O número de pessoas com ataque cardíaco que procuraram atendimento hospitalar urgente caiu mais de 50% durante o surto do novo coronavírus, revela uma avaliação mundial feita pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC). Motivo: medo da COVID-19

“Esta é a evidência mais forte que temos dos danos secundários causados ​​pela pandemia”, refere Barbara Casadei, presidente da ESC.

“O medo de apanhar o coronavírus significa que mesmo as pessoas com um ataque cardíaco e risco de vida têm muito medo de ir ao hospital para tratamentos que salvam vidas. Houve uma falta de garantia pública de que foram feitos todos os esforços para proporcionar áreas hospitalares limpas para doentes não-COVID-19”, acrescenta.

“No entanto, o risco de morrer de um ataque cardíaco é muito maior do que o risco de morrer de COVID-19. Além disso, a morte cardíaca é amplamente evitável se os doentes chegarem ao hospital a tempo de receber tratamento. O que estamos a testemunhar é uma perda desnecessária de vidas. A nossa prioridade deve ser impedir que isso aconteça. Devemos continuar a salvar as vidas que sabemos como salvar.”

Medo da COVID-19 impede tratamentos

A investigação da ESC foi feita junto de 3.101 profissionais de saúde de 141 países e realizada em meados de abril.

Nos casos de ataques cardíacos mais graves, conhecidos como enfartes do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST, uma artéria principal do coração fica bloqueada. O tratamento urgente, com um stent ou medicação, restaura o fluxo sanguíneo, salva vidas e evita a incapacidade. O atraso causa danos irreversíveis no músculo cardíaco, aumentando substancialmente o risco de insuficiência cardíaca e morte.

A grande maioria dos médicos e enfermeiros dos hospitais que responderam ao inquérito da ESC relatou uma queda no número de pessoas com estes ataques cardíacos graves a chegar ao hospital, em comparação com o que acontecia antes da crise da COVID-19.

Em média, a queda foi de 50%. Mais ainda, a maioria dos entrevistados afirmou que, dos doentes que foram ao hospital, 48% chegaram mais tarde do que o normal e além da janela ideal para tratamento urgente.

Uma avaliação feita à parte, junto de cardiologistas de intervenção, médicos que inserem stents para abrir artérias bloqueadas, constatou um aumento de 28% nas complicações com risco de vida nos doentes com ataques cardíacos durante a pandemia.

Esta sondagem, realizada pela Associação Europeia de Intervenções Cardiovasculares Percutâneas (EAPCI), entrevistou mais de 600 cardiologistas de intervenção de 84 países durante as primeiras duas semanas de abril e quase metade dos entrevistados disse que a restauração do fluxo sanguíneo foi atrasada devido aos medos da COVID-19, uma situação que provavelmente levaria a morte prematura e incapacidade.

“Os atrasos que estamos a ver em pessoas com ataque cardíaco que chegaram ao hospital têm consequências prejudiciais significativas”, refere o presidente eleito da EAPCI, Dariusz Dudek.

“Os doentes que não se apresentam prontamente estão em muito pior estado quando finalmente chegam ao hospital e, muitas vezes, é tarde demais para beneficiarem do tratamento que podemos oferecer para salvar vidas”, acrescenta.

“Não demore se tiver sintomas de ataque cardíaco: ligue para o 112. Cada minuto conta.”

O inquérito da EAPCI revelou também que o número de outros procedimentos foi drasticamente reduzido durante a pandemia.

“As intervenções nas válvulas cardíacas e outros procedimentos devem ser retomadas assim que a situação local da COVID-19 o permita. Precisamos de evitar sofrimento e morte desnecessárias”, reforça.

“O medo da COVID-19, da infeção na ida ao hospital deve ser travado. As pessoas precisam de ter certeza de que o risco hospitalar de infeção por coronavírus foi minimizado para as que fica internado com ataques cardíacos ou AVC. Se tiver dor no peito ou outros sintomas de ataque cardíaco, como dor na garganta, pescoço, costas, estômago ou ombros que duram mais de 15 minutos, chame uma ambulância. Lembre-se que a mortalidade por COVID-19 é 10 vezes menor que a associada a um ataque cardíaco não tratado. E o tratamento rápido para um ataque cardíaco funciona”, conclui Barbara Casadei.