia de agulhas e interferência com as atividades normais”, refere o autor sénior do estudo, Samir Mitragotri, professor de Bioengenharia da Hiller
e Hansjorg Wyss.

“As consequências de um controlo glicémico deficiente podem levar a problemas de saúde e complicações graves”, acrescenta

Encontrar uma forma de administrar insulina por via oral tem sido difícil, uma vez que a proteína não se dá bem quando encontra o ambiente ácido do estômago e é mal absorvida pelo intestino.

A chave para a nova abordagem é transportar a insulina num líquido iónico, colocado numa cápsula revestida com um ácido resistente ao revestimento dos intestinos.

Insulina por via oral consegue ultrapassar maiores obstáculos

A formulação é biocompatível, fácil de fabricar e pode ser armazenada até dois meses à temperatura ambiente sem degradação, o que é um período mais longo do que aquele de alguns produtos de insulina injetável atualmente no mercado.

“Uma vez ingerida, a insulina deve percorrer uma pista de obstáculos desafiadores antes de ser efetivamente absorvida pela corrente sanguínea”, afirma Mitragotri. “A nossa abordagem funciona como um canivete suíço, onde a pílula tem ferramentas para lidar com cada um dos obstáculos que encontra.”

Ao encapsular a formulação líquida iônica de insulina em um revestimento entérico, a equipe superou o primeiro obstáculo, resistindo à quebra pelos ácidos gástricos no intestino. Este polímero

Mais perto de um comprimido

Mark Prausnitz, especialista do Georgia Institute of Technology, que não esteve envolvido neste trabalho considera que o estudo “mostra resultados notáveis, com a insulina administrada por via oral em combinação com um líquido iónico funciona tão bem como uma injeção convencional”.

“As implicações deste trabalho para a medicina podem ser enormes, se as descobertas puderem ser traduzidas em pílulas que administram de forma segura e eficaz a insulina e outros medicamentos peptídicos aos seres humanos.”

A insulina ingerida oralmente imita mais de perto a forma como o pâncreas de uma pessoa saudável produz insulina. Pode também pode atenuar os efeitos adversos de tomar injeções por um longo período de tempo.

O passo seguinte é a realização de mais testes , assim como estudos de biodisponibilidade. Mas os investigadores estão otimistas e acreditam que, se tudo correr bem, vão conseguir a aprovação para eventuais testes clínicos em humanos.

E se os trabalhos adicionais progredirem como esperado, a abordagem poderá ser usada para entrega oral de outras proteínas. 

a importância da hidratação

Papel das bebidas para desportistas deve ser manter a hidratação ideal

Por Investigação & Inovação

As bebidas destinadas aos praticantes de atividades físicas devem “fornecer hidratos de carbono como fonte essencial de energia” e ser eficazes “na manutenção da hidratação ideal”, defende a Sociedade Espanhola de Medicina do Desporto (SEMED), numa nova declaração sobre o tema.

De acordo com o texto, a ingestão de líquidos com diferentes tipos de hidratos de carbono e eletrólitos “antes, durante e após a prática de exercício prolongado pode prevenir a desidratação, atenuar os efeitos da perda de líquidos na função cardiovascular e no desempenho durante o exercício”.

Pode ainda, acrescenta o mesmo documento, “atrasar e minimizar a fadiga muscular”, juntando-se aqui a capacidade de melhorar o sabor da bebida, favorecerem “o desejo de beber e exercerem um efeito reduzido, se não mesmo nulo, sobre o esvaziamento gástrico em concentrações que se situam entre 4% e 8%”.

Hidratos de carbono, ingrediente essencial

Há muito que as sociedades científicas europeias se debruçam sobre o tema. E, até agora, era consensual que a composição de bebidas para as pessoas que praticam atividade física intensa deviam proporcionar não menos de 80 kcal/l e não mais de 350 kcal/l.

Tinha já sido também definido que 75% destas bebidas deveriam ser provenientes de hidratos de carbono com um alto índice glicémico (glicose, sacarose e maltodextrinas).

O que este documento vem agora acrescentar é que esses hidratos de carbono não devem representar mais de 90 gramas por litro; no caso do sódio, não menos de 460 mg por litro (46 mg por 100 ml/20 mmol/l) e não mais de 1.150 mg por litro (115 mg por 100 ml/50 mmol/l).

As características deste acordo europeu coincidem com as estabelecidas no Regulamento (UE) n.º 432/2012, que estabelece uma lista de alegações de saúde permitidas sobre os alimentos, para além daquelas referentes à redução do risco de doenças e ao desenvolvimento e saúde das crianças.

Estas características baseiam-se nas já referidas pelo Comité Científico de Alimentação Humana da Comissão Europeia no seu relatório de 2001 sobre a composição e especificações de alimentos destinados a satisfazer os gastos de esforço muscular intenso (especialmente para desportistas masculinos e femininos).

Desportistas podem perder mais de três litros de líquidos por hora

A atenção vira-se para os desportistas porque, de acordo com a SEMED, “quando se realiza exercício físico, uma grande percentagem da energia produzida pela contração muscular é libertada em forma de calor, que deve ser eliminado rapidamente para evitar um aumento da temperatura do corpo acima de um nível crítico”.

Por esta razão, “o organismo ativa diferentes mecanismos projetados para dissipar o calor acumulado, dos quais o mais importante é o da transpiração”.

De facto, um atleta bem treinado e com uma preparação adequada, em condições ambientais de calor e humidade, pode perder “mais de três litros por hora de líquidos através da evaporação do suor”.

O documento conclui que “os dois elementos que mais contribuem para o desenvolvimento da fadiga durante o exercício físico são a diminuição dos hidratos de carbono armazenados no organismo na forma de glicogénio e o aparecimento de desidratação pela perda de água e eletrólitos através do suor, cuja reposição é essencial para restabelecer a homeostase”.

Vai de viagem? Cuidado com os medicamentos que leva

Por Investigação & Inovação

Se está a preparar as férias e se estas incluírem uma viagem para fora do país, tenha cuidado com a medicação que leva na bagagem. É que há nações onde os medicamentos, mesmo que justificados no país de origem, podem levar à prisão.

O alerta é dado pela Foreign and Commonwealth Office, uma agência estatal britânica, e destinado aos seus cidadãos, mas que serve de aviso geral. A organização aconselha, antes de mais, que se procure saber qual a política do país de destino em relação a este assunto antes da viagem.

É que há nações que não permitem a entrada de certos tipos de medicamentos, enquanto outras podem ter regulamentos que exijam uma permissão específica para o seu uso, regras também aplicáveis aos medicamentos que, em Portugal, podem ser de venda livre e sem necessidade de receita médica.

Férias sim, mas com cuidados

É o que acontece, por exemplo, no Qatar, onde os medicamentos de venda livre, como aqueles que é costume comprar para combater os sintomas gripais ou a tosse, são considerados substâncias controladas e têm, também estes, que se fazer acompanhar por uma receita do médico.

De resto, o Portal das Comunidades Portuguesas deixa um aviso idêntico para este país, alertando para a “obrigatoriedade de todos os estrangeiros serem portadores de documentos médicos comprovativos da medicação que os acompanha para o tratamento que estão a fazer”, sendo ainda “obrigatória a sua tradução em árabe. Em caso contrário, os medicamentos poderão ser confiscados e, consoante o caso, para além de multas poderão incorrer em procedimento criminal”.

No Japão, existem restrições à entrada de medicamentos, mesmo que para uso pessoal. Por terras do sol nascente, alguns dos mais comuns medicamentos para a gripe, os que contêm pseudoefedrina na sua composição, estão banidos, sendo necessária uma declaração médica sobre o estado de saúde e necessidade do seu uso.

Também em Singapura os comprimidos que ajudam a dormir requerem uma autorização médica.

Outros exemplos chegam de paragens como a Costa Rica ou a China, onde os turistas têm também que se fazer acompanhar pela receita médica se não quiserem deixar em casa a medicação que estão habituados a tomar.

Ou ainda da Indonésia, um país popular entre turistas portugueses, sobretudo para a prática de surf, onde muitos dos remédios que por cá são legais, quando receitados por um especialista, por lá não passam ao crivo das autoridades.

Violar estas regras pode dar direito muitas dores de cabeça e até mesmo a tempo de prisão, avisam as autoridades.

Genéricos geraram poupança de quatro mil milhões em 15 anos

Por Investigação & Inovação

Com a despesa em saúde a aumentar, uma inevitabilidade que resulta do envelhecimento da população e das doenças que o acompanham, conceitos como sustentabilidade e desperdício ganham um novo significado. E protagonismo. É aqui que entram os genéricos, medicamentos que, nos últimos 15 anos, proporcionaram uma poupança nacional de quatro mil milhões de euros.

O número foi avançado por Paulo Lilaia, presidente da Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (APOGEN), na celebração dos 15 anos de vida da organização. Mas não foi o único. O responsável acrescentou ainda que, se tudo correr como esperado, entre 2018 e 2020 o potencial de poupança vai além dos 300 milhões, apenas com os genéricos.

A estes juntam-se os biossimilares, que irão permitir juntar a este valor outros 100 milhões. Ao todo, a poupança estimada ultrapassa os 400 milhões.

“Não há espaço para o supérfluo e para o desperdício”, afirma. “É fundamental ter soluções alternativas, com custos que se possam assumir”, acrescenta, reforçando que os serviços de saúde têm que disponibilizar “mais e melhores serviços”, que podem ser garantidos pelos genéricos e biossimilares.

Mais poupança no futuro

O objetivo para os próximos anos é continuar a promover o uso destes medicamentos, alternativas comprovadamente seguras e muito menos dispendiosas. Embora a quota nacional de medicamentos genéricos , em unidades, tenha atingido um valor recorde no primeiro trimestre deste ano (48,2%), o potencial de crescimento é ainda grande, confirma Paulo Lilaia. 

“Podemos atingir, em Portugal, até 65% de quota máxima, mas nos últimos anos temos assistido a uma tendência de estagnação”, que é preciso combater, reforça o especialista. “Temos razões mais do que suficientes para sermos mais racionais no consumo de medicamentos.”

Custos com medicamentos a subir

Um dos convidados das celebrações dos 15 anos  da APOGEN, António Melo Gouveia, diretor dos Serviços Farmacêuticos do IPO de Lisboa, não escondeu que é defensor dos medicamentos genéricos. E a poupança que estes medicamentos já permitiram e continuam a permitir gerar são motivos que os justificam. 

“Nos últimos 14 anos, os custos com medicamentos no IPO Lisboa aumentaram 80%”, explica, recordando que o investimento em saúde não tem acompanhado este crescimento. “Como resolvemos isto? Como tratamos os doentes? Temos que usar protocolos clínicos adequados, muito rigor na gestão e aproveitar todas as oportunidades.” E os genéricos são uma delas.

“E se não houvesse genéricos”, questiona o especialista, que responde com números e exemplos. Um deles refere-se a um medicamento que, quando não tinha alternativa genérica, custava 70€ por comprimido. “Em 2013, quando apareceu o genérico, o preço desceu de 70 para 1. Literalmente, de 70€ para 1€.”

O especialista não tem dúvidas em relação à segurança e eficácia dos genéricos. “Se a Agência Europeia de Medicamentos diz que são seguros, se se consegue, com dados de vida real, com outros estudos, confirmar isso, sinto-me tranquilo.” E também não tem dúvidas que “se um grupo relevante de medicamentos não tiver genéricos, tornam-se num fator de insustentabilidade”.

‘Apps’ dos SNS conquistam os portugueses

Por Investigação & Inovação

As ‘apps’ do Serviço Nacional de Saúde (SNS) estão a conquistar os portugueses. Da MySNS Carteira, que permite guardar diferentes cartões eletrónicos de saúde no telemóvel, à MySNS Tempos, que informa sobre o tempo médio de espera nas urgências, já foram feitos mais de 380 mil downloads.

Até ao dia 28 de maio, 386.275 mil downloads das ‘apps’, tanto nos sistemas operativos iOS como Android, tinham sido feitos pelos portugueses, que não escondem a preferência pela MySNS Carteira, utilizada por cidadãos de todas as faixas etárias e que chegou aos 166.335 mil downloads até ao dia 28 de maio.

A MySNS, a aplicação oficial do SNS que faculta o acesso à informação e aos serviços digitais da saúde, alcançou 166.312 mil downloads, enquanto a MySNS Tempos foi descarregada 53.628 vezes.

Modernização e evolução do SNS

“Inserindo-se no Registo de Saúde Eletrónico, e como ferramentas comunicacionais dinâmicas, as aplicações móveis do SNS, desenvolvidas pela Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, estão em constante processo de evolução e crescimento”, lê-se no comunicado sobre o tema.

“Pautam-se por princípios de transparência, inovação, qualidade e promovem o acesso à melhor informação em saúde, tornando o SNS mais interativo, atual e cumprindo serviço de cidadania.”

Responsabilizar cada vez mais o cidadão na gestão da sua saúde e fomentar a literacia digital são os objetivos principais da aposta nesta forma de interação com os utentes, que se integram num processo de evolução dos sistemas de saúde nacionais.

“Com todas estas aplicações móveis, o SNS está mais inovador, interativo, atual e próximo do cidadão.”

Inteligência artificial deteta mais cancro de pele que os médicos

Por Investigação & Inovação

Podem as máquinas ser melhores do que os humanos? A questão está na ordem do dia, com o advento da inteligência artificial. E podem as máquinas ser melhores do que médicos? O teste foi feito para o diagnóstico do cancro de pele, e a máquina conseguiu melhores resultados. 

Num estudo, publicado na revista Annals of Oncology, investigadores alemães, norte-americanos e franceses treinaram uma rede neuronal convolucional de aprendizagem profunda (CNN), ou seja, uma forma de inteligência artificial, para que identificasse casos de cancro de pele. Isto através da amostra de mais de 100.000 imagens de melanomas malignos (a forma mais grave de cancro de pele) e sinais benignos.

Compararam, depois, o seu desempenho com o de 58 dermatologistas internacionais e verificaram que a CNN identificou mais melanomas, tendo distinguido mais vezes de forma correta a diferença entre sinais benignos e malignos.

Inteligência Artificial capaz de aprender

A CNN é uma rede neuronal artificial, inspirada nos processos biológicos que ocorrem quando as células nervosas (neurónios) do cérebro estão conectadas entre si e respondem ao que o olho vê. A CNN é capaz de aprender rapidamente a partir de imagens que ‘vê’ e de melhorar o seu desempenjo, a partir do que aprendeu, um processo conhecido como aprendizagem de máquina.

O primeiro autor do estudo, Holger Haenssle, responsável pelo Departamento de Dermatologia da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, explica que “a CNN funciona como o cérebro de uma criança. Para treiná-lo, mostramos à CNN mais de 100.000 imagens de sinais de pele malignos e benignos e indicamos o diagnóstico para cada imagem. Apenas foram usadas imagens dermatoscópicas, ou seja, lesões que foram ampliadas 10 vezes. A cada imagem de treino, a CNN melhorou a sua capacidade de diferenciar entre lesões benignas e malignas”.

“Depois de terminado o treino, criamos dois conjuntos de imagens de teste da biblioteca de Heidelberg que nunca tinham sido usados e que, portanto, eram desconhecidos da CNN. Foi construído um conjunto de 300 imagens para testar somente o desempenho da CNN. Antes disso, 100 das lesões mais difíceis foram selecionadas para testar verdadeiros dermatologistas, em comparação com os resultados da CNN.”

Desempenho da máquina supera o dos médicos

Foram convidados a participar dermatologistas de todo o mundo. Ao todo, 58, de 17 países, aceitarem o desafio. Destes, 17 (29%) indicaram ter menos de dois anos de experiência em dermatoscopia, 11 (19%) afirmaram ter entre dois e cinco anos de experiência e 30 (52%) eram especialistas com mais de cinco anos de experiência.

Pediu-se aos dermatologistas que primeiro fizessem um diagnóstico de melanoma maligno ou sinal benigno apenas a partir das imagens dermatoscópicas (nível I) e decidissem como gerir a situação (cirurgia, acompanhamento a curto prazo ou nenhuma ação necessária).

Quatro semanas depois, receberam informações clínicas sobre o doente (incluindo idade, sexo e posição da lesão) e imagens aproximadas dos mesmos 100 casos (nível II), tendo sido solicitados novamente diagnósticos e linhas de ação.

No nível I, os dermatologistas detetaram com precisão uma média de 86,6% de melanomas e identificaram corretamente uma média de 71,3% de lesões que não eram malignas.

No entanto, quando a CNN foi sintonizada no mesmo nível dos médicos para identificar corretamente os sinais benignos, esta detetou 95% dos melanomas. No nível II, os dermatologistas melhoraram o seu desempenho, diagnosticando com precisão 88,9% dos melanomas malignos e 75,7% dos não cancerígenos.

Tecnologias alvo de estudos

“A CNN ‘perdeu’ menos melanomas, o que significa que tinha uma sensibilidade maior do que a dos dermatologistas, e diagnosticou erroneamente menos sinais benignos, o que significa que tinha uma maior especificidade, resultando em menos cirurgias desnecessárias”, afirma Holger Haenssle.

Ainda de acordo com o especialista, “quando os dermatologistas receberam mais informações clínicas e imagens de nível II, o seu desempenho ao nível do diagnóstico melhorou. No entanto, a CNN, que ainda estava a trabalhar apenas a partir das imagens dermatoscópicas sem informações clínicas adicionais, continuou a superar as habilidades diagnósticas dos médicos”.

Os dermatologistas especialistas tiveram melhor desempenho no nível I do que os dermatologistas menos experientes e foram melhores na deteção de melanomas malignos. No entanto, a sua capacidade média para fazer o diagnóstico correto era ainda inferior à da CNN em ambos os níveis.

“Estas descobertas mostram que as redes neurais convolucionais de aprendizagem profunda são capazes de superar os dermatologistas, incluindo os especialistas extensivamente treinados na tarefa de detetar melanomas.”

Há quase 20 anos que Haenssle tem estado envolvido em projetos de investigação que visam melhorar a deteção precoce do melanoma. “O meu grupo e eu estamos concentrados em tecnologias não invasivas que podem ajudar os médicos a deixar passar melanomas, por exemplo, enquanto realizam exames de cancro de pele.”

Por isso, quando encontrou relatórios recentes sobre algoritmos de aprendizagem profunda que superam os especialistas humanos em tarefas específicas, soube de imediato “que precisávamos de explorar esses algoritmos de inteligência artificial para diagnosticar o melanoma”.

Máquinas ajudam os especialistas

Os investigadores não preveem que a CNN substitua os dermatologistas no diagnóstico do cancro de pele, mas defendem que poderia ser usada como uma ajuda adicional.

“Esta CNN pode servir aos médicos envolvidos na triagem do cancro de pele, como auxílio na decisão de fazer uma biopsia ou não de uma lesão. A maioria dos dermatologistas já usa sistemas de dermatoscopia digital para visualizar e armazenar lesões para documentação e acompanhamento”, explica.

“A CNN pode então avaliar rápida e facilmente a imagem armazenada para uma ‘opinião especializada’ sobre a probabilidade de ser melanoma. Atualmente, estamos a planear estudos prospetivos para avaliar o impacto na vida real da CNN para médicos e doentes.”

O estudo tem algumas limitações, que incluem o facto de os dermatologistas terem sido colocados num ambiente artificial, onde sabiam que não estavam a tomar decisões de “vida ou morte” e ainda de não terem acedido a conjuntos de teste com toda a gama de lesões da pele, havendo menos imagens validadas de tipos de pele não caucasiana e de origem genética.

Por isso, vários especialistas destacam uma série de questões que precisariam de ser abordadas antes de a inteligência artificial se poder tornar padrão nas clínicas, incluindo a dificuldade de visualizar alguns melanomas em locais como dedos e couro cabeludo ou melanomas atípicos. 

Chip ingerido pelos doentes quer ajudar no diagnóstico

Por Investigação & Inovação

São “bactérias-num-chip”, um sensor pequeno o suficiente para ser engolido e que promete revolucionar o diagnóstico e tratamento de doenças gastrointestinais. É pelo menos nisso que acreditam os cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT), de onde chega a novidade.

Equipado com bactérias geneticamente modificadas, este chip combina sensores feitos com células vivas e componentes eletrónicos de baixa potência, capazes de converter a resposta bacteriana num sinal sem fios. Ou seja, estas bactérias, envoltas em uma membrana semipermeável, emitem luz quando detectam um biomarcador de doença, que por sua vez desencadeia uma corrente elétrica e transmite um sinal para um smartphone.

Uma combinação que, afirma Timothy Lu, professor associado de Engenharia Elétrica do MIT torna possível “a deteção de sinais biológicos do corpo, quase em tempo real, permitindo novas capacidades de diagnóstico para aplicações na saúde humana”.

Diagnosticar as doenças a partir de dentro

Atualmente, a suspeita de hemorragia por úlcera gástrica exige a realização de uma endoscopia, para a qual é necessário sedar os doentes. Testado para já em porcos, o pequeno sensor, que os cientistas acreditam poder ser usado uma única vez ou projetado para permanecer no trato digestivo durante vários dias ou semanas, foi usada para determinada a presença de hemorragia gástrica, tendo, de facto, conseguido confirmar a existência de sangue no estômago. 

“O objetivo com este sensor é ser capaz de contornar a realização de um procedimento desnecessário. Basta apenas ingerir a cápsula e, num período relativamente curto de tempo, conseguimos saber se havia ou não uma situação de hemorragia”, explica Mark Mimee, um dos autores do trabalho.

Para ajudar a levar esta tecnologia do laboratório até ao uso clínico, os investigadores têm planeado reduzir o tamanho do sensor e verificar quanto tempo as células das bactérias podem sobreviver no trato digestivo, prevendo ainda desenvolver sensores para problemas gastrointestinais para além da hemorragia.

“A maior parte do trabalho que fizemos estava relacionado com sangue, mas é possível desenvolver bactérias para detectar qualquer outra coisa e fazer com que produziam luz em resposta a isso”, confirma Mimee.